[Em Cena]Doce Corapor Patrícia Flores
Após assistir ao espetáculo Cora Coralina Coração Encarnado, senti vontade de escrever sobre essa poetisa que tanto admiro. Primeiramente, gostaria de agradecer Renata Roriz por ter montado esse espetáculo que traz a simplicidade e feminilidade de Cora Coralina. Como foi gostoso entrar no teatro e ouvir os sinos de uma igrejinha provinciana em vez de estridentes sinais. E a ambientalização apenas começava. Como foi bom ver os tão bem selecionados poemas e contos representados. Ouvir música sair do trabalho da mulher interiorana: do atrito dos grãos com a peneira ou da colher de pau com o tacho de cobre, ou ainda da cabaça com o ralador de queijo: é a música dos versos coralinos. Ver imagens daquela senhora lúcida, feliz, cheia de inflexões e autenticidade. Testemunhar a atuação primorosa de Rita Elmôr. Sem dúvida, a ambientalização foi bem-sucedida. Foi um momento inspirador e emocionante!
Cora Coralina é tocante, singela, madura, sensível, suave, forte, brejeira. Sua competência de doceira não se restringia à feitura de quitutes. Estava também em sua obra e em seu modo de ver a vida. Ela mesma dizia “eu estava nos meus doces”. Sabia colocar a dosagem certa de acidez para a boa apreciação do doce. Quando tenho contato com a poesia-prosa de Cora sinto o gosto adocicado de suas palavras, com as devidas pitadas salinas ou adstringentes e as devoro até parecer satisfeita. Mas, a satisfação é daquele tipo com gosto de quero-mais, quero-todo-dia, como eu sinto ao comer a Ambrosia feita por minha avó. Ambrosia... alimento dos deuses... obra de Cora...
A sensibilidade dessa goiana faz com que a forma de descrever sua infância e as pessoas que viviam na Vila Boa de Goyaz seja não apenas poética e bonita, mas universal. Depois de Cora Coralina é impossível olhar um trabalhador do campo sem enxergar sua humanidade, assistir a uma brincadeira de criança sem refletir sobre a maquinaria que é a vida. Sua percepção quanto à relação da criança com o mundo, ou melhor, do mundo com a criança é sempre uma lição de vida. É tocante a história de Jesuína e o colar de cacos. Aninha, “a menina boba”, é o meio pelo qual a maturidade se anuncia. Paradoxo? Não na obra de Cora. Pois nesta, a maturidade se expressar pela infância significa harmonia, evidência. Nos poemas e contos, encontra-se a simplicidade sábia, a sabedoria sutil, a sensibilidade privilegiada.
Cora Coralina não é apenas a talentosa velhinha “descoberta” por Carlos Drummond de Andrade em 1980. Aliás, a velhice lhe trazia o orgulho de pertencer ao século anterior, mas marcava o seu período de brejeirice: “Fui velha quando era moça, sou velha namoradeira. Tenho a idade dos meus versos”. Foi uma mulher forte emparedada pela educação severa, pautada nos ensinamentos católicos e provincianos de sua família, e que soube driblar o desdenho de seu marido aos seus escritos que causaram extrema angústia quanto à sua ignorância. Trabalhou muito e nunca deixou de escrever. Não conseguia viver sem os seus escritos. E tinha um amor enorme pela sua terra, pela casa onde passara toda a sua infância e adolescência. Dizia que os 45 anos vividos em São Paulo representavam o tempo de sua volta para Goiás: “a volta demorou 45 anos, mas um dia eu voltei. Todos os dias eu caminhava um pouquinho”.
Retornou a Goiás para resgatar “a casa do berço azul” de sua nascença. Tinha uma forma de lidar com o passado diferente do comum. Sabia que não deveria buscá-lo no presente: “Não gosto da palavra ‘saudade’. Quanto ao passado eu tenho recordações e não saudade, saudade tem desejo de volta e isso eu não tenho”. Então, inseriu aquela casa à nova fase de sua vida, ou ainda, à melhor fase dela. Recuperada a posse da casa tão amada, entre os doces que fazia e as pessoas que observava naquela cidadezinha, a inspiração gritava por atenção e a colocava recriando e poetizando sua própria vida, no tardar da mesma. A vontade de publicar foi tamanha que aos 70 anos entrou no curso de datilografia para conseguir organizar todo o seu material.
Era no linguajar errado dos humildes, que Cora sentia o cheiro da terra molhada e da lenha cortada. Terminou a vida onde nascera para fechar o seu ciclo. Faleceu ciente da sua importância, sem falsa modéstia, pois sua característica principal era a sabedoria. Sabia o quando representaria para a vida de milhares de pessoas, de várias gerações. Não é à toa que morrera no coração do Brasil, no ventre de seu país. Sabia que seria o coração de muita gente. Que alimentaria eternamente inúmeras almas. Assim, sob sua sabedoria, escrevera seu epitáfio:
“Não morre aquele
Que deixou na terra
A melodia de seu cântico
Na música de seus versos”
Cora Coralina Coração Encarnado
Espetáculo teatral, a partir da obra de Cora Coralina
Com: Rafaela Amado, Renata Roriz e Rita Elmôr
Roteiro: Renata Roriz
Direção: Orã Figueiredo
Diretora assistente: Ana Paz
Cenografia: José Dias
Criação musical: Marcelo Alonso Neves
Figurinos: Raquel Iantas
Iluminação: Aurélio de Simoni
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