[Entrevista]Entrevista com Paulo Henriques Brittopor Nonato Gurgel
O poeta e professor Paulo Henriques Britto (PUC – Rio) é reconhecido como exímio tradutor de autores dos mais diferentes contextos e estéticas, como: John Donne, Emily Dickinson, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Susan Sontag, John Updike, Frank O'Hara, Philip Roth, Thomas Pynchon e Byron, dentre outros.
Nascido no Rio de Janeiro, em 1951, ele é autor de quatro livros de poesia: Liturgia da matéria (1982), Mínima lírica (1989), Trovar Claro (1997) e Macau (2003). Com esse último, lançado pela Companhia das Letras, o autor recebeu o prêmio Portugal Telecom de Literatura em 2004. A seguir, o poeta, contista e tradutor lança seu olhar sobre a poesia contemporânea destacando, dentre outros, os procedimentos estéticos de sua poética e fala sobre Paraísos Artificiais, seu primeiro livro de contos.
01 – Dentre os autores acima traduzidos, com quais deles é possível estabelecer relações estéticas com a poesia que você produz e por quê?
PHB: Desses poetas, o que mais marcou meu trabalho foi provavelmente Stevens, porque o descobri por volta dos vinte e poucos anos, quando ainda estava desenvolvendo um estilo próprio. Dele o que mais guardei foi o apreço pelo apuro formal, mas além disso tenho em comum com Stevens uma visão do mundo que recusa qualquer transcendência. Traduzi Byron e Bishop quando já tinha definido minhas opções estéticas, mas sem dúvida os anos que passei trabalhando com as obras deles tiveram o efeito de reforçar minha predileção pela associação entre forma fixa e linguagem coloquial.
02 – Você vê utilidade no fazer poético, ou compartilha da leitura leminskiana da poesia como inutensílio?
PHB: A meu ver, a arte não tem nenhum objetivo que não o de proporcionar prazer estético. Mas é claro que ela pode fazer muito mais do que isso, inclusive ajudar o fruidor a desenvolver uma visão menos estreita da existência e do mundo.
03 – Embora em contextos e formas diferentes, você utiliza, como Byron, "a língua coloquial de sua classe e de sua época". Na sua poesia, a linguagem cotidiana e seus ritmos dão o tom, como ouvimos explicitamente em textos como "De vulgari eloquentia" ("Macau"). De onde advém essa altíssima taxa de oralidade que perpassa sua poética?
PHB: São várias fontes, mas as principais são os meus mestres modernistas- Pessoa, Bandeira, Mario, Drummond, Cabral, bem como os poetas modernos de língua inglesa; e a grande música popular dos anos 60- Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e tantos outros, além de grandes letristas do rock, como Bob Dylan e Jim Morrison.
04 – Além do tom reflexivo, sua poética ostenta uma forma metalingüística que muito elucida seu processo de criação. Gostaria que você comentasse acerca desse e de outros procedimentos estéticos de sua poética.
PHB: Creio que o gosto pela metalinguagem é comum à maioria dos poetas brasileiros (e não só os brasileiros) do século XX. É ao mesmo tempo sinal de consciência profissional- pois poesia é, acima de tudo, linguagem, e nada mais lógico do que ela voltar-se sobre a linguagem- e sintoma de crise- pois na medida em que a poesia se volta cada mais sobre si mesma, mais estreito se torna seu público. Embora pratique a poesia metalingüística, cultivo também a tradicional temática do lirismo, ainda que de modo contido e autoconsciente. Tento evitar os excessos do cerebralismo cool que caracteriza parte da produção contemporânea (que parodio em alguns poemas do meu último livro) e também os excessos de um neo-romantismo que começa a se afirmar nas últimas décadas.
05 – Quais poetas e prosadores você destaca naliteratura brasileira contemporânea?
PHB: Temos muitos nomes excelentes no Brasil hoje. Para só citar alguns, e me restringindo aos com menos de sessenta anos, entre os poetas eu destacaria Carlito Azevedo, Cláudia Roquette-Pinto, Nelson Ascher, Eucanaã Ferraz, Antonio Cicero, Alexei Bueno e Heitor Ferraz Mello. Na prosa, temos, entre muitos outros escritores de qualidade, Bernardo Carvalho, Milton Hatoum, Cristóvão Tezza, Antonio Carlos Vianna e André Sant’Anna.
06 – Gostaria que você falasse sobre "Paraísos Artificiais" – seu primeiro livro de contos.
PHB: Comecei a trabalhar num livro de contos em 1972, quando estudava cinema na Califórnia. Cheguei a aprontar cerca de trinta, mas já no Brasil comecei a retrabalhá-los, e no final só sobraram um ou dois do tempo dos originais, mais uns cinco que fiquei escrevendo e reescrevendo nos anos 70. Nos anos 90, publiquei alguns deles em revistas literárias e escrevi mais um, e a Companhia das Letras se interessou em lançá-los em livro. No final de 2003 aprontei rapidamente uma novela, "Os sonetos negros", e dei o livro por completo, mais de trinta anos depois de iniciá-lo. Como se pode imaginar, o livro não tem uma unidade de estilo ou de visão; os primeiros contos foram escritos por um rapaz de vinte e poucos anos, e a novela por um homem com mais de cinqüenta anos. Nos primeiros são visíveis as presenças de Beckett e Kafka, os escritores que eu mais lia na época; "Coisa de família", que levou cerca de dez anos para ficar pronto, é do tempo em que eu estava descobrindo Gombrowicz; e “Os sonetos negros” foi sugerido pela leitura e tradução dos contos de Henry James e também pelo romance Possessão de A. S. Byatt, que traduzi em 1992.
DE VULGARI ELOQUENTIA
Paulo Henriques Britto
A realidade é coisa delicada,
de se pegar com as pontas dos dedos.
Um gesto mais brutal, e pronto: o nada.
A qualquer hora pode advir o fim.
O mais terrível de todos os medos.
Mas, felizmente, não é bem assim.
Há uma saída – falar, falar muito.
São as palavras que suportam o mundo,
não os ombros. Sem o "porquê", o "sim",
todos os ombros afundavam juntos.
Basta uma boca aberta (ou um rabisco
num papel) para salvar o universo.
Portanto, meus amigos, eu insisto:
falem sem parar. Mesmo sem assunto.
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