1) Como foi o processo de criação de A Tempestade? O grupo teve alguma contribuição?
O processo de criação da Tempestade foi muito determinado pelos limites da verba da produção. Havia pouquíssimo dinheiro e o Luiz Arthur tinha o desejo de construir uma imagem clara, contemporânea, que fugisse dos esquemas da caixa preta. E desde o inicio ele me sugeriu a manipulação do cenário pelos atores e o uso de tecido.
Considerando o pouco dinheiro, a minha primeira decisão radical e determinante foi trabalhar com o material mais barato do mercado: plástico, plástico bolha.
Os ensaios transcorriam antes que se iniciasse a produção, e havia o compromisso de se fazer algumas apresentações nas lonas culturais da Prefeitura, já que o projeto era do FATE. Para os ensaios utilizamos praticáveis e rampas de madeira, disponíveis no local de ensaio, que foram se incorporando à encenação ate se amalgamarem definitivamente -, o que somado à idéia do uso radical do plástico bolha e o principio de manipulação pelos atores, gerou imagens e idéias que foram trocadas e conversadas com os atores e com o Luis.
Algumas trocas de e-mails aconteceram no caminho, bastante ricas. (mando a cópia de um dos e-mails trocados com Luiz neste processo).
2) Porque a escolha do "palco italiano" em A Tempestade?
Não houve escolha. Estava definido desta forma pela produção e isto não era um problema, apenas um ponto de partida. A decisão de manter os atores em cena é típica do grupo de atores rapsodos, o que os caracteriza.
3) Como surgiu a idéia de utilizar a maquete do barco, na primeira cena da peça, quando acontece o naufrágio?
Luiz Arthur desejava uma solução seca, limpa que permitisse a clara audição do texto. Em várias outras montagens que assistimos , a abertura do naufrágio era sempre uma apoteose visual, que abafava a clareza textual.
Eu tinha um barquinho em miniatura no ateliê, lindo, e propus ao Luis esta solução. Ele adorou o barquinho e topou. Dai, em ensaios a cena tomou forma.
A cortina de plástico bolha rende muito visualmente e seu desenho à francesa, (sugestão do meu querido colega cenógrafo Rostan), que cria um drapeado em ondas, sensivelmente iluminada pelo Renato Machado, me parece, criou uma solução bastante instigante.
4) A peça se passa em diversos lugares, de acordo com os grupos separados por Próspero. Você usa elementos cênicos característicos de navegações, como garrafas com areia e cordas. A estrutura do cenário foi pensada a partir disso? Como foi ambientar essa ilha no palco?
Os praticáveis de madeira, já assumidíssimos, pesados, e de estrutura aparente, davam um tom "construtivista"a cena, coisa que nem eu nem Luiz Arthur queríamos. Percebi, no entanto que, se devidamente tratados, poderiam assumir um aspecto de píer abandonado, ou ruínas de um cais e acreditei neles (reservei a idéia).
A pesquisa para a Tempestade, entre outras coisas, tinha me levado a imagens muito interessante de alquimia, que faziam o uso de frascos de vidro com freqüência em representações simbólicas. (reservei no inconsciente)
A partir de algum momento, comecei a investigar o uso do plástico em grande formato, uma grande caixa cênica de plástico, paredes, cortina de boca e um plástico gigante a ser manipulado pelos atores, e em cena. Para ser da forma mais simples, parti do princípio que deveriam ser quatro pontos apenas.
O plástico em movimento e em transformação definiria a caverna do Prospero, e poderia indicar e variar em 12 modalidades geográficas, à mercê do Diretor, que definiria seu uso em função das cenas. A manipulação implicava em cordas visíveis e mecanismos típicos da navegação, e seus devidos contrapesos.
Praticáveis, piers, fundo de mar, ilha, areia, garrafas perdidas no mar, garrafas alquímicas, cordas, engrenagens, bolhas, plástico bolha, transparências, luz. Eu já tinha todos os ingredientes era só fazer o bolo.
