[Entrevista]Entrevista com Inês Pedrosapor Valéria Cardoso
Inês Pedrosa é uma das grandes vozes da nova geração de ficcionistas portugueses. Estreou na literatura em 1992, com o romance A Instrução dos Amantes. Em 1997, recebeu o Prémio Máxima de Literatura, pela ousada escrita de Nas tuas mãos. Com Fazes-me falta, seu último romance, alcançou grande êxito de crítica em Portugal, Brasil, Espanha e Alemanha. Lançou ainda, em 2003, o livro de contos Fica Comigo Esta Noite. E em 2004, reuniu e publicou a coletânea de entrevistas Anos Luz – Trinta Conversas para Celebrar o 25 de Abril.
1) Notamos que, aos poucos, a literatura contemporânea portuguesa vai se tornando mais acessível ao público leitor brasileiro. Como você observa esta difusão da literatura portuguesa no Brasil, bem como a apreciação da literatura brasileira em Portugal?
No tempo da minha infância e adolescência, a literatura brasileira - pelo menos, alguma dela - era muito popular em Portugal. A poesia de Drummond de Andrade, Vinicius, Cecília Meirelles ou Drummond de Andrade e a ficção de Erico Veríssimo ("Clarissa", "Olhai os Lírios do Campo") foram centrais na minha formação. Creio que Jorge Amado era, nos anos sessenta e setenta, o autor mais lido em Portugal. Depois, houve um longo interregno português em que do Brasil só chegavam novelas - além da eterna música. Creio que a culpa desse alheamento foi da nossa revolução, em 1974, que fez com que, na década de oitenta, nos voltássemos para o nosso próprio umbigo, felizes por descobrirmos os nossos próprios talentos censurados. E havia também muitos fantasmas de colonialismo a exorcizar, de ambos os lados - o que parece ridículo, sendo a independência do Brasil tão antiga, mas o facto de Portugal ter "ganho" a infausta taça de derradeira potência colonial Europeia, mantendo, até 1974, guerras em todas as suas colónias africanas, não favorecia a aproximação imediata ao mundo da língua portuguesa. De há uns anos a esta parte, tem havido uma política cultural mais activa de ambos os lados do Atlântico - embora, na minha opinião, ainda insuficiente (basta ver o preço escandaloso dos livros importados do Brasil em Portugal e vice-versa). De qualquer forma, têm-se multiplicado os encontros e as edições, e o interesse do público tem crescido. A literatura brasileira, de Raduam Nassar a Bernardo de Carvalho, de Clarice Lispector a Ruben Fonseca, de João Ubaldo Ribeiro a Chico Buarque, tem tido uma excelente recepção crítica em Portugal, e merecido uma crescente atenção do público leitor. Quanto ao interesse que a literatura portuguesa tem despertado no Brasil, é algo que me comove. Não tenho dúvidas em afirmar que as universidades brasileiras estão a fazer um trabalho notável e pioneiro sobre a literatura portuguesa contemporânea. Quando realizei a Fotobiografia de José Cardoso Pires, verifiquei que o Brasil tinha muito mais teses universitárias sobre este escritor do que Portugal. Em relação aos meus livros, os trabalhos mais profundos e desbravadores, aqueles que mais e melhores pistas e conexões apontam, têm vindo precisamente do Brasil. Tenho tentado corresponder a este amor com amor igual, lendo incessantemente autores brasileiros. Estas leituras têm-me revelado autores e livros fundamentais ("A Mulher Que Escreveu a Bíblia", de Moacyr Scliar, é já um dos livros da minha vida), mas, acima de tudo, têm-me ajudado a encontrar uma nova plasticidade na frase.
2) Qual seria sua interação particular, enquanto escritora e leitora, com as obras literárias deste lado de cá do Atlântico que se expressa em língua portuguesa?
Creio que já respondi na pergunta anterior - tenho tendência a falar demasiado, pois é... mas posso acrescentar que o facto de ter lido, desde muito cedo, autores brasileiros marcou definitivamente a minha própria expressão - no sentido do desejo de limpidez, de comunicabilidade e sol dentro das palavras. A ficção portuguesa foi, durante muitos anos, excessivamente bem comportada e cerimoniosa. A poesia não - creio que as fabulosas heranças de Camões e Pessoa impediram esse fechamento. Mas a ficção do século XX parecia ter esquecido esses dois extraordinários revolucionários do século XIX que foram o erótico Camilo e o cáustico Eça, e viveu durante muitos anos abafada em arrazoados de salão - com excepções, claro, mas poucas. Em contrapartida, a prosa do Brasil, melhor ou pior, respirava ar puro, espaço, sensualidade e música. A música é importantíssima - e Portugal tinha dificuldade em sair do lamento hierático do fado. Agora já não; fez desse lamento um embalo de melancolia universal; basta ver o sucesso internacional dos Madredeus.
