[Em Cena]Diante da flor, Cyclonepor Patrícia Flores
Está em cartaz até outubro na Escola de Cinema Darcy Ribeiro, no Centro, a peça "O Perfeito Cozinheiro Das Almas Deste Mundo". Inspirada na obra homônima de Oswald de Andrade, a peça aborda a relação do modernista com Maria de Lourdes Castro Pontes.
Peças sobre relações de casais têm aos montes em todo lugar. Não é fácil encontrar uma que trate do assunto de forma mais interessante, poética ou madura. Muitas são comédias superficiais ou melodramas sem tom. Mas O Perfeito Cozinheiro... achou um bom caminho pra abordar o tema. A peça agrada com um tom doce e real.
A idéia de partir do romance de Oswald (“Miramar”) e Maria de Lourdes (“Cyclone”) foi acertada. É muito instigante imaginar como o pai do modernismo administrou o seu “desarmamento” diante da paixão por uma moderna normalista dez anos mais nova. Todos sabem que foi uma paixão tórrida, marcante e inspiradora para o artista, algo que deixou uma marca profunda na vida e obra de Oswald. Uma história conturbada com final trágico e romântico, como as mais famosas e adoradas histórias de amor que povoam a literatura e o consciente coletivo da sociedade. Os atores Luiza Mariani e Diogo Salles são os encarregados de representar esse casal tão especial. E o fazem com muito carisma. Mariani conquista o público imediatamente. Os diálogos ajudam nessa boa troca com a platéia. São enxutos e carismáticos. É gostoso presenciar a tensão entre o amor e o ciúme, o desespero de Oswald diante de tão enigmática mulher, a sua impotência diante dos constantes sorrisos marotos daquela mulher. Também é interessante assistir à angústia abafada da mulher que vê sua saúde debilitada, sua vida se esvaindo, mas só quer mostrar alegria e segurança. Uma autêntica mulher moderna, que mostra confiança e romantismo, que ao mesmo tempo que parece ser de ferro, se mostra delicada como a flor que sempre carrega.
Depois de um bom tempo mostrando o casal histórico a peça retrata um casal se separando, dividindo os bens amigavelmente. O casal está na mesma casa que anos antes pertencera a Oswald. A direção mantém uma movimentação e forma de dialogar do segundo casal que o liga ao primeiro par, trazendo uniformidade à peça. A forma de mostrar ambas as histórias é enxuta e pontual e não subestima o público. Não há a preocupação de deixar tudo muito explicado, mas tudo é exposto de alguma forma. A história dos dois casais é passada com clareza e maturidade. Mateus Solano e Thiare Maia também estão bem. O tom naturalista de atuação escolhido pela direção combina com a peça e é efetuada com competência pelo elenco.
Entretanto, a peça tenta retratar também um casal em 2100, tempo no qual as pessoas se esqueciam do seu passado recente, sem saber por quem nutriam sentimentos no dia anterior. Mas, nesse tempo, há um “Miramar futurista” que não esquece o seu amor pela Cyclone do século XXII e precisa reconquistá-la diariamente. Neste momento, a peça perde sua linha. A sorte é que corresponde a um momento curto do espetáculo. Mas, não acrescenta muito a história e perde o tom contido que até então a peça apresentara. O espetáculo estaria muito bem sem essa cena, com certeza. Desnecessária. Por mais que mantenha o romantismo e o carisma na atuação, a cena representa uma perda de harmonia na ambientalização montada até então. Só justificaria sair tanto do tom, se a cena complementasse o espetáculo, o que não acontece. Enfim, cena dispensável. A equipe poderia ter se prendido no passado e presente, para mostrar o futuro. Deixar o que vai ser da vida dos casais para a reflexão e imaginação do público teria sido mais poético e acrescentaria mais à peça.
O Perfeito Cozinheiro... adaptou-se bem ao espaço da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, que infelizmente apresenta desconfortáveis cadeiras de madeira para a platéia. O espetáculo não soube usar a iluminação no espaço, mas soube utilizar outros meios de ambientalização. Fez uso das grandes janelas, espalhou palcos de forma a ocupar todo o lugar e ter o público entre os atores. A árvore no meio de tudo com suas delicadas flores sobre a platéia e o elenco também foi um ponto positivo. Foi importante o público chegar nesse lugar, sentindo um leve e adocicado odor, ouvindo uma deliciosa música e esperar os atores entrarem sem campainhas histéricas de teatro. O ator entra se incorporando ao ambiente, quase sem ser notado, mesmo com toda a ansiedade que carrega. Entra sem pedir licença, pois não está invadindo o espaço da platéia, apenas está em seu lugar. Enfim, o início da peça preparou bem o público para o bonito e delicado espetáculo que assistiria. E, no final, saímos com um gostinho de prazer por termos assistido a um espetáculo tão tocante.
O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo. Direção: Jefferson Miranda. Elenco: Luiza Mariani, Diogo Salles, Mateus Solano, Thiare Maia. Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Rua da Alfândega 5 / 3º andar – esquina com 1º de Março, Centro (Informações: 2516-9972; Reservas: 8152-2885). Qui e sex, às 19h30. Sáb e dom, às 19h. R$ 20. 14 anos. Até 29 de outubro.
Av. Pasteur, 250 -
2º andar
Urca
Rio de Janeiro - RJ - Brasil
CEP: 21295-900
Tel: +55 (21) 2295.1595
e-mail: forumliteraturaeteatro@gmail.com