[Entrevista]Entrevista com Sérgio Sant´Annapor Beatriz Resende
Sérgio Sant’anna estreou na literatura em 1969, com o livro de contos O Sobrevivente. É autor, dentre outras obras, de Junk box, Breve História do Espírito, A Senhorita Simpson, O Concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro e Confissões de Ralfo. A novela Um Crime Delicado, de 1998, que lhe valeu um de seus três prêmios Jabuti. Lançou, em 2003, O Vôo da Madrugada, volume que reúne contos e uma novela.
Fórum Virtual: Seu último livro, O vôo da madrugada, mais do que qualquer anterior, creio eu, trata da dor, da solidão e da beleza. Parece, também, ser o mais íntimo de suas últimas publicações. Você poderia falar um pouco sobre isso?
Sérgio Sant’Anna: Na palestra que fiz com a artista plástica Rosângela Rennó na Casa de Ruy Barbosa, eu a escutei falar em "rupturas internas" em vez das "rupturas externas" da vanguarda, para falar de sua obra. Imediatamente adotei essa definição para O vôo da madrugada. Não que eu tenha abdicado (nem a Rosângela) das aventuras formais em O vôo, que estão visíveis, no meu entender, em trabalhos como Um conto abstrato, Um conto obscuro, A voz, Saindo do espaço do conto (em que criei uma dramaturgia subjetiva de um aidético), ou mesmo na novela O Gorila, em que uso variantes de enredo dentro da história. Enfim, não abdico das pesquisas de linguagem que estão evidentes na terceira seção do livro Três textos do olhar, em que procuro – o que aliás já faço há muito tempo – traduzir o que é pictórico para a palavra. A diferença maior neste último livro está em que efetuei um mergulho profundo dentro de mim mesmo, vencendo os medos de expor-me até o último limite, e tratando de temas tabus como o incesto mãe-filho, o suicídio, a sexualidade marginal como a do homem que deseja ter seios. E, principalmente, mergulhei fundo no tema da morte, que aliás me fascina. Os temas da morte e da solidão. Tudo isso redimido, quero crer, por um apuro estético, pela beleza, como está dito na pergunta.
Fórum Virtual: Em O vôo da madrugada o conto que dá nome ao livro corteja o fantástico, espécie rara na ficção brasileira. Esse é um novo rumo da sua criação?
Sérgio Sant’Anna: Não, na verdade eu não tenho nada a ver com o fantástico (embora seja grande admirador de Cortázar) na literatura, e nesse conto, O vôo da madrugada, eu quero crer que o meu personagem, extremamente solitário, fugindo da sedução (e tentação) de uma prostituta infantil, acaba por viver uma experiência alucinatória num vôo especial, pois carrega os corpos dos mortos de um acidente aéreo. Um pouco ao modo de Poe, esse homem tem um encontro na noite, no próprio avião, com uma espécie de mulher ideal, o amor perfeito, o que se encontra além da vida. O resenhista da Veja até me gozou dizendo que em meu livro eu tratava da morte e do "além". Achei isso bastante engraçado. Mas, resumindo, é um conto que tem mais a ver como uma alucinação provocada pelo desejo proibido que com o fantástico. Há também um aspecto muito importante a ser visto nesse texto que é o fato de o narrador ser um personagem só escreve nos últimos limites, quando não consegue suportar coisas terríveis que se passam em sua mente.
Fórum Virtual: Como em Um crime delicado, as Artes Plásticas são, nesta última obra, parceira fundamental. Você poderia falar um pouco sobre relação da sua escrita com as Artes Plásticas?
