[Inéditos]A casa da florestapor Maria João Cantinho
"(...) E o lago encheu-se com água feita de luz de sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz
E eles estavam atrás de nós, reflectidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente, contendo o riso.
vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente."
T.S.Eliot, Quatro Quartetos, tradução de Maria Amélia Neto.
Dedicado a José Luís Peixoto, que fez nascer este conto
I
Só posso contar-te isto como um segredo. Provavelmente diriam que estou louco se ouvissem esta história. Ou, então, que inventei tudo. Diz-me, após ouvires-me atentamente, se tudo isto não passa de um sonho, um delírio, uma alucinação, uma série de imagens produzidas por mim, de tal modo a corrosão do tempo se operou sobre a minha memória.
Hoje está um céu azul e luminoso e eu sento-me no alpendre de madeira da minha casa, ouvindo este silêncio de pássaros e sei que a vida não é mais do que isto, este canto tranquilo e solitário que me atravessa. Há dias em que chove e, então, uma certa melancolia infiltra-se no meu coração, uma velha, vaga mágoa, que me faz recuar inesperadamente no tempo. Sou muito velho, tenho um corpo pesado, é o peso dos ossos que me puxa cada vez mais para a terra. Já nada estranho, tive uma vida tão cheia que só me apetece ficar aqui a descansar, sonhando lugares longínquos ou, às vezes, não sonhar mesmo nada, mas olhar. Sentir, somente, olhar as coisas como um animal caminhando sem cerimónia, despreocupadamente, sem estranheza.
Toda a minha vida me senti inquieto como um forasteiro, como que chegado de longe. Apetecia-me perguntar porque as coisas eram como eram, mas deparava-me com a opacidade, o mistério da vida. As coisas são o que são, reconheci-o no exílio da minha condição. E, por vezes, quando estou assim, tão reconciliado com as minhas mãos, os meus olhos, com a luz do céu, dou de caras com a essa sensação, de eternidade e imutabilidade. Porque os sonhos são de uma beleza intemporal, silenciosa, pairantes. Nessa altura não quero pensar, mas sentir apenas o calor sobre a minha pele, a distensão dos músculos, da carne. E o que parecia ser tão importante, dantes, no coração da inquietude, dissipa-se a opacidade na leveza deste canto.
Por instantes, olho com surpresa as minhas mãos, nodosas, descarnadas, pousadas como garras, de dedos curvos e pele sardenta e penso como elas já foram. Antes deste silêncio de pássaros, sempre idêntico a si próprio, às vezes interrompido pelo rumor da chuva. Nessa altura, estou mais longe deste silêncio dos pássaros, mais próximo do castanheiro que me abrigava em menino. Tinha uma casca grossa, que me feria as mãos, quando tocava nele.
Opera-se qualquer coisa em nós quando começamos a ouvir o silêncio dos pássaros. A voragem das coisas dissolve-se, como a água da chuva infiltrando-se na terra. E o céu, que se tinha coberto de nuvens escuras, pesadas, abre-se inesperadamente. Fica a luz, sabes? Demorando-se, parada, poisando leve sobre tudo. A borrasca passou, a chuva passou, a vida passou, o tempo comeu os olhos dos animais porque era assim que tinha de ser. Vejo sempre o meu pai caminhando sobre a estrada de terra que os meus olhos mal avistam. Porquê o meu pai? Porquê as coisas de outrora, porquê a mansidão da meninice nesta altura? Os olhos negros da minha mãe são dois fantasmas de doçura perseguindo-me. E o cheiro do corpo dela está nas minhas narinas agora, como sempre esteve, desde criança. São as coisas que teimamos em não esquecer, fios de seda que nos ligam à vida.
