[Em Cena]O teatro-narrativo performático e as concepções de sujeito nas performances de Denise Stoklos - estudo comparativo com a obra de Marcel Duchamppor Francine Jallageas
(Vinculado ao projeto intitulado: Narração e sujeito no teatro brasileiro contemporâneo: estudo sobre a constituição fronteiriça e diaspórica da escrita cênico-dramatúrgica atual. De responsabilidade do professor orientador José Da Costa)
Em 1992 Denise Stoklos, no livro onde organizou as premissas que constituem seu projeto teatral, o Teatro Essencial, afirmou:
"Não cito, não reproduzo, não ponho idéias de outros em cena, não estou interessada em ser comparada com ninguém, nem em ser classificável em nenhuma categoria específica: faço ‘Teatro Essencial’" (Stoklos: 50, 92)
Ao longo dos mais de dez anos subseqüentes a essa afirmação o que se verificou em sua extensa produção, me parece, foi, em muitos sentidos, o desfazimento, desses cinco ‘nãos’ enumerados pela performer.
Pudemos ver em seu teatro citações de ordens múltiplas. Vejamos alguns exemplos. Primeiramente, no solo de 1994, Des-Medéia, onde a menção extrapola o contexto mitológico grego fundador do pensamento ocidental e incide sobre a tradição teatral. Nesta peça, os personagens Medéia e Coro, comuns ao texto homônimo do autor trágico Eurípides, estão localizados na ‘Grécia e/ou Brasil’ e seu tempo é ‘431 a.c. e/ou presente’, o que nos leva a compreender que o procedimento que Stoklos operou, foi, além da citação, a colagem, pois nesse local e tempo, estão dois lugares e dois tempos distintos, que só podem estar juntos e simultâneos se não estão apenas recortados de seu contexto original, mas também colados lado a lado.
Outro bom exemplo, entre muitos, do uso da citação em seu teatro está em Denise Stoklos in Mary Stuart, de 87, cujo roteiro publicado permite elencar, para além da personagem título, a rainha da Escócia, um conjunto de nomes citados, são eles: Gandhi, Shakespeare, Molière, Artaud, Hamlet, Van Gogh, Gertrud Stein, Leonardo da Vinci, Guttemberg e outros.
Um terceiro exemplo nos permite perceber ainda que há citações presentes nos solos de Denise Stoklos que são enunciadas como tais, retiro três fragmentos onde isto fica claro, da transcrição que fiz do texto de seu último espetáculo, Olhos Recém Nascidos:
Primeiro fragmento: "O primeiro filósofo brasileiro Matias Aires escreve em 1752: Nascem os homens iguais. Um mesmo e igual princípio os anima e os conserva. Somos organizados pela mesma ordem e por isso estamos sujeitos às mesmas paixões e as mesmas vaidades..."
Segundo fragmento: "...como diria a grande escritora brasileira Clarice Lispector, que vai ser muito citada aqui."
Terceiro fragmento: "Acabo de rever uma das únicas entrevistas que Clarice Lispector concedeu à televisão. Quando lhe perguntam algo como o que ela espera mudar com sua literatura, ela diz: Nada. Não acredito que a literatura possa mudar nada."
Para além desses exemplos, me pergunto quantas são as citações e/ou auto-citações que constituem não apenas o texto dramatúrgico, mas a cena teatral de Stoklos, e nesse sentido, retiro o exemplo do mesmo Olhos Recém Nascidos, solo onde Denise Stoklos cita Spalding Gray, reproduzindo uma imagem do performer por meio de um projetor. Quando nos deparamos com o vídeo do performer observamos que neste solo, Stoklos está sentada, assim como Gray, diante de uma mesa com um microfone, alguns papéis e um copo d’água e, desse modo, o espetáculo como um todo pode ser compreendido como uma citação, que se dá por meio de dois procedimentos de reprodução.
