De 1994 a 1996, eu, José de Abreu e um casal viajamos pelo interior do Brasil com o Projeto Mambembom, por nós idealizado. Tendo como inspiração o conceito e a estrutura mambembe medieval e com o objetivo de levar teatro a um público que, na maioria das vezes, jamais assistiu uma peça teatral, o projeto percorreu cem cidades de seis estados apresentando o espetáculo A comédia dos amantes ou Os amantes da comédia de Luiz Arthur Nunes, dirigido por Claudia Borioni.
Ao invés da carroça típica dos saltimbancos medievais, a trupe de apenas quatro integrantes viajou em uma caminhonete Mitsubishi de cabine dupla, carregando consigo todo o material (cenário, figurino, som e luz) necessário para a apresentação da peça em qualquer tipo de espaço. Assim, o espetáculo foi apresentado em praças públicas - em cima de caminhão de laranja ou palco armado -, auditórios, clubes, circos, cinemas, salões paroquiais e até em teatros!
A idéia do Projeto Mambembom era de promover uma agitação cultural nas cidades visitadas durante os três dias de permanência da equipe, com palestras para estudantes - sobre teatro, cinema e televisão -, work-shops para grupos de teatro amador, além da presença da equipe nos eventos sociais - quermesses, desfiles, jogos de Bingo, feiras de gado e etc. - e na própria casa dos moradores. Enfim, todo o "corpo-a-corpo" tão apreciado pelo público e o qual julgávamos necessário para o cumprimento do objetivo do projeto: não apenas fazer a peça e ganhar o justo dinheiro da bilheteria - os ingressos eram, invariavelmente, a preços populares - como estabelecer uma relação e deixar marcas nas cidades visitadas.
Como nos veio a idéia do Projeto Mambembom, não tenho certeza. Mas, desde aquela época, José de Abreu acreditava que "viajar, mambembar, ir pra estrada era algo inerente à profissão de ator". 1 Além disso, viajar também diz respeito a questões pessoais de José, faz parte de sua essência. "É um lado humanitário, seminarista, católico com cristão culpado, socialista culpado, não sei, que me faz viajar pra me doar, pra ir aonde ninguém vai". 2
Fora de sua terra natal, Santa Rita do Passa Quatro / SP, desde os quatorze anos quando se mudou para a capital paulistana, viajou pela Europa no final dos anos sessenta, morou no Rio Grande do Sul e, desde os anos oitenta, mora no Rio de Janeiro. Foi no sul do país, no final dos anos setenta, que conheceu Luiz Arthur Nunes e fizeram a primeira peça juntos e a primeira turnê teatral de Zé. A salamanca do Jarau, peça com a qual viajaram pelo interior do estado gaúcho, serviu de inspiração para o Projeto Mambembom no que tangia à leve estrutura do cenário - dois cabides de pé e um baú.
Em 2006, mais uma vez um retorno à sua essência. Fala, Zé! não é apenas a turnê de um espetáculo teatral. Seguindo os moldes de A salamanca do Jarau e do Projeto Mambembom, José de Abreu colocou novamente os pés na estrada não apenas apresentando a peça, como fazendo palestras para estudantes universitários e, mais uma vez, se entregando ao corpo-a-corpo com o qual se identifica. Porém, agora sozinho em cena.
Sobre o espetáculo, não posso falar. Ainda não chegou ao Rio de Janeiro. Eis minhas impressões sobre o texto.
Para começar, teatro autobiográfico é algo que me amedronta enquanto espectadora. Primeiro, porque geralmente pretende ser o mais fiel possível à realidade se tornando entediante. Depois, porque a realidade que traduz é centrada em um único sujeito que se torna o objeto da ficção. E, particulamente, esta dinâmica não me seduz pelo grau de autoreferência que, invevitavelmente, a caracteriza. Porém, Fala, Zé! não fica apenas em uma dimensão chapada de relato fiel de memórias, mas conta fatos reais misturados a imaginários, apresentando a realidade com fantasia, com liberdade poética. Neste sentido, diz respeito não somente ao sujeito / objeto José de Abreu, como ao próprio teatro, à arte no geral. Pois, por meio do jogo com o tempo e com o espaço entre o real e o imaginário que se permite brincar, acaba por falar dos limites entre ficção e realidade.
O texto é bastante sintonizado com o próprio José de Abreu no conteúdo e na forma. A própria estrutura dramatúrgica traduz sua personalidade fantasiosa, delirante (mas que dá conta do real da vida) e, às vezes, megalômana. Assim, dando uma volta e retornando ao caráter de meros "demonstradores" da realidade dos textos autobiográficos em geral, acaba sendo fiel aos fatos e à trajetória de José, porém, sem ser aborrecedor e superficial. O texto é cômico e político, com toques líricos.
O final é poético e até meio naif - no bom sentido - pois tem a carga da desilusão que todos nós, brasileiros que lutamos por Lula, tivemos. Se na época do Projeto Mambembom, tínhamos a utopia de "deixar marcas" nas cidades visitadas, transformar as pessoas de algum jeito, hoje, em Fala, Zé! José pergunta para a platéia: será que adianta? A resposta continua em aberto.
[1] Entrevista para Anna Wiltgen em 14/02/2006 [2] Idem.
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