Quando só a infância nos povoa a memória, na velhice, então percebemos que vamos morrer. Lembro-me de ver o meu avô, olhando-se no espelho do passado, de olhos abertos. Foi assim que ele morreu. Devagarinho, esmaecido como um pássaro ferido de nostalgia. E dou-me conta de que sou exactamente como ele. Então, sabemos com exactidão como a vida correu. Um rio ou um sonho, descendo em lentidão pelo corpo, desenhando nele as cicatrizes da experiência. E olhamos esse ser com a dor de jamais lhe ter pertencido inteiramente. Foi alguém. Alguém que por aqui andou, amou, teve filhos, trabalhou de sol a sol, foi mais feliz umas vezes que outras, mas a quem a vida jamais pertenceu. A vida acontece nas nossas mãos. E se a apertamos entre as mãos, ela foge, esquivo animal sedento, com olhos de lobo faminto. Dizem que os lobos não deixam pegadas na neve. Talvez seja verdade. Por isso, não há ilusões, as mãos serão sempre vazias e é preciso aceitar o facto. De que nos serve louvar as mãos, o desejo? O exercício da verdade é a renúncia, aprender a não ser ou a deixar de ser enquanto se pode. O exercício da verdade é a escuta, o olhar para dentro das coisas, sem as desejar, porque isso as faz congelar, destruindo nelas o que nos faz desejá-las. Desejá-las e afastarmo-nos delas, sem pena. Deixá-las ser, e tudo o que podemos é admirar-lhes a beleza, isso que nunca deteremos.
Apetece ficar sentado a ouvir o silêncio dos pássaros, a olhar os castanheiros, apetece simplesmente respirar e ficar a dormir de olhos abertos, ter sonhos para os quais nunca tivemos tempo. Deitarmo-nos sobre a terra húmida e aspirar o odor da terra renovando-se, a cada Outono. É bom caminhar à sombra das faias, quando o sol invade o céu azul. É bom olhar os pedaços, os destroços que deixámos para trás, de consciência limpa. Nada há como a virtude inteira de um homem quando se olha no espelho do tempo e sabe que nada teme. Aí se encontra a inteireza do homem, a sua dignidade. Mas porque me preocupa tanto o passado, agora?
Quando finalmente compreendemos brevemente iremos morrer, parece que as coisas não nos incomodam tanto. Tudo ganha a importância que merece, a importância relativa de um presente que se esbaterá. Os filhos repetem os nossos enganos, angustiam-se do mesmo modo, as pessoas falam em demasia. O silêncio dos pássaros vem depois das palavras, mas, ao ouvi-lo, reconhecemos que ele esteve sempre aí, sem qualquer explicação, como se sempre tivesse existido. E, de repente, percebemos a vida na sua inutilidade, tudo o que lutámos por ter, as riquezas que os filhos dissipam agora, em coisas que, verdadeiramente, não nos fazem falta. Não vale a pena dizer-lhes nada, vivem a vida como se fosse real, tomam-na como um objecto. Acreditam em coisas, acham que é possível ter. Não compreendem porque os velhos fazem dos seus dias um ritmo semelhante às estações, jogar ao dominó com os amigos, sentar-se na soleira da porta, a olhar o mundo com o ar absorto. Não compreendem porque os velhos exercitam a eternidade e dispõem os seus dias tão sem cerimónia, como os animais cansados.
No silêncio dos pássaros, percebemos que os dias são iguais, sem sobressalto. Paira apenas a permanente sombra do cansaço, esse cansaço antigo de já ter sido tudo, de ter estado em todo o lado, de conhecer os homens como a palma das mãos. A solidão fica como uma sombra, a arder por dentro. Mas não dói tanto como quando éramos novos e que depositávamos tanta esperança nos outros como se eles pudessem salvar-nos desse cão negro. Agora, ela permite-nos sonhar e reconstituir a água da vida que houve em nós. Raríssimas coisas a preenchem: certos rostos, aqueles que se amaram, enevoados pelo tempo. Mas deles fica a luz intensa, que arde na escuridão, no frio da noite. Tornam-se inúteis as perguntas que nos laceravam a carne, deixando-a em ferida, torna-se desnecessário o fogo da paixão, em que sempre acreditámos. Deitamos tudo fora, tudo o que é inútil, e nasce a rosa do silêncio no coração. Ficamos mais próximos de tudo. E, inesperadamente, ouvimos o que foi verdadeiramente importante, o riso dos filhos, as suas tropelias, em dias cheios de Verão. O nosso próprio riso, o suspender da respiração diante do olhar da mulher amada, o medo da transgressão quando se olha o que não deve ser visto.
