[Em Cena / Dossiê] Medéia em-cena Encenações por Aline Paula de Oliveira Leite e Ana Paula Alves Fernandes Medéia de Bia Lessa

Desde o dia 22 de abril de 2004, a montagem do clássico de Eurípides (480-406 a.C.), protagonizado por Renata Sorrah, ocupa literalmente o teatro Dulcina no centro do Rio. Acerca dessa montagem, fala Bia: "Eu não gosto do mero cenário, da decoração, da mesa, da cadeira. Gosto que as pessoas [atores, espectadores] se inventem e sejam cúmplices a partir do que o espaço está propondo. Aqui no Dulcina trabalhamos com o cru do cru", diz Lessa. O cenógrafo Gringo Cardia e o iluminador Maneco Quinderé são alguns dos parceiros que a ajudam a conceber cenas em espaços planos e aéreos, como os balcões da coxia e da platéia.

"É fundamental que o público entre no teatro e depare com nada escondido, veja o teatro como ele é. A fumaça [gelo seco], a neblina constante, vem para reforçar a questão da magia do próprio teatro e termina sendo, ela mesma, a cenografia", diz Lessa. Cerca de 300 espectadores ocupam vários pontos da sala.

A encenação procura traduzir a natureza transformadora de Medéia incorporando os elementos terra, água, ar e fogo. Há uma cortina de chuva, por exemplo.

"Transgressora, bárbara, bruxa, fêmea, enfim, essa personagem seria quase uma terrorista em nossos dias, dada a luta do mundo civilizado contra o mundo bárbaro. Só não me pergunte quem são, hoje, os bárbaros e os civilizados", diz a também co-produtora Renata Sorrah. Bia Lessa e Renata Sorrah contam que procuraram ser fiéis a Eurípides. Elas buscam enfatizar essa empatia entre o público e a cena, pois as questões que Medéia discute são milenares: datam de 431 a.C., quando estreou em Atenas e estão em voga até hoje. "De repente, percebi que o texto é absolutamente atual. A situação de Medéia é comum a todos nós, hoje, quando se discute o que é civilização e o que é barbárie, a aceitação do que é diferente", diz Renata.

FICHA TÉCNICA:
Autor:
Eurípides
Tradução: Millôr Fernandes
Direção: Bia Lessa
Elenco: Cláudio Marzo, José Mayer, Dalton Vigh, Renata Sorrah, Ivone Hoffmann, Christiana Guinle e Emiliano Queiroz
Cenografia: Gringo Cárdia
Iluminação: Maneco Quinderé
Local: Teatro Dulcina (R. Alcindo Guanabara, 19, Cinelândia, Rio)
Temporada: Sex. e sáb., às 21h; dom., às 20h (de 23 de abril a 13 de junho)
Patrocinadores: Eletrobrás e Embratel





Des-Medéia de Denise Stoklos

O texto trata de uma desconstrução do mito de Medeia. Coerentemente com o teatro de Denise Stoklos, que se refere sempre à essência das metáforas, o plano aqui é abordar o momento em que Medéia está sob o signo da falta de vínculo - o momento em que não ela não tem passado para onde retornar (ela havia traído sua pátria e sua família por Jasão), e não tem mais presente (Jasão, que a está abandonando, é afinal e em última análise seu companheiro ideológico).

Só que aqui, nesta abordagem, nesta DES-MEDÉIA, ela não assassina seus frutos (seus próprios filhos), nem sua contestação (a noiva atual de seu marido). Aqui, ao inverso, ela vive sua dialética aspirando por um futuro de síntese.

Aqui, ela é uma metáfora de todos nós brasileiros que neste momento histórico nos encontramos sem nossos vínculos - não há lembrança inspiradora de pátria, de ideologia que nos conforte, a dissolução de nossas instituições políticas nos assalta. Intimida-nos a desumanização de nossos valores com que diariamente temos de nos adaptar para suportar as diferenças sociais, a miséria, a violência e nos confunde a esperança por mudanças a um tempo viável para a brevidade de existências.

FICHA TÉCNICA:
Texto, trilha sonora, coreografia, direção e interpretação: Denise Stoklos
Iluminação: Maneco Quinderé
Figurinos: Alexandre Herchcovitch
Fotografia: Sérgio De Divitiis
Operação de luz, de som e direção de palco: Hugo Peake





Teatro do Pequeno Gesto

Esta tragédia coloca em questão os direitos de homens e mulheres em suas relações. Os limites do desejo que um longo casamento impõe e as relações entre uma ordem constituída e os que a ela não pertencem, neste caso, a ordem clássica e a bárbara.

FICHA TÉCNICA:
Elenco: Alexandre Dantas, Ana Alkmim, Cristine A'Gape, Cybele Jácome, Fernanda Maia, Luisa Baratz, Mariana Oliveira, Viviana Rocha
Direção: Antonio Guedes
Adaptação: Fátima Saadi e Antonio Guedes
Dramaturgia: Fátima Saadi
Direção de movimento: Helena Varvaki
Cenário: Doris Rollemberg
Figurinos: Mauro Leite
Música: Paula Leal
Iluminação: Binho Schaefer