O primeiro está na exibição da reprodução vídeográfica do performer Spalding Gray. O segundo está na conformação cênica de Denise Stoklos no espaço, a reproduzir a conformação que podemos observar na imagem de Gray, além disso, Stoklos assim como o performer americano, está a narrar acontecimentos autobiográficos. Ela nos diz, simultaneamente à projeção da imagem, cito Olhos Recém Nascidos:
"Eu me dispus a despir-me de minha mímica, de minha expressão corporal, de meus gestos, de quase nenhuma expressão facial ou vocal. Uso-me da sinfonia de Mahler na sua quinta sinfonia, em repetição de apenas um movimento, o adagieto. E algum longínquo eco do estilo de um autor-ator norte-americano, chamado Spalding Gray, falecido há pouco tempo, que se sentava e com o texto sobre a mesa, lia-o, simplesmente. Acreditando que a narrativa da vida é em si dramática o suficiente. Ok! Pode tirar o vídeo. Tira o vídeo. Eu falei tira o vídeo. Eles já entenderam as semelhanças e as diferenças. Eles não são bobos. Redundância não, por favor tira o vídeo. Tira o vídeo! Chega! A gente nunca tem o controle da situação inteira."
Outro procedimento muito parecido, isto é, onde a citação se dá por meio da reprodução, acontece em Elis Regina. Dentro da peça de mesmo nome, a reprodução das músicas vem a constituir a sonoridade completa do espetáculo. Neste solo não há a fala de Denise Stoklos e nem um outro ruído. Segundo a ficha técnica:
"Este espetáculo foi criado por Denise Stoklos para homenagear algumas interpretações de Elis Regina. Traz ao palco uma coreografia sobre suas interpretações musicais. Não é uma abordagem biográfica, mas uma complementação corporal à entonação e respiração interpretativa da grande cantora brasileira. Espetáculo de uma hora de duração que encena diversas canções através da expressão gestual e de mudanças de iluminação. Nenhuma palavra é dita pela atriz em cena. A cantora enuncia todas as palavras do espetáculo e a mímica oferece sua movimentação como uma das possíveis versões gestuais dessas canções em cena."
Distanciando-se da proposição de 1987 contida no Manifesto do Teatro Essencial de Stoklos: "Quero o palco nu. Os figurinos, cenários e discursos radiofônicos muitas vezes acoplam parasitárias imagens no ator. Não quero decoração." (Stoklos:1992, 6)
A experiência de colocar as idéias de Louise Bourgeois em cena produziu um espetáculo onde a intertextualidade pôde expandir-se para o espaço cênico, ocupado então pelas esculturas da artista francesa, especialmente concebidas para Louise Bourgeois - Faço, Desfaço e Refaço. Em 1997, do fecundo diálogo Stoklos-Bourgeois, a performer relata: "Durante o processo de criação, eu apresentava as cenas diretamente para ela, em sua casa. O texto do espetáculo é fruto da compilação de seus escritos, entrevistas e declarações. Ela assistia a tudo e participava do processo. Desde o envio do material cenográfico para o teatro até a divulgação da lista de contatos de seu estúdio. Não faço nada que não tenha tido aprovação dela como expressão legítima de Louise Bourgeois." (Revista E, número 97, Sesc SP)
Além disso, a sobreposição do trabalho dessas duas artistas neste espetáculo nos leva mais uma vez a pensar os procedimentos que os colocaram justapostos. Se definirmos a colagem como um procedimento que foi utilizado por diversos artistas a partir da primeira década do século XX, como uma técnica através da qual inclui-se o objeto mesmo no lugar de sua representação e isso podemos observar, por exemplo, nas pinturas de Pablo Picasso onde pedaços de jornal ou tecidos (ou ainda outros objetos) eram colados sobre as telas pintadas em substituição à pintura representando o jornal, então, nesse caso, estou por retomar a discussão que inaugurou meu subprojeto de pesquisa, isto é, precisamente a discussão em torno das aproximações possíveis entre certos traços do teatro de Stoklos e algumas características presentes nas artes do início do século XX, cujo principal expoente seria a obra de Marcel Duchamp. Nesse sentido, a colagem, enquanto procedimento utilizado por Denise Stoklos no interior de seus espetáculos, conforme os exemplos levantados, muito se aproxima da obra de Marcel Duchamp, que notadamente levou o princípio da colagem ao máximo em seu famoso ready-made Fonte, de 1917, onde um urinol de porcelana, o objeto, foi deslocado de um banheiro para ser "colado" não mais em uma tela, mas em um espaço maior, tridimensional.