Naquela época, não era ainda o silêncio dos pássaros. Quando ergo os olhos, sentado aqui no alpendre da minha casa na floresta, vejo-a avançar como um fantasma: os cabelos brancos e longos, a cair-lhe pelas costas, o corpo magro e curvado do tempo, os braços descarnados. Confundo tudo. É, ainda, ou já foi? Sei que o tempo se confunde na minha cabeça. Tudo é memória. Tudo é presente, também. Sou indiferente ao futuro. O futuro não existe, mas apenas um longo, infindável presente.
Quando ela passava, com um saco velho pela mão, uma bengala na outra, a minha mãe corria a tirar-me da rua. Gritava por mim e chamava-me, amedrontada. Nessa época, havia algo que me sobressaltava, um assombro como uma aragem gelada que, de repente, sobreviesse. Corria a fechar-me dentro de casa. Eu vivia sítio isolado, sem vizinhos por perto. Por isso, a minha mãe temia perder-me. O meu pai saía logo ela alvorada, caminhava durante muito tempo para ir trabalhar. Naquela época não havia meios de transporte como hoje e as pessoas deslocavam-se quilómetros.
Voltava invariavelmente à noite. Morreu cedo, eu era criança e ainda não entendia porque se morre. E a minha mãe nunca mais sorriu. Tornou-se fechada, vestiu-se de negro e jamais abandonou aquele ar de ave agoirenta, escondida atrás das portadas da janela, a fazer tricot, bolos, rendas e tudo o que era possível, para alimentar quatro bocas permanentemente insatisfeitas. Quando o meu pai era vivo, a minha mãe estava sempre a rir, vestia roupa garrida e era feliz. Tudo estava no seu lugar e éramos uma família. Ela plantava rosas e gardénias à volta da casa, havia sempre flores e pássaros a encher o ar, à nossa volta. Havia um pequeno pomar, cheio de árvores de fruto, e era onde eu e os meus irmãos brincávamos, escondendo-nos entre as árvores.
Eu era o mais novo e tudo me era permitido. Tinha duas irmãs, que não eram bonitas nem feias, mas dóceis e desembaraçadas, afoitas ao trabalho. Simpáticas e vivas, casaram cedo, com uns maridos mais ou menos bonitos, dados ao trabalho e desejosos de ter filhos. Talvez as tivessem amado, não sei. Nessa altura não se falava tanto de amor, como se fala hoje, por tudo e por nada. Havia a vida, a juventude, o casamento, os filhos. Mulher com sorte era aquela que casava.
Quanto ao meu irmão, jamais quis vida de casado, não havia maneira de assentar, namoradeiro e bailarino da vida, fez-se vadio, depois marinheiro e finalmente partiu, de trouxa às costas. A minha mãe fechou-se ainda mais, o olhar tornou-se-lhe sombrio, a vida mais só, mais pesada.
