Publicado originalmente no blog Na Zaga e nas Artes por Rosza Zoladz

Tem-se com frequência comentários feitos por narradores das partidas de futebol pela TV sobre confusões quanto à marcação de cobranças de faltas, à cobrança de penalidades, ao direito à cobrança de pênalti, à aplicação de cartão vermelho, amarelo e tantas outras situações. Não há muita clareza sobre esses acontecimentos durante o jogo. Até no Barcelona x Milan.

Coloca-se, então, uma pergunta: Haverá regras nítidas que caracterizem as situações em que entram em jogo a necessidade mais precisa de algum julgamento? O que é preciso ser compreendido é que na interpretação da regra há sempre o fator emocional que interfere na arbitragem e nos comentários do que é certo, do que é errado. Durkheim e Mauss já nos ensinaram que a vida social é o mundo do arbítrio.

Na verdade a questão da subjetividade, da emoção estiveram presentes desde o período pouco sereno da história dos Hebreus; isso se deu entre a conquista da Terra de Canãa no final da vida de Josué até a organização do primeiro reinado que ficou conhecido como democracia tribal. O Livro dos Juízes é atribuído ao profeta Samuel no reinado de Saul (mais ou menos 1050 a.C). o que se pode ali constatar é que as regras que aparecem e se consolidam são como que decorrentes da necessidade de enfrentar as dificuldades da existência contra inimigos. Os Juízes menores com cargos vitalícios vão sendo substituídos por Chefes Carismáticos, os Juízes maiores que lideram e unem as tribos. No campo das artes dá-se também um fenômeno, no dizer de Jean Duvignaud, meu mestre e amigo, que por ele é exemplificado com o termo latino religare. É como se a vida social e o futebol que, é a representação microscópica dela, assim como as artes, as festas, tivessem a função de juntar as partes disavindas, digamos, pelas complexidades da vida social em nossos dias.

É bem verdade que o futebol em cada campeonato tem um regulamento diferente. Por vezes dois ou mais campeonatos se dão ao mesmo tempo. Há, portanto, um desgaste físico dos jogadores e uma confusão na contagem dos pontos que valem a cada jogo disputado acréscimos ou não de pontos, das perdas. O jogador Deco do Fluminense resumiu no Engenhão essa situação: “Precisamos aprender a jogar a Libertadores.” Fernando Calazans (Esporte O Globo, sexta-feira, 13 de abril de 2012) diante da desclassificação do Flamengo corrobora o que Deco afirmou: “Os profissionais do Flamengo – sim, os profissionais – aprenderão a lição de como se disputa uma Copa Libertadores? Os jogadores do Flamengo revelaram ter aprendido tarde a lição.” O Flamengo foi desclassificado.

Mas não é só isso: a eclosão da violência após a partida, com as agressões físicas aos jogadores, ao Juiz, a cobrança de justificativas para certos procedimentos considerados inadequados, demonstram algo muito claro. É preciso fazer uma releitura do que regula a arbitragem dos jogos a ser exercida por Juízes mais bem preparados. Como Durkheim e Mauss nos advertiram diante da maleabilidade da vida social.