[Entrevista] Entrevista com Daniela Pereira de Carvalho Daniela Pereira de Carvalho é dramaturga do grupo teatral Os dezequilibrados. Autora da trilogia “Assassinato em Série” e das peças “(How to Play) The Loves Games” (que participou da mostra NOVA DRAMATURGIA CARIOCA), “Vida, o Filme” (em parceria com Ivan Sugahara) e “Lady Lázaro”, seu mais recente trabalho, apresentado no início de 2005.

Formada em Teoria do Teatro pela Universidade do Rio de Janeiro - UNIRIO, em 2002, participou de eventos como o Ciclo Novos Autores e A Cena Pop Carioca, no teatro Café Pequeno, em 2004.
A seguir, Daniela fala de processo de criação teatral, nova dramaturgia e cena contemporânea.

APF - Quando você começou a escrever textos para teatro e como foi a entrada no grupo “Os Dezequilibrados”?
DPC - Entrei para o grupo a convite do diretor, Ivan Sugahara, meu colega no curso de Teoria do Teatro na UniRio. Foi em 2002, no espetáculo “Vida, o filme”.
Quando deixei o curso de formação de atores da CAL e entrei para faculdade, já estava decidida a me tornar uma dramaturga. Comecei a escrever umas coisas, mostrei para alguns amigos, entre eles, Ivan. Então, fomos fazer “Vida, o filme”.

APF - É possível perceber, na cena contemporânea, a busca de novas formas de teatralidade, como o uso de estímulos visuais, rítmicos e espaciais. Como fica a relação com o texto escrito?
DPC - Acredito que o texto escrito interage plenamente com essas “novas formas de teatralidade”, muitas vezes, através de opções do próprio dramaturgo, mesmo que este não seja o diretor do espetáculo – é muito comum se atribuir a inserção desses elementos na cena, à concepção da encenação e, talvez, por isso você esteja me perguntando “Como fica o texto escrito? ”.
No meu trabalho, por exemplo, a utilização de imagens filmadas (um estímulo visual) é uma constante, eu já escrevo inserindo vídeos. Tenho pensado sobre isso – porque dá um trabalhão fazer vídeos! – e cheguei a conclusão de que a pesquisa de espaços a que minha companhia vem se dedicando é um ponto chave para compreender essa característica em nossas peças. O vídeo vem cumprindo o papel de um plano (espaço-tempo) alternativo ao da locação utilizada. Neste sentido, espaço, vídeo e palavra estão intrinsecamente ligados, têm uma relação harmônica. Para que estrutura narrativa de uma peça fique boa é preciso que o texto escrito interaja perfeitamente com os outros elementos discursivos do espetáculo.

APF - Gostaria que você falasse um pouco do Projeto Nova Dramaturgia.
DPC - É, antes de mais nada, uma grande iniciativa do dramaturgo Roberto Alvim e da atriz Luciana Borghi. Tem servido como um espaço de reunião e debate para novos dramaturgos e como mecanismo de produção de peças brasileiras inéditas, o que é importantíssimo.

APF - Em entrevista à revista Folha de São Paulo de Fevereiro de 2000, Antunes Filho afirmou que "só pode haver uma nova dramaturgia quando existirem atores capacitados". Você acredita que essa nova dramaturgia exige um novo ator? Que atributos esse ator deve possuir?
DPC - Há uma pluralidade de linguagens entre os autores da “Nova Dramaturgia”, por isso é complicado definir que tipo de atributos um ator deve possuir para interpretar personagens tão diversos.
Eu, pessoalmente, acho que sim, que essa nova dramaturgia exige uma nova interpretação, por isso, trabalho em companhia. E acho que os atores da minha companhia estão em franco desenvolvimento de uma linguagem própria relacionada ao tipo de utilização espacial que praticamos.

APF - Como é o processo de criação dramatúrgica no grupo “Os Dezequilibrados”? É um processo feito em conjunto?
DPC - Nós trabalhamos em processo colaborativo na criação do espetáculo, não da dramaturgia. Acho que são duas coisas distintas.
Um espetáculo, além de dramaturgia, têm encenação, atuação e concepção plástica – é bem mais complexo que apenas o texto, a narrativa, coisas pela qual sou responsável como dramaturga.
Nós decidimos juntos os recortes temáticos e de que modo os abordaremos. Improvisamos cenas e, então, começo a criar uma estrutura narrativa, começo a escrever a peça, durante os ensaios.

APF - As montagens do grupo tratam o espectador de maneira diferenciada. Que tipo de relação seu texto procura estabelecer com o público?
DPC - Não apenas meu texto, mas os nossos espetáculos procuram criar uma estrutura que inclua o espectador, que possua fissuras que ele preencha. Nesse sentido, a trilogia “Assassinato em série”, apesar de ter um tema muito singelo, formalmente, é nossa melhor experiência. O espectador tem uma função dramatúrgica na peça.

APF - Em vários trabalhos do grupo pode-se observar a questão da imagem, e da exploração dessa imagem pelo veículo de comunicação, como na trilogia “Assassinato em Série”, a construção e desconstrução de assassinos, na peça “(How to Play) The Loves Games”, onde a vítima quer ter fama eterna, em “Vida, o Filme” e nesse último trabalho “Lady Lázaro”, no qual a própria poeta vem contestar a identidade que foi criada a seu respeito. Que influências pode ter a mídia e a construção da imagem no teatro?
DPC - Acho que essa coisa da “imagem midiática” é um tema muito contemporâneo, por isso, talvez, esteja tão presente no teatro, nas minhas peças, por exemplo. Recentemente, até mesmo uma novela (“Celebridade” do Gilberto Braga) se debruçou sobre o assunto. É uma questão da nossa época.

APF - Como foi a realização de “Lady Lázaro”?
DPC - Por motivos de produção, tivemos que realizar a peça em apenas 1 mês, o que me deu pouquíssimo tempo para escrever. Isso foi muito difícil. Mas acho que o espetáculo faz alguns apontamentos interessantes sobre Sylvia Plath.

APF - Quais os seus projetos para 2005?
DPC - Estréio duas peças esse anos, sem a companhia: “Tudo é Permitido” que estará em maio e junho, no Porão do Laura Alvim; e “Natureza Complicada” que, se tudo der certo, estreará no Festival Contemporâneo em novembro.

Esse ano a companhia não vai estrear mais nada. Estamos dando uma parada para organizar nossa parte administrativa. Provavelmente, começaremos a ensaiar nossa próxima peça “Um belo dia, resolvi mudar”, no segundo semestre.