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DRAGÃO CULTURAL
Darcy Ribeiro, a utopia do intelectual indignado

Folha de S. Paulo
01/10/1983

Neste exato momento ele não está lançando livro nenhum. Mas, por outro lado, lança uma média de 350 idéias por minuto na categoria de Secretário Extraordinário de Ciência e Cultura. Considero, portanto, para nós, literatos, conveniente investigar o que pensa e como se situa, em termos de literatura, Darcy Ribeiro, que além de antropólogo e homem público é também um escritor best-seller. Maíra, O mulo e Utopiaselvagem — romances esgotados, reeditados, traduzidos, amados e contestados — refletem uma opção clara de linguagem e de visão de mundo que se alinha na tradição de construção de uma literatura que procura expressar e interpretar nossa "brasilidade" ou, como prefere (e se empenha) seu autor, realizar "um espelho para o brasileiro se ver".

Folha — Uma ocasião me lembro de ter observado que seu pulo da produção teórica para a literária havia se dado sem "rito de passagem". Como você descreveria as diferenças entre seu trabalho como romancista e como teórico?

D.R. — Para começar quero dizer que não sei como um livro se constrói dentro de mim. Sei, entretanto, como um ensaio de antropologia se constrói. O romance é como uma espécie de vômito do inconsciente, sai meio feito, como um enredo de sonho. O romance é construído numa área que você não controla e, na medida em que você tenta controlar, ele deixa de sair. São sedimentos de pensamento que vão se acumulando até que, num determinado momento, eu sinto que posso parir, e aí começa um trabalho tremendo, porque para mim é muito difícil escrever, não só porque tenho uma preocupação grande com a forma, mas também porque a forma me ofende. Há também o que eu chamo de emsembler, juntar as peças, montar, que é outro trabalho difícil e lento. Aliás, um livro nunca se completa (o científico também não), chega um ponto em que você não agüenta mais e larga. Outra coisa: literatura se faz a partir de uma dupla inocência. Primeiro, no sentido de que sai do fundo do inconsciente e de modo incontrolável, ao contrário da ciência. Segundo, porque é lida com inocência. O drama indígena que há em "Maíra" parece entrar dentro do leitor de uma forma que nunca entraria se fosse uma discussão científica ou política. Mas não sei se tenho razão em falar de inocência quando parece que tudo isso é tão anti-inocência...

"Em Maíra, eu entro no corpo do índio
e olho o mundo com olhos de índio"

Folha — O que me parece interessante nos seus romances é uma visão profundamente poética, mas que não abandona o ponto de vista do antropólogo, ou seja, um olho que se identifica com o olho do outro. Fale um pouco disso.

D.R. — Em Maíra eu entro no corpo do índio e olho o mundo com os olhos do índio. Tento carnalizar a dor de ser índio, mas é também um livro de gozo, da gente que não herdou a brutalidade, a bossalidade judaica-cristã, coisa que eu nunca poderia ter expressado como antropólogo. Já no Mulo, entro no couro do meu povo, a classe dominante rústica brasileira, a classe mais bruta do mundo. Enquanto Maíra é um livro solar, O mulo é um livro lunar, soturno. Por sua vez, a Utopia selvagem é um trabalho com os mitos elementares procurando expressar o nosso modo de ser brasileiro. Antropofagia e canibalismo, guerra e militarismo, componentes míticos e componentes factuais atravessam o livro na busca de uma identidade étnica, ou seja, atrás da pergunta "quem somos nós?"

"Gilberto Freyre é um reacionário,
mas seu livro importantíssimo"

Folha — Como você vê a adequação do movimento antropofágico de 28 no Brasil de hoje, evidentemente muito mudado?

D.R. — A Antropofagia do Oswald de Andrade era a expressão de um momento da literatura mundial e Oswald teve um talento formidável de devorar aquilo e dar uma linguagem para isso. Mas na realidade a antropofagia de Oswald é apenas uma promessa, de um vigor incrível, mas que nunca se completou como ato. Quem completa o ato é Mário de Andrade com Macunaíma, um livro definitivo, feito de erudição, um dos textos mais belos e mais dignos que o Brasil já teve. Foi um movimento de encontro conosco mesmo, contra o endeusamento do gramaticismo, do retoricismo, do helenismo, do francesismo de Bilac, do mundo gramatical de Rui Barbosa. A antropofagia é sempre importante porque expressa, dentro do Brasil, uma assunção do Brasil.