Pela parte que me cabia, eu só queria ser feliz. Feliz e livre, como os animais que via correr na floresta, ágeis e rápidos. Seguia-lhes os movimentos, cheio de inveja. O que eu gostava era de ir até ao rio, meter-me na água todo nu, deitar-me ao sol, cantar. Nada me trazia maior felicidade que esses momentos em que me confundia com a natureza. Imitava os pássaros, perseguia os peixes, arrancava as patas dos gafanhotos com um prazer inconfessável. Quando ia até à aldeia, gostava de jogar à bola no descampado, perto da escola. Fugia das aulas para jogar. Não gostava de estudar e tinha de ouvir todos os dias a reprimenda habitual. A professora batia-me, puxava-me as orelhas, mas nada feito. Não conseguia evitar que eu fugisse. Era vadio como o meu irmão e não gostava de nada que me prendesse. Tinha pena da minha mãe, sempre tão preocupada, mas esquecia-me logo a seguir e voltava a fugir, a faltar às aulas, a correr pelo campo fora.
Cresci a pensar que haveria de ir ter com o meu irmão, o marinheiro vadio, mas nem sequer me atrevia a dizê-lo à minha mãe. Sabia que ela jamais aguentaria esse desgosto, acrescentando-o às mazelas da sua vida.
Num desses dias em que tinha fugido da escola e em que a minha mãe não sabia por onde andava, ouvi um som estranho, parecido com a água a correr. Aproximei-me cautelosamente e o que vi deixou-me num estado que ainda hoje não sei caracterizar. Não sabia se era medo - medo puro – ou fascínio. Ou, então, encontrava-me nas duas situações. Estava de tal modo preso à minha visão que quase suspendi a respiração. Joguei-me imediatamente para o chão, não fosse o diabo tecê-las e ser visto. Atrás de um arbusto, espiava-lhe os movimentos.
Era a velha mulher que lá estava, de quem a minha mãe jamais me deixara aproximar e que eu temia. Ela passava a mão, suavemente, pela superfície do rio e falava-lhe. Porém, a sua linguagem nada tinha a ver com o que eu ouvira, entre os homens. Era um som mais próximo do som da água, a correr sobre os seixos. Falava com o rio, na sua linguagem. Tocava na água, a sua voz era um murmúrio, uma carícia. Não sei se foi a minha vista ou a sugestão que me fez ver algo parecido como uma total quietude, súbita. As ramadas das árvores que flutuavam no capricho do vento, tinham cessado, como se também elas ouvissem o som daquela voz. Tudo estava saturado de luz.
Por instantes, senti um pavor intenso. Percebi que estava diante de uma feiticeira poderosa e que ela convocava poderes sobrenaturais, falando numa linguagem mágica. Queria fechar os olhos e sair dali, o mais rapidamente possível, mas algo me agarrava à terra, uma força telúrica poderosa, como se eu tivesse passado a fazer parte da paisagem. Não conseguia mover-me um milímetro.
Leitor, faz o que quiseres, agora. Acredita ou, então, não acredites. Para o caso é igual, limito-me a contar o que vi e esta é a minha verdade. Da água ergueu-se uma personagem estranha. Pura transparência. Pedes-me que a descreva? Todavia, isso é impossível. Era um ser, sim, um ser feito de água e luz, que escorria todo, com uma consistência fluida, o suficiente para que fosse um corpo material. Ela tocou-o com suavidade. Abraçaram-se. A sua voz tornou-se ainda mais vibrante, quase dolorosa. Sei que ela amava aquele ser. De alguma forma, percebi-o, sem compreender as palavras, mas na ternura com que falava, nesse quase canto. Como pode um ser humano amar alguém feito de água, perguntar-me-ás tu.
Diante deste enigma calo-me. Não há palavras nem razão que descrevam tal facto. Não há sentimentos que reconheçam aquele abraço, em que dois seres existem unicamente um para o outro. Fora do mundo, mas ainda matéria. Neles, a união acontecia, diante dos olhos cegos da natureza. Não, não existe nada que possa ser dito, que possa descrever a candura dos gestos, a suavidade do canto, a centelha do olhar. Apenas o silêncio diante do interdito. Tudo era ali, naquele instante, dilatado, infinito. O rosto dela enchera-se de felicidade, um halo desenhado em torno do seu corpo. Já não era possível dizer se tinha idade, se era velha, bonita ou feia. Fazia parte de uma constelação de seres que pertencem ao mundo das fadas e dos duendes, onde os animais, a natureza e o divino se fundem, encantados como seres fabulosos que ultrapassam todas as nossas certezas, transformando-as em zumbidos insignificantes. Não era coisa que se compreendesse ou explicasse, mas apenas que se visse.