3) Em Fazes-me Falta, há um pulsar da palavra que deseja espelhar o elo e a ruptura entre aquilo que se convencionou chamar de dois mundos: o visível e o invisível; o perceptível e o imperceptível; a vida e a morte. Como é lidar com essa tessitura da palavra que se expressa enquanto memória, em universos aparentemente antagônicos?
Sinceramente, não sei; quando eu souber como escrevo e de onde vem aquilo que só escrevendo descubro, provavelmente deixarei de escrever. A única coisa que sei é que quanto menos meditar sobre o como e o porquê do que escrevo, melhor a escrita flui. "Fazes-me Falta" foi um livro que escrevi em estado de urgência e alvoroço; as frases atropelavam-se-me dentro da cabeça e eu tinha que as escrever de um jacto - de resto, foi o primeiro livro que escrevi integralmente à mão. E, por sinal, num belo caderno forrado de tecido amarelo com o desenho de um pássaro comedor de livros cujo bico é a bandeira do Brasil, ou seja, num caderno que celebrava o 18ª Salon du Livre de Paris, de que o Brasil era país-tema. Que este livro escrito num caderno de homenagem à literatura brasileira tenha sido o meu primeiro livro publicado no Brasil, é mais do que uma feliz coincidência. Foi também o primeiro livro que escrevi sem uma tese ou um esboço prévio, seguindo até ao fim a consciência do meu inconsciente. Creio que o mais difícil é precisamente isto: despirmo-nos de toda a exterioridade que nos envolve, das nossas noções de harmonia e antagonismo, do olhar dos outros, e sermos capazes de arranhar o interior do que somos e sentimos, esse lugar onde o tempo não passa e a sabedoria da dor e do prazer brilham imutavelmente.
4) Desde a sua primeira até à última ficção, podemos observar uma certa problematização entre gerações distintas e suas variadas formas de aprendizado. Quais são as implicações que levam-na a essa reflexão sobre a composição romanesca?
Todas as gerações são convencionais, esboroam-se assim que morremos - e, desgraçadamente, morremos demasiado depressa. Por isso, tem-me parecido cada vez mais curioso analisar e esventrar os preconceitos relacionados com a idade - a começar por aquele que associa envelhecimento a sabedoria e juventude a inocência. São ideias-feitas que não resistem a uma análise em profundidade. Pessoalmente, sinto-me da mesma idade da Agustina Bessa-Luís (ou gostava de sentir, porque ela nasceu já com milénios de sabedoria incorporados no sangue). Há pessoas da minha idade que são velhos (no sentido do conservadorismo mais incapacitante) e velhos que guardam o olhar inocente e deslumbrado que se diz próprio das crianças (e que também nem todas as crianças têm). Por conseguinte, o que me interessa cada vez mais é partir das imagens instituídas desses adquiridos sociais para o seu interior, que as perturba e desmente. Interrogar o visível para chegar à sua, tantas vez contraditória, essência. Mas creio que, mais do que as gerações, me tem interessado cada vez mais meditar sobre a forma como a cultura formata homens e mulheres - e basta olharmos para a publicidade aos brinquedos para percebermos que, por detrás dos discursos supostamente emancipatórios, o duplo padrão persiste, forçando as pessoas a conformarem-se às imagens estabelecidas de "menino" e "menina", ou seja, de "homem" e "mulher". Não é preciso pensarmos muito para descobrirmos que estes modelos são ainda extraordinariamente rígidos e empobrecedores. O problema é que muitas vezes pensamos pouco. Por isso complicamos tanto.
5) Quais são seus planos e projetos atuais e futuros de criação literária?
Muitíssimos; neste momento, estou a experimentar a escrita para teatro. São José Lapa, uma fantástica actriz e encenadora portuguesa, convidou-me a fazer uma peça sobre a situação das mulheres no mundo contemporâneo, a partir de alguns contos e crónicas minhas. Além disso, estou a escrever um romance a quatro mãos, com um grande amigo meu, o designer, ilustrador e fotógrafo Jorge Colombo, autor de todas as capas das edições portuguesas dos meus livros. Apeteceu-me escrever a partir de umas fotografias dele, e acabámos por decidir fazer um romance fotográfico que é uma meditação sobre o tédio no amor, ou seja, sobre a duração do amor. Tenho no estaleiro um outro romance, do qual só tenho ainda notas - a personagem central e algumas histórias. Muito genericamente, porque não gosto de falar do que ainda não existe, posso apenas dizer que o tema central será a capacidade de auto-regeneração e de superação de si mesmo que só o ser humano, até ver, tem. Porque a espécie humana tem-se esquecido de olhar para si mesma com aquele olhar científico de descodificação encantada que dedica à natureza.
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