[Entrevista]Entrevista com Décio Pignataripor Beatriz ResendeFórum Virtual - Professor Décio, por que a opção pela dramaturgia, como forma de
criação, neste momento?
Décio Pignatari - Sempre busquei projetar o signo verbal em viagens significantes experimentais pelos mundos icônicos do som e da imagem, em busca de novas impregnações semânticas. Chegou a vez do teatro que, tal como a dança, tem um formante tão óbvio quanto especial, que é o da fisicalidade / objetualidade, não só em tempo real, como em espaço real, com a inclusão dos novos recursos tecnológicos. Muita gente pensa que as imagens da chamada realidade virtual, propiciadas pelas novas tecnologias, são tridimensionais, quando ainda continuam bidimensionais. Esperemos pela holografia cinética, que está a caminho...
A tridimensionalidade das artes cênicas é a mesma de nossa vida cotidiana - mas não pertence à nossa vida cotidiana. Daí o seu fascínio. Sem falar na voz. Ou melhor, é absolutamente necessário falar na voz e da voz. O brasileiro não sabe falar. O teatro brasileiro não tem voz. Falamos mal. Os poetas falam mal. Os atores, idem. O cinema falado brasileiro não é muito melhor. A televisão vem-nos ensinando, pouco que seja, a falar bem e com desenvoltura. Salvam-se os cantores, embora sem grande nível. Por isso, não temos tradição de dramaturgia em versos, nem de leitura ao vivo ou gravação de poemas e textos, como na Rússia, nos países de língua inglesa e, mesmo em vários países hispano-americanos. Muito batalhei pela criação de laboratórios fonético-fonológicos; traduzi Romeu e Julieta para a língua do você, em versos rimados - mas o Bardo, no Brasil, continua prosaico... Passemos a outra característica sedutora do teatro: a síntese narrativa. Sob a forma de romance, Céu de lona passaria das quatrocentas páginas; sob a forma cênica, com espaços belamente ocupados com ilustrações, não chega a oitenta. E é muito econômico, o teatro: qualquer grupo, amador, profissional ou meio-a meio, pode encenar inúmeras peças. Para finalizar sem estender-me, que o assunto é comprido e polêmico - tento resgatar a dramaturgia, se não for falar muito. Para cada Bob Wilson (lá fora), temos (no Brasil) uma centena de encenadores medianamente letrados, mas metidos a criadores, individuais ou coletivos.
F.V. - Em Céu de lona, Machado de Assis e sua mulher Carolina são os protagonistas, mas os personagens são apresentados como dois sátiros. Carolina é uma amorosa devassa. O gago Machadinho não fica atrás. Nessa construção sensual há uma forma de irreverente homenagem ou antes uma cutucada no cânone?
DP - Ambas as coisas. Acho engraçadas as expressões "sátiros" e "devassa". Admitimos relações sexuais implícitas em todos os casais, mesmo, digamos, os mais respeitáveis, mas se essas relações forem expostas explicitamente, abrem-se as portas dos comportamentos devassos... Para os nossos biógrafos, professores e críticos, Machado e Carolina só podem ser enquadrados no primeiro caso. Quando muito, ocupam-se (e ocupam as pobres cabeças dos alunos), durante semestres, anos e décadas com o tema da (in)fidelidade de Capitu. Mas depois que o pesquisador e biógrafo francês Jean-Michel Massa entreabriu a porta do passado nada-virgem de Carolina (cf. "A juventude de Machado de Assis", RJ, Ed. Civilização Brasileira, 1971, tradução de Marco Aurélio de Moura Matos), o que vem merecendo mais do que cutucadas não são Machado e Carolina, mas os estudos literários brasileiros. Eu não conhecia a obra de Massa, quando escrevi a minha tese de doutorado (1972), defendida e publicada no ano seguinte, sob o título Semiótica e Literatura (nova edição ainda neste corrente ano, pela Ateliê Editorial, SP) onde apontei e analisei os lances eróticos do Brás Cubas , cifrados em mensagens icônico-verbais. Encerrando o tópico com uma nota de humor: depois que Marylin Monroe revelou, há meio século, que ia para a cama (dormir) vestida com apenas uma gota de Chanel N° 5, só me resta dizer que Céu de lona é uma peça de idéias.
F.V. - No texto, as referências ao nosso repertório literário são intensas. Há também certo embate entre o Romantismo e Realismo, não? Castro Alves é fortemente evocado. Há, nisso tudo, o desejo de colocar temas como o "instinto de nacionalidade" de que fala Machado, em debate e em cena?
DP - A enumeração de temas e subtemas, naturalmente, não explica a obra, mas creio que os principais logo vem à tona, numa bateiada minimamente atenta. O salto qualitativo da prosa ficcional machadiana, por exemplo. Se tivesse morrido logo depois de publicar Iaiá Garcia , aí pelos quarenta anos de idade, Machado de Assis seria apenas um bom escritor brasileiro de terceiro nível. Mau poeta, mau dramaturgo, adoece gravemente (pensa que vai morrer), logo após seu último romance com nome feminino, sobe a montanha mágica, (Nova Friburgo), e ressuscita outro, muito outro, no defunto autor Brás Cubas, que inaugura a série notável de contos e dos romances de nomes masculinos, que são quase heterônimos. Brás Cubas é o sedutor e a minha Carola tem parte nisso. Ela é a anti-Ema Bovary, nisso que se recusa a ser massacrada pelos seus sonhos românticos fora de moda em tempos realistas; ela própria se encarrega de enterrá-los - e não só os próprios, mas também os do parceiro, romântico renitente; junto com eles, hão de ir-se também a hipocrisia social e as monarquias de um e de outro lado do Atlântico. Almeida Garrett é seu primeiro grande guia para o ordenamento sistemático de sua escritura paratática - e ainda lhe passa o bastão para seguir o segundo grande guia, Lawrence Sterne. (Leiam-se certas páginas e passagens de "Viagem na minha terra", de Garrett). Graças à parataxe, descarta as intrincadas construções argumentativas e explicativas e ingressa na limpidez irônica de sua escritura narrativa aforismática, que tudo afirma, sem assegurar a verdade de nada. Já é quase pirandelliano. Além disso, o conflito Machado/Carolina pré-anuncia de modo surpreendentemente inovador certos conflitos do século seguinte (etnias e feminismo). Por último, mas não em importância, o chamamento para a absurda pobreza de nossas relações culturais (literárias, em especial) com Portugal. Com isto, posso concluir esta parte, dizendo que nem Céu de lona , nem Machado estão interessados em ser "nacionais" - mas profundamente interessados em ser brasileiros e inter-nacionais.
Em tempo; meu herói romântico é Sousândrade, não Castro Alves.
F.V. - o Sr. tem esperanças de ver um texto como esse - tão belo quanto arrojado - encenado? Há algum projeto em vista?
DP - Espero não roer-me na frustração de um Oswald de Andrade, que nunca viu peça sua encenada, e sentir, quem sabe?, a gloriosa emoção de Nelson Rodrigues ante a primeira e grande montagem de Vestido de Noiva. Sendo necessário, às vezes, sonhar, eu sonho: montagens de Céu de lona no Rio, São Paulo, Porto e Lisboa.
P.S. No próximo dia 20 de outubro, comemora-se o centenário da morte de Carolina Augusta Xavier de Moraes.
F.V. - O Sr.faria algum comentário sobre a produção literária contemporânea no Brasil?
DP - Não.
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