Passado o primeiro momento de espanto alucinado, eu pude assistir à mais extraordinária das modificações. A água escorria pelo corpo desse enigmático ser, dando lugar a uma figura pequena, uma criança de caracóis louros, pele branca e olhar ausente. Ela deitou-lhe a cabeça no seu ombro e chorou de felicidade, acariciou-lhe o rosto, beijou-o, sentou-o no seu colo e adormeceu-o. Havia nele uma passividade estranha, como se fosse um fantasma ou uma ausência. Ela cantou-lhe uma canção de embalar, havia dor nas suas lágrimas, uma dor que atravessava o coração. Ao fim de algum tempo, o menino desfez-se, a água escorreu-lhe pelo vestido, deixando-a encharcada. E ela debruçou-se sobre o rio, olhando-o, ainda. As lágrimas confundiam-se com o leito do rio, iluminado pelo sol. E tudo voltou a mover-se, as águas voltaram a correr, a folhagem estremecia, verde contra o céu, brilhando na luz. E ela voltou, voltou o rosto cheio de rugas, a boca desdentada, voltaram os olhos baços. Todavia, eu permanecia no coração do encantamento. Permaneci assim, durante muito tempo, ainda, tocado pela magia, pelo milagre do amor. Era possível mudar o mundo, revolver as leis da natureza, enfrentar as forças obscuras, só para rever alguém. Talvez aí me tenha tocado, pela primeira vez, esse admirável milagre. O medo que sentira no início dissipara-se. Quando se compreende alguém já não há que temer. O medo provém da incompreensão, de não se saber o que se espera. E sempre que ela passava diante da minha casa, eu sabia onde ela ia e já não corria a esconder-me. Entre nós existia essa partilha de um segredo que eu jamais ousaria revelar a alguém.
- Mãe, quem é ela?
- Ela, quem? - Respondeu-me a figura de negro sentada à minha frente. Tinha os olhos cansados, inexpressivos.
- A mulher que passa aqui, todos os dias, à mesma hora....
- Não te metas com ela. É feiticeira. Tem comércios estranhos. Dizem que domina a natureza, que fala com o rio e, quando olha para alguém, essa pessoa sente que algo de estranho vai acontecer. Histórias antigas de mau-olhado...A casa dela está cheia de plantas que apanha nos caminhos, para fazer mezinhas…gente dessa é um perigo!
- Mas quando o irmão teve o bucho revirado…
- Ah, sim, os médicos não entendem esses mistérios da natureza. Mas quem entende a natureza assim, tem o mal dentro…
Abanei a cabeça, dizendo intimamente que tudo aquilo era um disparate pegado. “O que tinha a ver a magia com o mal?”, pensei. Mas vi o ar assustado da minha mãe, expectante.
- Viste-a? Ela disse-te alguma coisa? Olhou para ti?
- Mãe! Perguntei por perguntar, curiosidade…
- Hum! Estou farta de te dizer que não te aproximes dela. Sabe-se lá o que essa louca vai fazer, quando me mete por aí…
Tive vontade de gritar “eu sei”, pintar a parede a vermelho, escrevendo “nada de mal”, mas aferrolhei-me a quatro chaves, guardando o meu precioso segredo. Jamais a trairia.
- Porque deixaste de cuidar das gardénias, mãe? – Desviei o assunto, voluntariamente. Não gostava de ouvir dizer coisas que sabia não serem verdadeiras. Naquele tempo repugnava-me a mentira. Mais tarde aprenderia que as palavras são todas relativas, dependendo da função que têm relativamente à realidade.
