Publicado originalmente por Guilherme Freitas no jornal O Globo, em 22.06.2011


RIO – O manifesto “Literatura, plugada”, publicado ano passado na revista Publishers Weekly, referência do mercado editorial americano, começava no tom apocalíptico que domina as discussões atuais sobre o futuro dos livros: “Era uma vez um fazendeiro chamado Noé, que percebeu um mudança assustadora de clima…” Diante das transformações iminentes trazidas pelas tecnologias digitais, que arca seria capaz de salvar o meio literário da extinção?, perguntavam-se os autores do texto, os jovens americanos Andy Hunter e Scott Lindenbaum. Recém-saídos da faculdade, onde editavam uma revista literária, eles apresentavam no manifesto uma ideia mais prática e menos grandiloquente (“uma jangada”), a partir de sua experiência com o então recém-criado projeto “Electric Literature”.

Revista de contos trimestral que circula em diversos formatos (impresso, ebook para Kindle, aplicativo de iPad e iPhone, arquivo PDF por e-mail), a Electric Literature será apresentada por Lindenbaum no debate “Novos espaços para a literatura”, parte da série Oi Cabeça, que acontece nesta quarta-feira, às 19h30m, no Oi Futuro Flamengo, com entrada franca. Participam do debate o editor Paulo Werneck, do caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo, o jornalista e escritor Sergio Rodrigues, que mantém o blog literário Todoprosa, e o editor Carlo Carrenho, do boletim Publishnews, sobre o mercado editorial brasileiro.

Em entrevista ao GLOBO por telefone, de Nova York, Lindenbaum explica as bases da “jangada” que construiu com Hunter. Criada em 2009, a Electric Literature procura usar as novas tecnologias para solucionar as duas maiores dificuldades desse tipo de publicação: a distribuição e a remuneração dos autores.

– Publicamos em todos os formatos viáveis, porque acreditamos que hoje não faz sentido impor às pessoas uma forma de ler. Amo os livros, e ainda faço a maior parte de minhas leituras na poltrona com um deles, mas quando estou no trem quero poder ler no meu telefone. Queremos chegar aos leitores onde eles estiverem – diz Lindenbaum.

Atualmente na quinta edição, a Electric Literature traz cinco contos por número e já publicou autores contemporâneos importantes, como os americanos Michael Cunningham, Rick Moody e Lydia Davis, e o espanhol Javier Marías, entre outros. O segredo da distinta lista de colaboradores, além da persistência (Hunter dirigiu seis horas para convencer pessoalmente Jim Shepard a participar do número de estreia), é o pagamento generoso de US$ 1.000 por conto. A revista garante esse valor economizando em impressão e distribuição, calcula Lindenbaum.

Com circulação média de 8 mil exemplares por edição, a revista vende no site Electricliterature.com edições em papel por US$ 10, num esquema de impressão sob demanda que permite tiragens menores e mais baratas, e edições digitais por US$ 5 (disponíveis também em Kindle, tablets e smartphones). Oferecidos em várias plataformas, os contos só não estão disponíveis no próprio site da revista.

– Não somos uma revista on-line. Não publicamos no site, porque quem acessa a internet espera conteúdo gratuito, e temos o compromisso de pagar bem aos nossos autores. Se as pessoas aceitam pagar para baixar toques de celular, podem pagar por boa literatura.