[Em Cena / Dossiê] Performance: a mistura de artes por Patrícia Flores Usaremos aqui como apresentação da Performance, um rápido e sintético apanhado de conceitos e idéias encontrados no livro de Renato Cohen, A performance como linguagem1. Cohen não é apenas um performer, mas um estudioso da arte da performance, que se preocupou em divulgar no Brasil os conhecimentos que adquiriu sobre esse gênero artístico. Essa divulgação possui o intuito de evitar uma leitura equivocada, por parte do público brasileiro, de uma arte que já estava mais avançada prática e teoricamente em outros países, principalmente nos Estados Unidos. Renato Cohen indica que os estudos pioneiros sobre performance foram desenvolvidos por Richard Schechner da New York University.

A performance resulta de uma tendência de mutação da arte contemporânea que pode ser situada nos anos 50. Nessa época, artistas plásticos começaram a registrar em suas telas os seus processos de criação. Essa característica das artes plásticas de perdurará por algumas décadas tendo o seu ápice na técnica da action painting instaurada pelo norte-americano Jackson Pollock nos anos 70/80, que consolida definitivamente a função do artista tanto como sujeito quanto como objeto de sua obra. Daí nasce uma característica muito forte da performance: a valorização do momento da criação.

Nos anos 60 temos um movimento também essencial para o surgimento da performance: o happening, que é uma forma de arte caracterizada por dispensar um texto ou programa prefixado – visto que não tem como objetivo contar uma história – e investir no acaso, no imprevisto e no aleatório. Cohen considera a performance como um desdobramento do happening. A diferença está no fato de a primeira ser mais elaborada e preocupada com a sua forma estética do que a segunda, que está focada no improviso, na espontaneidade, na livre associação de idéias e no radicalismo.

O histórico da performance aponta para uma de suas características essenciais: a hibridização de várias formas e linguagens artísticas, o que causa uma grande dificuldade de se "definir" essa forma de arte. O fato de ter advindo muito da essência da performance de artistas plásticos e da primeira apresentar uma evolução no sentido dinâmico espacial da segunda, faz com que alguns artistas e teóricos incluam a performance no campo das artes plásticas. Renato Cohen primeiramente coloca a essa nova arte no limite entre as artes plásticas (na qual está a sua origem) e as artes cênicas (na qual ele localiza a sua finalidade, visto que é uma expressão cênica 2). Mas, ao longo do livro acaba definindo-a como teatro. Polêmicas à parte, a performance mistura as artes visuais, o teatro, a dança, a música, o vídeo, a poesia e o cinema. É uma arte integrativa que escapa das delimitações disciplinares, colando, justapondo e relendo o maior leque possível de formas artísticas.

Mesmo considerando a performance como teatro, Cohen aponta em todo o livro as marcantes diferenças entre as duas formas de expressão. A primeira delas concentra-se na interpretação. Para o autor, o performer representa uma "máscara ritual" em cima de suas próprias características. Mais do que uma representação de si mesmo o performer traz uma representação a partir de si mesmo. Em vez de apresentar uma personagem construída, o artista se preocupa em mostrar a sua habilidade pessoal.

Em uma performance pode-se utilizar um imenso leque de elementos cênicos o que, mais uma vez, a coloca em uma posição diferente à do teatro. Nessa nova arte, não há uma supremacia do ator sobre os elementos. A cena é formada por diversos signos, inúmeras informações e o ator, muitas vezes, representa apenas mais um elemento do espetáculo.

É também diferente a forma como a performance vê a palavra. Há um predomínio do símbolo sobre a palavra e o uso de uma estrutura não narrativa. É o chamado "esvaziamento da palavra" ou "falência do discurso". O discurso "racional" é eliminado o que, segundo Cohen, causa uma leitura mais emocional das apresentações. É uma inovação importante para o teatro, que é uma arte extremamente textocêntrica. Para o performer, as palavras não trazem o significado do espetáculo e o seu principal discurso é o da mise en scène.

A recepção mais cognitivo-sensória do que racional causada pela performance também pode ser explicada pelo o que Schechner chama de multiplex code. Esse código consistiria no resultado de uma emissão multimídia (drama, vídeo, imagens, sons etc.). Essa emissão é que mudaria a forma receptiva do público.

A performance coloca ao artista um teatro que não resulta unicamente em uma representação, mas em alguma coisa mais próxima da vida. Cohen nos explica que a performance está ligada a uma postura artística chamada de live art, que é uma postura diante da arte em que se procura uma aproximação direta dela com a vida. Por isso, essa postura estimula o espontâneo e o natural, em detrimento do elaborado, do ensaiado e ocupa espaços inovadores e até mesmo inusitados, para se contrapor ao que considera "espaços mortos" (museus, galerias e edifícios teatrais). A noção de performance engloba um questionamento da sedimentação do pensar artístico e reclama novos conceitos. É a sugestão de uma nova perspectiva de leitura da história das artes.

É importante lembrar que os performers são, sobretudo, pesquisadores. Poderíamos chamá-los de "cientistas da arte" (termo utilizado por Cohen). Suas performances constituem um trabalho de encontrar novas fronteiras para o conhecimento humano, não só em relação às teorizações sobre a arte, mas de uma forma geral. Por isso (também), a performance se caracteriza como uma arte de fronteira em um contínuo movimento de ruptura.

Os espetáculos performáticos costumam usar uma linguagem fragmentada em uma referência aos séculos XX (segunda metade) e XXI, nos quais o poder da televisão sobre a humanidade se colocou tão fortemente, trabalhando em cima de uma imagem efêmera, fragmentada e sem memória.

Resumindo, as performances têm uma característica de evento, repetindo-se poucas vezes e realizando-se em espaços não habitualmente utilizáveis para encenações, valorizando o processo criativo mais do que o resultado artístico, porém não abrindo mão de dar um acabamento estético às apresentações.

Os seus principais representantes (nacionais e internacionais) são: Denise Stoklos, Otavio Donasci, Grupo Ornitorrinco, grupo Manhas & Manias, TVDO, Paulo Yutaka, Michel Groisman, Franklin Cassaro, Chelpa-Ferro, Amilcar Parker, Aguillar, Ivald Granatto, Guto Lacaz, Arnaldo & Go, Ivaldo Bertazzo, Mabou Mines, Laurie Anderson, grupo Ping Chong, Spalding Gray, Andy Warhol, Grupo Fluxus, Claes Oldenburg, Allan Kaprow, John Cage, Merce Cunningham, Name June Park, Bob Ashley etc.


1. Obra publicada em São Paulo pela editora Perspectiva em 2002.
2. "Apesar de sua característica anárquica e de, na sua própria razão de ser, procurar escapar de rótulos e definições, a performance é antes de tudo uma expressãocênica: um quadro sendo exibido para uma platéia não caracteriza uma performance; alguém pintando esse quadro, ao vivo, já poderia caracterizá-la" (COHEN, p 28).