Folha — Como se configura, na literatura brasileira, a brasilidade?

D.R. — É uma consciência que se vai construindo, que ainda hoje está se construindo. No plano literário veja, por exemplo, Gonçalves Dias. Ele fez obra como etnólogo, mas a sua postura é uma postura de índio de papel, o índio que ele amava era o de Chateaubriand, um índio belo. Suas poesias são belas como poesias indígenas mas nunca brigou a favor dos índios, mas de qualquer forma é uma aproximação. Alencar também. Machado dá uma certa imagem de povo e de escravidão, mas certamente nos ajudou a sermos brasileiros. É quando você lê os nordestinos que vem um vento novo, uma lufada de ar: Jorge Amado, Zé Lins, Graciliano.

Folha — Em se falando de brasilidade, vamos direto para os três casos quentes que são Gilberto Freyre, Jorge Amado e Glauber Rocha.

D.R — Eu já disse, num prefácio, que o Casa grande e senzala é o livro mais importante que já se escreveu no Brasil e que o brasileiro que não leu é um imbecil porque é um livro belíssimo, importantíssimo, com uma linguagem nova, uma expressão barroca. É dez mil vezes melhor que o Cervantes. No meu ensaio exponho minha perplexidade porque o Gilberto é um reacionário horroroso, e não sei como aquele pobre ser pode escrever aquele livro enorme. Agora, ninguém escreveu ainda o Senzala e casa grande, quer dizer, o drama visto do ponto de vista do negro com aquele sentimento, com aquela coragem, com aquela beleza. Sobre o Jorge Amado, para mim os textos dele estão crus, a linguagem é desleixada, mas tenho uma inveja brutal dele. Eu queria ter essa capacidade de sintonizar com o gosto do leitor brasileiro, contar histórias daquela forma fantástica e incomparável. Acho que o Jorge é muito importante porque, para mim, fazer literatura é fazer o espelho onde o povo se veja, e quem deu mais espelho ao Brasil do que o Jorge? Ele educou o Brasil a aceitar sua raça, aceitar que prostituta é gente, o orgulho da negritude, e isso é belíssimo. Quanto ao Glauber, penso que o povo brasileiro nunca falou tão alto, tão belo, quanto no seu cinema. É futebol ou Glauber, não é? Ele era um homem indignado que denuncia, que mostra o país que encarna o povo brasileiro.

Folha — Você gosta é dos iracundos...

D.R.— Há duas formas de intelectuais: a mais numerosa é a dos áulicos, do ajudante de ordens, aquele que está contente com o mundo tal qual é, e fazem seu papel. E há os iracundos, os intelectuais raivosos como o Gregório de Matos que é uma beleza de iracundo, a primeira vez que o Brasil tem espírito é com Gregório. Ele é português, mas a primeira vez que o Brasil é brasileiro é com ele. Há ainda o iracundo Manuel Bonfim, o Silvio Romero que mostrou que o racismo é uma técnica européia de dominação colonial e declarou com todas as palavras que o mulato brasileiro funcionava perfeitamente bem.

A utopia não é projeto,
é apenas um contraste para obrigar a pensar

Folha — A quantas anda a literatura brasileira que se faz hoje?

D.R.— Só posso dar exemplos, sou presidente do Sindicato dos Escritores... O Sargento Getúlio, por exemplo, é um livro importante pela qualidade da linguagem, pela violência da história, é um livro que só poderia ter sido escrito no Brasil. Em termos de poesia, eu sou alimentado pelo Carlos Drummond de Andrade, a ele dediquei Maíra, minha carne é "carlosdrumônica". Mas há também o Cabral que traz um outro Brasil, estranho, belo. Mais recentemente, temos o "Poema sujo" do Gullar, que me comoveu porque é o que a poesia dever ser: berro, iracunda...

Folha — Você é conhecido como o homem da utopia. Você acredita na eficácia da utopia enquanto projeto?

D.R. — Não. Originalmente, no Thomas More, a utopia não era projeto, nem a minha utopia também é. Ela é apenas uma máquina de pensar, um contraste para obrigar a pensar, uma forma de quebrar a ilusão das falsas utopias que nos oferece o desenvolvimento progressista. Assim, minha utopia é, na realidade, uma anti-utopia. Meu projeto utópico é para ser realizado aqui e agora. Qualquer coisa parente do preâmbulo da introdução à Constituição utópica, inserido no meu livro a Utopia selvagem.

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