- A minha alma não tem flores... há muito que elas deixaram de existir. – E o olhar da minha mãe era como uma magnólia fechada, à espera de ser despertada. Desconhecia o poder de abrir, embora o tentasse.
- Mas podemos ambos plantá-las. Eu ajudo-te. E rosas. Trago-te pássaros, como antigamente, queres? Pássaros coloridos, há dias ouvi rouxinóis perto do rio… ias adorar um rouxinol.
- Para quê, meu filho? Sabes que não há tempo para isso. – Fechava-se obstinadamente na sua resignação, sabendo que a pior esperança é aquela que nunca se concretiza, levando ao desespero, em que se adia permanente a dor. Só se deve acreditar nas coisas que nos acontecem no dia a dia, mansas, pequenas, discretas no seu acontecer. Como o canto do grilo, vibrando na escuridão, agora, cortando o silêncio pesado da noite.
- Só há tempo para a tristeza. Mãe, os teus olhos estão cada vez mais escuros, a tua roupa cada vez mais negra...E se olhares à tua volta, as coisas são tão leves…não poderias guardar para ti um pouco dessa leveza? – O meu olhar lutava contra a tristeza dos seus lábios, o fel das suas palavras. Havia muita vida no meu corpo, tudo em mim gritava, eu queria viver, extraviar-me que nem um perdido na vida... Tudo era coeso, ainda, uma unidade que me envolvia, protegendo-me. Não compreendia aquela resignação, aquele olhar travado, numa quase cegueira, obstinadamente preso na dor. E achava que a minha mãe tinha medo, tinha medo de tudo, por minha causa, por não saber como fazer com a minha alegria, que certamente haveria de levar-me por maus caminhos, como o meu irmão.
- Não compreendes, filho. A solidão pode ser terrível, sobretudo se acreditarmos que as coisas voltarão a ser o que serão… ou se pensarmos que a felicidade é o que nos espera.
Não lhe quis explicar que a felicidade estava ali, tão perto. Estar vivo, ouvir os grilos na escuridão, ver as pétalas das flores a estremecer, sob o brilho do luar. A felicidade era aquilo. Que outra coisa poderia ser a felicidade senão a tranquilidade da noite, quando as estrelas eram lugares tão firmes? Quando a nossa imaginação era tão leve que facilmente esboçávamos sonhos, traçávamos planos magníficos no ar? Que felicidade esperava a minha mãe? Admirava-me.
- Mesmo quando estou só, nunca me sinto assim. Nem me sinto triste. Viajo por dentro e deixo-me levar. Se não estivesse só não seria tão livre e não poderia fazer o que me apetece. – Parei, o pensamento corria-me ligeiro – E sim, mesmo só sou feliz. E não compreendo porque a solidão pode trazer a infelicidade…gosto de estar só, enquanto caminho, tudo me soa mais puro, mais encantado, porque parece ter sido feito à minha medida. E, todavia…
- Sim? – Perguntou-me ela.
- Todavia nunca estou só porque paro para escutar tudo, deixo que as coisas entrem em mim, deixo que o meu corpo seja a continuação do silêncio. Ocorrem-me belos pensamentos, lembranças…
Ela abanou a cabeça. Não me censurava, pois um sorriso bailava-lhe ao canto dos lábios. Achava graça à minha inteligência. Dizia que um dia eu seria filósofo, pois dizia coisas estranhas para a minha idade, dizia coisas que as outras crianças não diziam, mesmo aquelas que iam à escola e tinham boas notas.
- Meu querido, não viveste ainda o suficiente. Se eu conseguisse explicar-te, ao menos… a vida começa como um cristal, tudo parece claro, transparente, mas, pouco a pouco, esse cristal envelhece, perde qualidades e acaba tão baço quanto um simples vidro sujo, cada vez mais baço. Há alturas em que já nada se vê. Os olhos das crianças vêem através do cristal. São límpidos, iluminados de espanto. Não tens ainda a memória das coisas que doem, que laceram a carne.
