Publicado originalmente por Bolívar Torres no jornal O Globo em 02/04/2013

RIO – Da Bíblia ao Twitter, a língua sempre esteve em processo de reinvenção. As possibilidades dramáticas, visuais e musicais desta mutação são o mote de “LAB FEST — Ópera literária”, espetáculo elaborado pelo artista visual Batman Zavarese, pelo músico Siri e pelo autor e compositor Fausto Fawcett, que encerrará, nesta terça, às 19h30m, no Oi Futuro Flamengo, o projeto Zona Digital. Num entrelaçamento entre teatro, cinema e música, o trio remixará fragmentos literários processando a leitura do Fawcett com recursos digitais e eletrônicos na busca de uma nova extensão da palavra.

— Vivemos num mundo onde o clássico convive com as linguagens abreviadas do MSN, do Twitter e do Facebook — diz Zavarese. — Quem não foi alfabetizado na era do computador pode se sentir um analfabeto. É como se fossemos bilíngues dentro da nossa própria língua. Transformações sempre provocam choque e gritaria, mas há muita beleza nessa reorganização antropofágica da língua, que está sempre viva.

Para mostrar essa evolução, que atravessa os séculos desde as origens da estrutura literária até o novo código de palavras da informática, o artista elaborou uma série de recursos visuais, como projeções em suportes translúcidos que criam efeitos holográficos.

As leituras selecionadas por Fawcett vão da Bíblia a livros de neurologia, de manuais técnicos a poemas de Ferreira Gullar. Em determinado momento, serão cruzadas por conversas e diálogos garimpados em redes sociais. O espaço ficará repleto de pedestais e microfones. Estes, quando abertos, criarão interferências específicas para cada trecho.

— Os textos podem parecer conflitantes, mas aos poucos vão conversando entre si — explica Fawcett. — Ao final do espetáculo, fica a impressão de que se complementam.

Na parte musical, Siri improvisará de acordo com a reação da plateia. A surpresa exerce um papel importante no espetáculo. Desde o princípio, a ideia era a perda do controle. Cada artista invadia a área dominada pelo outro. A performance dá grande margem para a improvisação.

— Queríamos explorar todas as possibilidades da caixa-preta — diz Zavarese. — Estimular sensações múltiplas para sair do nosso quadrado.