Sérgio Sant’Anna: As artes plásticas, sem que eu possa precisar por quê, exatamente, sempre foram, como o teatro, uma provocação para eu escrever. Eu sempre considerei as artes plásticas as representações mais radicais entre todas as artes, principalmente no século vinte e mais ainda no princípio dele. E elas transmitem aos meus textos um clima de "representação", de plasticidade, de cenário, ao que escrevo. Aliás tenho um conto chamado "Cenários", em "O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro." O conto partiu da memória que eu tinha do quadro Nighthawks, de Edward Hopper, e aborda o tempo todo as impossibilidades da escrita. A impossibilidade, por exemplo, de descrever com perfeição aquele ambiente noturno de Hopper. Tenho outro chamado "Uma visita domingo à tarde ao museu", em "Notas de Manfredo Rangel, Repórter". Embora eu pense que esteja havendo abuso com o termo, acho que foi um texto em que adivinhei (é de 1970) a pós-modernidade, nesse texto que enumera obras num museu imaginário, que vão desde o Egito antigo até uma escultura cibernética, passando por toda a radicalidade moderna. O conto é escrito na primeira pessoa do plural " Nós vimos isso", "nós vimos aquilo" (isso e aquilo são obras) e o efeito final acaba por ser hilariante. No mesmo livro há "O espetáculo não pode parar", o monólogo interior de um autor no palco, entediado com o espetáculo em que sua mulher o trai com um amante todas as noites. Antunes Filho chegou a usar esse texto como exercício num curso que deu de teatro aqui no Rio. Fiquei muito contente. Depois fiquei amigo dele e considero suas encenações influências em obras minhas como "A tragédia brasileira", um dos meus trabalhos preferidos. Mas o que quero dizer, fazendo uma síntese, é que essas provocações que vêm das representações nas telas ou nos espetáculos me dão um sopro de vitalidade. Um dos contos mais bem sucedidos no meu último livro, O vôo da madrugada, é A figurante, em que uma jovem senhora da sociedade carioca dos anos trinta se deixa seduzir por um pintor que lhe mostra reproduções de obras do expressionista austríaco Egon Schiele. Faz parte dos "textos do olhar", que terminam o livro com uma alta voltagem erótica e visual, depois de tanta morbidez.
Fórum Virtual: Por qual, ou quais, de seus livros você tem um apreço especial? A experiência com poesia de Circo e Junk Box poderá ser retomada?
Sérgio Sant’Anna: O livro que eu gosto mais, entre os meus, pensando bem, e apesar de todas as suas imperfeições, é A tragédia brasileira, esse espetáculo imaginário que se passa na cabeça de um autor-diretor. E que começa com a história de uma virgem morta atropelada, que depois é "santificada" e, vinte anos depois, vai reviver num outro atropelamento, pelo mesmo motorista (que se apaixona pela garota expirando em seus braços) na Belém-Brasília. No meio disso tudo um entrelaçamento de linguagens visuais e cênicas. Esse livro foi mal editado, pela editora Guanabara, onde fui parar por causa do editor Pedro Paulo Senna Madureira, que dava as cartas lá. Mas merecerá uma boa reedição no seu tempo certo. Quem fez uma matéria linda sobre esse livro, no extinto tablóide Leia livros, foi Flora Sussekind. O título da matéria era O baile, referindo-se a um filme muito interessante de Ettore Scola. Junk Box é um livro querido por mim, e que em geral as pessoas gostam. Como seus leitores sabem, é uma máquina de versejar, com linguagens muito livres, com experiências de toda ordem. Não sendo poeta oficial, pude me permitir uma poesia bem louca. Mas depois de Junk Box nunca mais tive vontade de escrever poesia, até porque não tive outro "surto" (como diz o Geraldinho Carneiro) igual àquele. Também não renego Circo, que é uma experiência com permutação de versos. Eu experimentei mesmo, para ver até onde aquilo podia ir. Mas acho que a ficção satisfaz esse desejo meu de experimentar e, para falar a verdade, não leio muita poesia. Mas gosto de poetas como Augusto de Campos, Glauco Mattoso, Cláudio Daniel e outros. Gosto da poesia de vanguarda ou satírica. Há também, ou principalmente, o Sebastião Nunes, que fez livros incríveis de poesia verbal e visual. Aliás foi meu parceiro na segunda edição de Junk-Box, com um trabalho visual calcado em apropriações de Duchamp e Hannah Höch que foi uma verdadeira parceria no livro. Agora escreve prosa, sempre inventiva e radical, mas é pena que ele não poete mais.