- Ah...a memória. Explica-me isso, eu não compreendo. Eu lembro-me de coisas boas, da loja de rebuçados do senhor Alexandre, dos berlindes que me ofereceste no Natal. De coisas assim.
- És muito pequeno e eu não saberia explicar-te. Não tenho inteligência para tanto...um dia, todas estas coisas serão vividas e saberás, então. Existem coisas que só o corpo nos pode ensinar. Coisas da sensibilidade. Coisas vividas na pele, no olhar, no coração, essas são as que tocam mais.
- Mãe, a vida é um animal por compreender? Um animal que nos resiste… – Havia certamente uma aflição no modo como a olhava, pois ela quis imediatamente mudar a conversa.
Eu pensava na vida como um cavalo por ensinar e domar, um bicho selvagem, a que o homem dava as suas leis. Não sei porquê, mas todas as coisas que eu entendia vinham-me da compreensão da natureza, talvez por ser o que melhor compreendia.
- Mudemos de assunto... – pediu-me.
Eu estava muito cansado, esfregava os olhos de sono.
- Mas, mãe… - insisti eu – tenta explicar-me o que é a memória. Há coisas que uma criança tem de saber, mesmo não percebendo muito bem.
A mãe não respondeu. Encolheu os ombros, fixou nele os olhos fundos e suspirou. Respondeu simplesmente:
- Às vezes dói, como uma ferida antiga e que reabre, lembrando que foi ali que se abriu a primeira vez. Simples.
Ele insistiu:
- E à velha mulher, dói-lhe a memória?
- Disseram-me, há muito tempo, que primeiro lhe doía. Depois de enlouquecer deixou de doer.
- Enlouqueceu?...Ou tornou-se feiticeira? As duas coisas?!
- Vai dormir, meu filho. Eu preciso de descansar.
Calou-se e mergulhou o olhar escuro na sua renda infindável. Ela não ia dormir, mas ficaria ali, como aquela mulher que fazia e desfazia o tear, durante a noite. Era o modo que ela tinha de enganar-se a si mesma.
Dizer-te, agora, o que senti nesse dia deve parecer-te inútil. A mulher tinha-se tornado muito velha. Eu já um rapaz. Jovem fogoso, olhava para as miúdas, nos bailes da aldeia. Pareciam-me todas tão apetecíveis, umas mais bonitinhas outras menos, mas todas elas tinham a sua sensualidade, a sua beleza própria, que só se revelava quando eram amadas. Depressa percebi isso, que o amor transfigurava o mundo, o olhar, tornando-o infinitamente mais belo. Embora tímido, quando chegava a hora sabia exactamente o que devia fazer para as seduzir. Gestos tão simples como um olhar furtivo e correspondido, uma flor silvestre, um sorriso ou uma dança.
Bem parecido e malandro, fazia as delícias de umas tantas. Havia uns castanheiros silenciosos que guardavam os meus gestos. Elas agradeciam. Eu também lhes ficava grato. As nuvens corriam depressa, nesse Outono, e o céu ainda ia azul. Talvez por amar tanto, as estações do ano passassem tão depressa. Era um corropio constante, dentro e fora de casa, mal comia, alimentado que estava de paixão.