O teatro de Denise Stoklos, a despeito do desejo expresso em sua máxima: "não estou interessada em ser comparada com ninguém", como qualquer obra de relevância sobre a qual nos debruçamos, inspira comparações. Uma vez que para estabelecer qualquer pensamento critico, em maior ou menor grau, operamos um exercício em que colocamos a obra em questão em confronto com outras, e as examinamos simultaneamente, a fim de conhecer as semelhanças, as diferenças ou as relações entre elas. Curiosamente, Denise Stoklos é objeto de comparação não só da crítica especializada proveniente da Finlândia que escreveu: "Stoklos é como um Dom Quixote, em sua solitária guerra contra o cinismo e o egoísmo." (Stoklos: 92, 68) Mas também do meu atual subprojeto de pesquisa, que partiu precisamente da tentativa de estabelecer um estudo comparativo entre sua obra e os traços performáticos presentes na obra de Marcel Duchamp.
Do que se trata então o manifesto do Teatro Essencial escrito por Denise Stoklos? Trata-se de uma proposta de teatro? Constitui um programa estético? Expressa os fundamentos de uma experiência teatral que ainda não se concluiu? Pretende normatizar essa experiência teatral? Fixar um nome, uma categoria específica?
Quem sabe o teatro e o percurso artístico de Stoklos manifestem-se por si mesmos. E expressem a tensão e as contradições que parecem haver entre o pensamento delineado no fim da década de 80 e início de 90 - em forma de manifesto, tratado ou entrevista, agrupados no interior do que Stoklos chamou Teatro Essencial - e o que veio a constituir nas décadas seguintes o pensamento e a escritura cênica de seus espetáculos solos.
Denise Stoklos nasceu em Irati, Paraná, em 14 de julho de 1950. Em Curitiba, aos 18 anos, junto ao Grupo Ferramente, começou seu trabalho como autora, diretora e atriz, com a peça Círculo na Lua, Lama na Rua, publicada em sua cidade natal.
A estréia dessa primeira peça rendeu-lhe o convite para trabalhar com Oraci Gemba, sob sua direção atuou em montagens locais tais como Arena Conta Zumbi, Arena Conta Tiradentes e Via Crucis. Graduada em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná e em ciências sociais pela Puc, Denise Stoklos parte primeiro pro Rio de Janeiro e depois para São Paulo, para as respectivas montagens das peças, Missa Leiga, com a direção de Ademar Guerra e, Bonitinha, mas Ordinária, dirigida por Antunes Filho. Nesse período Stoklos trabalha com atores como Fregolente, Margarida Reis e Miriam Mehler. Mais tarde trabalhou com Luiz Antonio Martinez Corrêa e Cacá Rosset em peças curtas de Brecht, como Sai de mim, Tinhoso, participou de peças dirigidas por Mario Masetti, Roberto Vignati e Fauzi Arap, sob a direção de Antonio Abujamra, trabalhou em teleteatros da TV Cultura.
Em 1977 Denise Stoklos, muda-se para Londres a fim de aprofundar seus estudos em mímica, onde desenvolve e apresenta seu primeiro solo, Denise Stoklos - One Woman Show, retornando ao Brasil, em 1980, além de ficar em cartaz com esse espetáculo, passa a ministrar cursos de mímica. No ano de 1982 estuda na Califórnia e elabora Elis Regina, o seu segundo solo. Depois de Elis Regina apresenta-se durante dois anos em Um Orgasmo Adulto Escapa do Zoológico e, em 1986 trabalha na co-autoria e atuação da peça Habeas Corpus.