Email Luiz Arthur Nunes para Lídia Kosovski (durante o processo de montagem)
Claramente, a tempestade, os espíritos do banquete, a harpia, o espetáculo das deusas no noivado de Ferdinando e Miranda (este assumidamente uma MASK montada por Próspero com seus espíritos) e os cães-espíritos atacando os bufões e Caliban, eram efeitos que fugiam à tradição do espetáculo despojado, alusivo, épico do teatro elizabetano. Shakespeare estava criando um hibridismo do teatro elizabetano tradicional com as novas formas que estavam surgindo nos teatros de interior nas cortes palacianas. Assim que, penso que o plástico pode ser utilizado para esses momentos: - No naufrágio, com o movimento sugerindo (mesmo sem ser realisticamente) águas agitadas.
(PENSO PARA ESTA CENA USAR A CORTINA DE BOCA, DE PLASTICO, ENCONTRAR POSSIVEIS MOVIMENTOS, QUE FICAM ENTRE OS VELAMES, OMAR E O VENDAVAL) TRABALHARIAMEOS COM A TRANSLUCIDEZ E O MOVIMENTO a CORTINA ABRE E REVELA A ILHA E A "ACÃO", JA QUE A CENA DO NAUFRAGIO É.
- Na harpia, sendo as asas do monstro (Ariel-Esmeralda enfiado de alguma forma, agitando o tecido)
- Nos cães atacando, novamente uma agitação do plástico, envolvendo e "afogando" os bufões (a sonoplastia faz o resto).
- No caso das deusas, poderia ser tb utilizado, mas a solução que dei pras lonas, por carência, me pareceu, entretanto, tão boa, por ser pura sugestão e solicitar a imaginação do público (Ferdinando e Miranda vêem o espetáculo de Próspero na platéia. A platéia do teatro vê o espetáculo pelos olhos, pelas reações da platéia do palco.)
- Também gostaria que o plástico escondesse, para revelar no momento adequado:
1. Próspero e Miranda em cima do praticável, depois da cena do naufrágio (acho que eles não devem aparecer vendo o naufrágio, como está na lona, quero mudar isso; só aparecem depois para a cena 2 do ato 1.)
2. Primeira aparição de Ariel.
3. Os espíritos que vem trazer e levar o banquete - saindo de e entrando para dentro do plástico
4. Ferdinando e Miranda jogando xadrez, quando são revelados por Próspero (esse ato de ocultamento e desvelamento dessa cena, então, pra mim é essencial).
Não acho que tenha que ser nada complicado, espetacular. Muito pelo contrário, a essência da mise-en-scène é a simplicidade absoluta, básica, quase ingênua (naïve) de sua teatralidade. E os plásticos devem ser usados assim também. Mas tás me entendendo? Vejo a necessidade dele para:
1. dar uma "qualidade" de fluidez , uma qualidade líquida, aérea, ao espaço estruturado, suavizando a dureza das formas dos elementos praticáveis crus;
2. Ser utilizado para os efeitos mencionados.
Mais uma coisa: a presença dos atores todo tempo no palco - quando não estão atuando, estão presentes nas áreas periféricas laterais. Mas a solução de bancos retos não me agrada. Já usei no Arlequim. Queria umas formas (banquinhos individuais, por assim dizer) em que eles ficassem organizados em alturas diferentes, como se um estivesse sentado num banco alto, outro numa cadeira normal, outro num banquinho baixinho, outro no chão. Assim, a disposição dos atores quando estão nas laterais (e tem momentos que ficam grupos grandes reunidos) seria mais "arquitetônica", não tão chapada como o efeito de pessoas sentadas lado a lado em bancos compridos.
FICHA TÉCNICA: Texto: William Shakespeare Cenário: Lídia Kosovski Tradução e direção: Luiz Arthur Nunes Elenco: Arnaldo Marques, Chico Figueiredo, Henrique Pagnocellis, Ivo Fernandes, Ludmila Breitman, Maria Esmeralda Forte, Nilvan Santos e Tato Consorti Figurino, adereço e maquiagem: Chico Figueiredo Trilha Sonora: Luiz Arthur Nunes Fotos: Mauro Kurry Iluminação: Renato Machado Diretor assistente e Desenho gráfico: Walter Daguerre
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