[Em Cena]A mulher desiludidaSobre a peça em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvimpor Anna Wiltgen Fevereiro de 2006
“Monólogo” é uma das três narrativas contidas no livro “A mulher desiludida” que Simone de Beauvoir escreveu em 1967, pouco antes de completar sessenta anos de idade. Três universos distintos falando da condição feminina, em uma sociedade ainda comandada pelos homens. Porém, a profundidade e a sagacidade com que é abordado o tema, faz com que transcenda o particular e termine por tratar da condição humana em geral – a partir de questões de extrema atualidade, como a solidão existencial, a hipocrisia, a prepotência, o fracasso e o desespero. Resulta que o público que assiste, no teatro, Guida Vianna interpretando a desiludida Murielle, é fatalmente levado a identificar a personagem com pessoas que conhece ou com quem convive, e, até, consigo mesmo. O texto acaba por superar na cena, os preceitos ideológicos da literatura de Simone de Beauvoir.
Guida Vianna, assim como a autora, uma personalidade profunda e carismática, vive Murielle com a mesma dignidade com que a personagem – tão rica em contradições – vive sua loucura. Pois, a maior ferocidade de Murielle – que termina por destruí-la – é a certeza, o pedantismo e a prepotência com que trava uma batalha contra o mundo, acreditando-se íntegra, autêntica e contra hipocrisias. Assim, acaba por ser cruel com os outros, e, sobretudo, consigo mesma.
O espetáculo dirigido por Gilberto Gawronski exige da atriz um ritmo insano, que Guida executa com tamanha segurança, que deixa o espectador, em princípio, completamente atônito, se conscientizando, aos poucos, da patologia que se apresenta à sua frente. Porém, em um segundo momento, falta um pouco mais de tempo para uma melhor escuta e para uma construção de imagens de forma mais orgânica. Pessoalmente, foi a minha sensação: desejo de uma maior variação de ritmo durante o discurso falado, já que pausas existem e, inclusive, são irretocavelmente bem aproveitadas pela atriz. Além de Guida possuir uma fala forte e clara, prazerosa de ser escutada, intérprete e público merecem poder compartilhar com mais concentração, um texto tão penetrante.
Se a concepção técnica e artística, no geral, é correta, sem arroubos de criatividade, Guida Vianna encena a narrativa com a mesma força e o mesmo humor, com que Simone de Beauvoir escreveu seu “Monólogo”.
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