O ano de1987 marca a estréia de Denise Stoklos in Mary Stuart no teatro La Mama, em Nova York, e o subseqüente convite de estrear nesse teatro, todos os anos, seus novos trabalhos. Sobre o La Mama, talvez seja interessante acrescentar a seguinte contextualização feita por Sylvia Fernandes: "O La Mama e o Living Theatre surgiram praticamente de forma concomitante, mas enquanto o Living enveredava por caminhos mais próximos ao happening, o La Mama dava vazão ao teatro experimental novaiorquino dos anos 60. O teatro viu nascer as carreiras de Robert Wilson, Philip Glass, Andrei Serban, Meredith Monk, além de abrigar trabalhos experimentais vindos de todo o mundo, como os espetáculos de Grotowski e de Tadeuz Kantor." (Fernandes: 1996, 7)
Seguiram-se então as criações dos solos Hamlet in Irati, Casa, e 500 anos - um fax de Denise Stoklos para Cristóvão Colombo. No início da década de noventa Stoklos passa a publicar alguns de seus textos dramatúrgicos e reflexões. Em 1993 escreve Amanhã Será Tarde e Depois de Amanhã nem Existe, em 1994, Des-Medéia e nos três próximos anos, respectivamente: Elogio, Mais Pesado Que o Ar/Santos Dumont e Desobediência Civil. Encerra a década de noventa com o espetáculo Vozes Dissonantes, solo de 1999 que cita, entre outros, os pensamentos de Padre Antônio Vieira, José Bonifácio e Milton Santos.
Os trabalhos mais recentes de Denise Stoklos são: Louise Bourgeois - Faço, Desfaço, Refaço, de 2000, Calendário de Pedra, de 2001, cuja estrutura inspira-se no poema de Gertrude Stein chamado "Book of Anniversary " e finalmente Olhos Recém Nascidos, espetáculo de 2004, que veio a ser o principal objeto de análise do meu subprojeto de pesquisa e do qual Denise Stoklos diz o seguinte: "Em novembro, impulsionada pela morte de meu pai, eu havia começado a escrever um texto sobre morte e vida, fins e recomeços. Pensei que, desafiando-me desta vez, mínimos deveriam ser meus movimentos e máxima a tentativa emocional com o público, como eu sempre quis, só que desta vez desprezando qualquer efeito de movimentação, baseada tão só na narrativa.
Praticamente lendo um papel, sentada numa cadeira atrás de uma mesa, quase como Spalding Gray. A tragédia da vida dele realizou-se e eu continuei minha busca. Era inevitável que meu impulso se transformasse numa homenagem à dramaturgia daquele homem tão confiante na emoção do som de suas palavras.
Fui adiante. Quis falar também do envolvimento de cada um com sua profissão. Usei-me para isso. Espero que valha a pena. Estou me arriscando no desconhecido." (Stoklos, programa da peça)
Escapando, por meio das singularidades que lhes são próprias, assim como desejou Stoklos, de categorias, e denunciando perversamente quão categórico pode ser o desejo afoito por um Teatro Essencial, o Teatro que Denise Stoklos vem realizando parece possibilitar à recepção, a construção de significações ou a verificação de procedimentos de construção que nada mais são do que extenuantes dos fundamentos, forjados pela autora, anteriores ao seu teatro.
Bibliografia:
FERNANDES, Sílvia. Memória e invenção: Gerald Thomas. São Paulo: Perspectiva, 1996.
STOKLOS, Denise. Teatro essencial. São Paulo: Denise Stoklos, 1993.
STOKLOS, Denise. Des-Medéia. São Paulo: Denise Stoklos, 1995.
STOKLOS, Denise. Denise Stoklos in Mary Stuart. São Paulo: Denise Stoklos, 1995.
STOKLOS, Denise. 500 anos um fax de Denise Stoklos para Cristóvão Colombo. São Paulo: Denise Stoklos, 1992.
Av. Pasteur, 250 -
2º andar
Urca
Rio de Janeiro - RJ - Brasil
CEP: 21295-900
Tel: +55 (21) 2295.1595
e-mail: forumliteraturaeteatro@gmail.com