Nesse dia, quando entrei em casa, a minha mãe, mais escura do que nunca, deu-me a novidade:
- Sabes, encontraram-na na margem. Sentada, como se tivesse alguém ao colo e guardasse algo de precioso. Eu bem estranhava ela não passar aqui. Alguém deu com o corpo. Mantinha-se naquela posição, firmemente curvada, como se tivesse algo ao colo...que estranho, não achas? Os mortos caem, deitam-se, de lado, de frente ou de costas. Ela morreu sentada, naquela posição fixa, incompreensível. Mas ela foi sempre estranha, solitária, silenciosa, avessa a convívios e explicações…
Eu saí a correr, sem deixar a minha mãe acabar. Sabia exactamente onde ir, aquele caminho que fizera tantas vezes, que percorrera, quer fizesse sol ou chuva. Corri que nem um louco, com um nó de desespero a revolver-me a garganta. Enquanto corria, uma tristeza sem nome cravava-se na minha memória, no meu tempo interior, onde se cruzam todos os acontecimentos. Creio que foi essa a primeira vez que a memória, esse vidro baço, de que a minha mãe me falara, me doeu. Mas doeu-me a valer, uma dor em surdina, contínua, espécie de aguilhão espetado contra a carne. E era como se o meu corpo estivesse profundamente unido à vida daquela mulher. Alguém que mal conhecia, com a qual partilhara um segredo doloroso. Só parei à beira-rio, no mesmo sítio onde estivera havia tantos anos atrás.
Percebia agora o que era a dor na memória, a impotência, a rajada fria no coração, quando tudo se parte e as coisas ficam longe de nós, sem poderem ser arranjadas. Chorava, sem saber porquê. No meu íntimo, eu parecia ter acreditado que aqueles dois seres seriam eternos e que viveriam para sempre, nos seus modos de ser irreparáveis. Nunca tinha falado com ela, mas parecia ter existido sempre em mim o reconhecimento universal da sua dor de mãe e o desejo que a levara a querer reunir-se ao único lugar que a habitara, no momento da morte. O único vestígio de si mesma no mundo. Ali fechava-se um círculo, completava-se o rumo de uma vida, dispersa nos estilhaços de dor.
Quando cheguei, vi o que toda a gente via, rodeando esse corpo frio, que se mantinha obstinadamente sentado, as mãos desenhadas num abraço, um fino sorriso, deixando a descoberto a falta dos dentes. Um rosto feliz. Apesar da morte, da dor, apesar de tudo. As pessoas olhavam com estranheza, pois ela deixara-os mergulhados no seu enigma. Feiticeira ou fada, mágica ou humana?
Por mim nada disso me interessava, as lágrimas corriam-me e sentia-me dividido, partido entre a dor do meu tempo interior e o júbilo da sua felicidade. Compreendi, então, tudo, com uma clareza a que ninguém tinha acesso. Finalmente, eles tinham-se unido. Faziam parte de um mesmo sonho, algures na encruzilhada da eternidade. Doía-me a morte dela, a infelicidade dela guardada durante toda a sua vida, como se essa infelicidade estivesse alojada em mim. Mas entendia a sublime beleza daquele instante, onde já não havia separação entre o corpo e o espírito, entre a vida e a morte. Só havia o um, mãe e filho unidos no instante da passagem da vida para a morte. Quem sabe renasceriam sob outras formas, felizes como anjos, que nos olhassem e sorrissem, indulgentes. E o meu coração, tão atordoado entre a dor e a felicidade, deixou-se aquietar, invadir lentamente por uma serenidade estranha, que nasce da compreensão dos grandes momentos da vida, esse cristal.
As pessoas estavam tão embrenhadas na construção das suas hipóteses para explicar o mistério que nem se aperceberam da minha presença. Fugi, por não suportar as palavras, as palavras que me soavam fúteis, dolorosas, intoleráveis. Andei durante muito tempo e, por fim, o meu cansaço prostrou-me a alguns quilómetros dali, onde me agarrei a um castanheiro e escorreguei até sentir o cheiro da terra nas narinas. Desisti e deitei-me de bruços na terra como um animal. E era bom aquele cheiro, respirá-lo, libertar-me das palavras, da dor. Senti as lágrimas caírem, descendo-me lentamente pelo rosto abaixo, confundindo-se com a primeira chuva de Outono. Pela primeira vez, senti esse canto triste, atravessando-me o corpo. Ele era voz e eco, ele era a minha melancolia, a minha memória. Este que me habita agora. Aqui.
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