Fórum Virtual: Um crime delicado vai ser filmado, não? Pela segunda vez uma obra sua é levada para o cinema, um outra mídia. Que tal? Dá ciúme?
Sérgio Sant’Anna: Um crime delicado será filmado sim, ainda este ano, pelo Beto Brant, um diretor muito talentoso, como todos sabem. A princípio fui chamado para reunir-me com ele, o Marçal Aquino (roteirista) e o Marco Ricca (ator e produtor) num hotel em São Paulo. Fizemos os quatro uma leitura comentada do livro e o Marçal foi esboçando uma escaleta para o filme. Agora estão escondendo a coisa de mim e o Beto já me avisou que estou sendo muito traído. Mas encontrei-me com o Marçal Aquino na Festa Literária de Paraty e ele disse que ainda vai conversar com o Beto para que o roteiro volte às minhas mãos, para opinar. Vamos ver. E provocam ciúmes sim, as adaptações, mas acredito que será um filme muito interessante. E sempre tive certeza de que "Um crime delicado" acabaria se tornando cinema, pois é muito visual o livro, com aquela bela jovem manca que é escravizada por um pintor ultra-realista e vive num apartamento que é uma instalação. Também gosto muito, enquanto personagem, do crítico de teatro que é atraído para uma armadilha nesse apartamento e seduzido pela bela Inês, a manca. Diverti-me muito ao brincar com a figura do "crítico", que vê sua racionalidade ir por água abaixo por causa de uma paixão calcada no fetiche. E o fetiche é uma coisa que também me interessa muito enquanto escritor, a arte como fetiche, que alimenta a libido, que pode ser intelectual. Quanto ao Senhorita Simpson, que virou Bossa Nova, pouco tem a ver comigo. O que achei mais chato foi ver o desperdício de situações e personagens da novela, pois eram sete adultos homens numa aula de inglês (sete, por causa de Branca de Neve e os Sete Anões) para tudo transformar-se nas mãos dos roteiristas e do Bruno Barreta numa trama de amor entre Antônio Fagundes e Amy Irving diante do mar de Ipanema.
Fórum Virtual: Como você vê o momento atual da literatura brasileira? Você destacaria algum autor, em especial, em quem deveríamos prestar atenção?
Sérgio Sant’Anna: Entre os autores já consagrados eu penso que o João Gilberto Noll continua produzindo obras muito interessantes e certamente há vários outros. E há os mais recentes, como Bernardo Carvalho, Luiz Ruffato (Eles eram muitos cavalos é um livro admirável), Joca Reiners Terron, Ronaldo Bressane, Nelson de Oliveira, Fernando Bonassi, Francisco Mendes, Marçal Aquino, Marcelino Freire, Luis Alberto Brandão Santos e vários outros.
Fórum Virtual: O que você acha da garotada que começa pela internet, pelos blogs e outras práticas on line? Você acha que a geração atual de escritores, meio mal comportados, politicamente incorretos ( como André Sant´Anna ou Marcelo Mirisola) está cumprindo o antigo ritual de questionar a geração anterior, mais política?
Sérgio Sant’Anna: Bem essa pergunta já está mais ou menos respondida na anterior. Nela deixei de fora André Sant’Anna e Marcelo Mirisola, por ver que seus nomes já vinham citados aqui nesta pergunta. Eu acho que essa geração está cumprindo o seu papel principalmente por sua irreverência diante da literatura empostada, do acadêmico, do bem comportado. Há muito tempo não se via aparecer tanta gente jovem escrevendo ao mesmo tempo e com um comportamento tão saudável. Mas, para ser sincero, voltei, ontem, 10 de julho de 2004, do Festival de Paraty, com a sensação de que se está escrevendo demais. É preciso que essa "quantidade" se transforme numa exigência cada vez maior de qualidade.
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