[Entrevista]Entrevista com Roberto Alvim1 - Primeiramente, gostaria que você falasse um pouco do Projeto Nova Dramaturgia, e o que o impulsionou a realizar esse projeto?
O projeto Nova Dramaturgia Brasileira surgiu em 2001, com o objetivo de criar mecanismos de suportes efetivos para os novos dramaturgos cariocas. Dizia-se, naquela época, que não havia gente nova escrevendo pra teatro no Rio de Janeiro; hoje, 4 anos depois, é inegável que uma nova geração de autores está se consolidando, com cerca de 10 a 15 dramaturgos (todos na faixa dos 25 - 35 anos) que escrevem e produzem uma, duas e até três peças por ano. O projeto Nova Dramaturgia ajudou na formação desta geração: a maior parte desses artistas montou suas primeiras peças na Sala Paraíso, um pequeno teatro de 50 lugares, situado dentro do Teatro Carlos Gomes, e que foi a sede do projeto de 2001 a 2004. Esses autores também participaram dos workshops de dramaturgia que nós realizamos, com professores como Bosco Brasil, Lauro César Muniz, Amir Haddad e Miguel Falabella, por exemplo. O projeto também editou uma revista (o Cadernos de Dramaturgia), contendo artigos e peças, visando divulgar os trabalhos desta nova geração e promover o debate teórico acerca de suas obras. O que me impulsionou a realizar este projeto foi o fato de perceber, como autor, as dificuldades imensas que existem para levar peças inéditas ao palco. Percebi que era preciso existir um teatro dedicado exclusivamente aos novos autores, onde eles pudessem experimentar com suas peças, testá-las diante do público, com uma estrutura básica de produção subsidiada pelo governo municipal. Essa é a única forma de termos uma dramaturgia nacional interessante, consistente: criando as condições para o desenvolvimento contínuo de nossos autores.
2 - Você acha que o texto é um importante elemento norteador do fazer teatral?
Uma peça de teatro é uma visão de mundo. De quem é a visão? Do autor, fundamentalmente. Todo o trabalho da equipe (diretor, atores, cenógrafo, etc) contribui para transformar aquele cosmos engendrado pelo dramaturgo em algo vivo, presente. O texto é, evidentemente, a base. É claro que pode-se criar a partir de qualquer outra coisa: uma idéia, um tema, o próprio jogo dos atores na sala de ensaio. Já fiz teatro dessa maneira, já busquei uma forma cênica pura, autônoma em relação a quaisquer elementos que não o próprio teatro; hoje, obras de autores como Arthur Miller, Edward Bond, Sarah Kane, Mário Bortolotto, Rodrigo Garcia, Harold Pinter, me interessam muito mais como ponto de início - e de chegada - para um processo de ensaio. Alguns dizem que eu fiquei careta; pra mim, foi um amadurecimento em direção a um teatro mais poderoso, mais sofisticado, mais complexo e efetivamente transformador.
3 - Em entrevista à revista Folha de São Paulo de Fevereiro de 2000, Antunes Filho afirmou que "só pode haver dramaturgia quando existirem atores capacitados". Você acredita que essa nova dramaturgia exige um novo ator? Que atributos esse ator deve possuir?
Antunes está certo, como quase sempre. Um dos maiores problemas da dramaturgia contemporânea está no fato de não termos intérpretes aptos para o trabalho de fazer viver aquelas palavras. Isso desistimula os autores: é terrível ver uma obra sendo assassinada, em cena, por um ator equivocado. Na época de Tchekov, os atores também não estavam prontos para interpretar seus textos; Stanislavski teve que criar toda uma nova visão e um novo método para a arte de representar para que os atores tivessem condições de fazer "Tio Vânia" ou "O Jardim das Cerejeiras", por exemplo. Se estamos tentando traduzir a contemporaneidade em nossas obras, é preciso que, tecnicamente, filosoficamente, ideologicamemnte, os atores também estejam preparados para compreender a peculiaridade da nossa época. Aí vão poder entrar no palco e recriar o tipo de homem que habita este nosso século XXI; aí vão poder dialogar com uma dramaturgia que se cria sobre bases contemporâneas. Fundamentalmente, portanto, é preciso que o ator possua, além de uma base técnica perfeita (uma voz e um corpo desimpedidos de bloqueios que impeçam a comunicação), é preciso que ele possua um conhecimento profundo sobre a nossa realidade, sobre a nossa sensibilidade, e que tenha uma visão crítica igualmente profunda sobre tudo isso. Um ator que entra em cena sem uma ideologia, sem uma postura política clara a respeito de seu trabalho é um idiota.
4 - Em uma mesa redonda realizada na Unirio em Dezembro de 2004, onde se discutia a cena contemporânea, você disse que tinha chegado à conclusão de que o verdadeiro teatro contemporâneo é o teatro realista. Gostaria que você falasse sobre isso.
O realismo se apresenta para mim como a linguagem teatral mais sintonizada com a contemporaneidade, o que pra muitos é difícil de entender. Refiro-me ao grande realismo de autores como Harold Pinter (mal-catalogado como pertencente ao "teatro do absurdo"), Edward Albee, Guarnieri, Nelson Rodrigues (em diversas de suas peças), Mário Bortolotto, Edward Bond, entre outros. Quando eu me refiro ao realismo, estou falando de um teatro que se assume como arte, como ilusionismo, e que não tenta negar o tempo inteiro esta condição, aspirando à utopias que já não interessam. O grande trabalho para o ator, para o diretor e para o dramaturgo, hoje, o grande desafio, é realizar bem uma obra realista. O realismo é talvez a estratégia teatral de maior complexidade e que envolve um maior grau de dificuldade em sua realização. Depois de todas as experiências realizadas ao longo do século XX, de desconstrução do teatro, da busca por novas relações palco-platéia, de exacerbação do uso de recursos de encenação, é possível concluir que a maior parte dessas experiências resultou infrutífera, estéril, ou acabou redundando em infantilismos pseudo-experimentais. Se você está se comunicando com adultos alfabetizados, então o mecanismo realista (personagens em conflito como motor da ação dramática, num jogo em que a gestalt comportamental é semelhante à que empregamos na vida real) é o veículo perfeito para instaurar o debate dos grandes temas, das grandes questões. Através do realismo, esse debate é instaurado diretamente, sem ruídos na comunicação com o público. O grande tema do teatro é a justiça; o resto não é real, é escapismo adolescente. Para tratar deste tema, para tratar da grande narrativa da ética, da moral, a linguagem realista, onde subjetividades se chocam dialeticamente, me parece ser a mais apropriada. Além disso, o grande realismo coloca indivíduos em cena, seres tridimensionais, e dá a esses indivíduos o arbítrio sobre suas vidas. Essa atitude é muito salutar hoje em dia; é preciso que retomemos o arbítrio sobre as nossas vidas, é preciso que retomemos a responsabilidade sobre as nossas ações. O teatro realista pode nos ensinar sobre isso.
5 - Seus Projetos para 2005?
Estou assumindo o cargo de Diretor Artístico do Teatro Ziembinski, que vai se transformar em Centro de Referência da Dramaturgia Contemporânea, numa ampliação do projeto Nova Dramaturgia. Minha programação para o teatro começa a partir do final de abril; continuaremos com os workshops de dramaturgia, e teremos ainda uma biblioteca com textos de dramaturgia contemporânea (do Brasil e de outros países), uma videoteca, traremos autores estrangeiros para trocas com artistas daqui e, é claro, teremos uma programação de espetáculos de altíssima qualidade focada na produção mais recente dos autores teatrais.
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