Usaremos aqui como apresentação da Performance, um rápido e sintético apanhado de conceitos e idéias encontrados no livro de Renato Cohen, A performance como linguagem1. Cohen não é apenas um performer, mas um estudioso da arte da performance, que se preocupou em divulgar no Brasil os conhecimentos que adquiriu sobre esse gênero artístico. Essa divulgação possui o intuito de evitar uma leitura equivocada, por parte do público brasileiro, de uma arte que já estava mais avançada prática e teoricamente em outros países, principalmente nos Estados Unidos. Renato Cohen indica que os estudos pioneiros sobre performance foram desenvolvidos por Richard Schechner da New York University.
A performance resulta de uma tendência de mutação da arte contemporânea que pode ser situada nos anos 50. Nessa época, artistas plásticos começaram a registrar em suas telas os seus processos de criação. Essa característica das artes plásticas de perdurará por algumas décadas tendo o seu ápice na técnica da action painting instaurada pelo norte-americano Jackson Pollock nos anos 70/80, que consolida definitivamente a função do artista tanto como sujeito quanto como objeto de sua obra. Daí nasce uma característica muito forte da performance: a valorização do momento da criação.
Nos anos 60 temos um movimento também essencial para o surgimento da performance: o happening, que é uma forma de arte caracterizada por dispensar um texto ou programa prefixado – visto que não tem como objetivo contar uma história – e investir no acaso, no imprevisto e no aleatório. Cohen considera a performance como um desdobramento do happening. A diferença está no fato de a primeira ser mais elaborada e preocupada com a sua forma estética do que a segunda, que está focada no improviso, na espontaneidade, na livre associação de idéias e no radicalismo.
O histórico da performance aponta para uma de suas características essenciais: a hibridização de várias formas e linguagens artísticas, o que causa uma grande dificuldade de se "definir" essa forma de arte. O fato de ter advindo muito da essência da performance de artistas plásticos e da primeira apresentar uma evolução no sentido dinâmico espacial da segunda, faz com que alguns artistas e teóricos incluam a performance no campo das artes plásticas. Renato Cohen primeiramente coloca a essa nova arte no limite entre as artes plásticas (na qual está a sua origem) e as artes cênicas (na qual ele localiza a sua finalidade, visto que é uma expressão cênica 2). Mas, ao longo do livro acaba definindo-a como teatro. Polêmicas à parte, a performance mistura as artes visuais, o teatro, a dança, a música, o vídeo, a poesia e o cinema. É uma arte integrativa que escapa das delimitações disciplinares, colando, justapondo e relendo o maior leque possível de formas artísticas.
Mesmo considerando a performance como teatro, Cohen aponta em todo o livro as marcantes diferenças entre as duas formas de expressão. A primeira delas concentra-se na interpretação. Para o autor, o performer representa uma "máscara ritual" em cima de suas próprias características. Mais do que uma representação de si mesmo o performer traz uma representação a partir de si mesmo. Em vez de apresentar uma personagem construída, o artista se preocupa em mostrar a sua habilidade pessoal.
Em uma performance pode-se utilizar um imenso leque de elementos cênicos o que, mais uma vez, a coloca em uma posição diferente à do teatro. Nessa nova arte, não há uma supremacia do ator sobre os elementos. A cena é formada por diversos signos, inúmeras informações e o ator, muitas vezes, representa apenas mais um elemento do espetáculo.
É também diferente a forma como a performance vê a palavra. Há um predomínio do símbolo sobre a palavra e o uso de uma estrutura não narrativa. É o chamado "esvaziamento da palavra" ou "falência do discurso". O discurso "racional" é eliminado o que, segundo Cohen, causa uma leitura mais emocional das apresentações. É uma inovação importante para o teatro, que é uma arte extremamente textocêntrica. Para o performer, as palavras não trazem o significado do espetáculo e o seu principal discurso é o da mise en scène.
A recepção mais cognitivo-sensória do que racional causada pela performance também pode ser explicada pelo o que Schechner chama de multiplex code. Esse código consistiria no resultado de uma emissão multimídia (drama, vídeo, imagens, sons etc.). Essa emissão é que mudaria a forma receptiva do público.
A performance coloca ao artista um teatro que não resulta unicamente em uma representação, mas em alguma coisa mais próxima da vida. Cohen nos explica que a performance está ligada a uma postura artística chamada de live art, que é uma postura diante da arte em que se procura uma aproximação direta dela com a vida. Por isso, essa postura estimula o espontâneo e o natural, em detrimento do elaborado, do ensaiado e ocupa espaços inovadores e até mesmo inusitados, para se contrapor ao que considera "espaços mortos" (museus, galerias e edifícios teatrais). A noção de performance engloba um questionamento da sedimentação do pensar artístico e reclama novos conceitos. É a sugestão de uma nova perspectiva de leitura da história das artes.
É importante lembrar que os performers são, sobretudo, pesquisadores. Poderíamos chamá-los de "cientistas da arte" (termo utilizado por Cohen). Suas performances constituem um trabalho de encontrar novas fronteiras para o conhecimento humano, não só em relação às teorizações sobre a arte, mas de uma forma geral. Por isso (também), a performance se caracteriza como uma arte de fronteira em um contínuo movimento de ruptura.
Os espetáculos performáticos costumam usar uma linguagem fragmentada em uma referência aos séculos XX (segunda metade) e XXI, nos quais o poder da televisão sobre a humanidade se colocou tão fortemente, trabalhando em cima de uma imagem efêmera, fragmentada e sem memória.
Resumindo, as performances têm uma característica de evento, repetindo-se poucas vezes e realizando-se em espaços não habitualmente utilizáveis para encenações, valorizando o processo criativo mais do que o resultado artístico, porém não abrindo mão de dar um acabamento estético às apresentações.
1. Obra publicada em São Paulo pela editora Perspectiva em 2002. 2. "Apesar de sua característica anárquica e de, na sua própria razão de ser, procurar escapar de rótulos e definições, a performance é antes de tudo uma expressãocênica: um quadro sendo exibido para uma platéia não caracteriza uma performance; alguém pintando esse quadro, ao vivo, já poderia caracterizá-la" (COHEN, p 28).
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