[Em Cena]O fazer de Lygia Bojunga no palcopor Patrícia Flores
A cena contemporânea vem mostrando uma necessidade que não passou despercebida por estudiosos e encenadores: o teatro não se basta mais no drama e passa a teatralizar obras de ficção. Assim, o teatro contemporâneo procura uma expressão textual que ultrapasse as fronteiras do drama, como se o mesmo não conseguisse mais expressar tudo o que o teatro quer expressar. A tendência é a transformação da literatura em dramaturgia.
No caso de Fazendo Ana Paz em cartaz de sexta a domingo no Teatro do Jóquei não há uma adaptação textual que provoque uma substituição do gênero literário para o dramático, o que não impede que passemos a considerar o texto como dramaturgia.
Muitos defendem que o texto literário transcrito no palco possibilita uma maior liberdade de criação ao artista. Quando se tem um texto repleto de lacunas como o Fazendo Ana Paz de Lygia Bojunga, essa possibilidade é ainda maior, visto que a história pede complementação, implora por grandes pitadas de imaginação para quem recebe o texto.
Por isso Adriana e Dadá Maia e Tereza Seiblitz, sob a supervisão de Xando Graça, foram bem fiéis ao texto que já traz por si só aspectos muitos teatrais: um vai-e-vem espaço-temporal, desfile de personagens e fragmentação na narração. Aliás, o texto segue a tendência do teatro contemporâneo de "quebrar" um eixo linear e contínuo da história.
O texto traz à tona um processo de criação literária e é autobiográfico. Fala das dificuldades criativas da autora ao tentar escrever um livro. Seus momentos de inspiração, os períodos improdutivos, as dúvidas, as ideologias e a invasão da qual se sentiu vítima, quando seus personagens pareciam entrar em sua vida sem pedir licença, falando-lhe o que bem entendiam. Nesse sentido, lembrei-me da peça Seis personagens à procura de um autor de Luigi Pirandello. Na verdade, eu me dei conta de que autores literários, dramaturgos, atores e diretores já apontaram essa característica em seus processos de criação. É como se os personagens se tornassem seres humanos presentes na vida dos mesmos. A necessidade de criar um personagem "condizente", verdadeiro, faz com que a imaginação dos artistas personifique o mesmo a ponto desse personagem ser capaz de questionar o temperamento, discutir as dúvidas e trazer soluções ao seu criador, soluções que realmente parecem não ter sido encontradas pelo criador, mas por outra pessoa.
Enfim, o texto se inicia citando um período em que Lygia "conviveu" com a sua personagem Raquel e mostra o quanto Ana Paz "atormentou" a autora. É muito interessante ver as discussões entre Lygia e Ana Paz que resultaram na decisão da primeira em publicar uma obra incompleta, ou melhor, em considerar o que era incompleto em uma obra, em um produto.
A história é muito tocante, mas claramente nos atinge também devido à atuação das atrizes. As três se revezam na representação dos personagens que vão sendo citados na história. E os personagens não perdem nada ao serem transportados de uma atriz a outra. Parece uma brincadeira de criança na qual um grupo de amigas inventa uma história com todos os detalhes que lhes vêm à cabeça, usando qualquer objeto que esteja ao seu alcance para representar o alguém ou o onde que querem mostrar.
E essa característica de pegar o que está ao alcance para representar o que quer, faz do cenário algo simples, entretanto marcante. É basicamente formado por pilhas e pilhas de livros, uma mesa, uma cadeira de palha, a moldura de uma porta e uma máquina de escrever. É singelo ver livros "formarem" uma casa, luzes de árvore de natal representarem heras...
Também é gostoso ver a necessidade de poucos acessórios para uma boa caracterização de personagens. Apenas uma máscara é necessária para transformar uma das atrizes em carranca, somente um arco de cabelo para o público enxergar Ana Paz...
De um modo geral, o figurino usado é extremamente funcional. A roupa "neutra" das atrizes não se prendeu ao tradicional "tudo preto". Usando uma camisa clara, a neutralidade ficou bem clara e confortável à estética da peça.
O que parece resumir o espetáculo é a palavra "tocante". É um espetáculo simples e emocionante. Um espetáculo que parece não precisar de nada para dizer tudo. Uma homenagem ao teatro de atores, muitas vezes esquecido em meio ao auge dos encenadores. E uma celebração da harmonia existente na junção da literatura com o teatro.
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