[Inéditos] Alcatrão 10mg por Augusto Sales Arlindo, colega de repartição, confessou-me certa vez que começara a fumar para impressionar garotas da vizinhança. Em especial uma guria chamada Liana, com quem não conseguiu nada além de um beijo escondido atrás da igreja de Nossa Senhora de Copacabana.

Desde então, Arlindo está sempre tentando largar o cigarro.

Quando proibiram o cigarro aqui na repartição delimitaram com tinta amarela na sacada que dá para o hall dos elevadores uma área no chão onde os fumantes a partir de determinada data foram obrigados a fumar. Quatro linhas amarelas desenhadas no chão, numa espécie de curral imaginário.

Curioso que a criação do fumódromo gerou uma intensa socialização em torno do vício. Os fumantes agora conversam sobre as trivialidades do dia-a-dia, o Fla x Flu do final de semana, problemas existenciais, política, a novela das oito e tudo mais. Uma verdadeira confraria.. Sentado aqui a observar o vai-e-vem, confesso sentir uma ponta de inveja, afinal, sendo um não-fumante, não partilho do privilégio de ter pessoas me cutucando o ombro durante o expediente para tomar um cafézinho e jogar conversa fora entre um trago e outro. Acho que por conta de todas estas vantagens-satélites, aliada a uma certa acomodação, é que dizem ser muito difícil para qualquer um largar do cigarro.

Moreno carregado, comportado, cordial, esbanjava simpatia. Arlindo tinha lá suas pendências com a vida – como qualquer um mortal –, mas sem dúvida a condição de tabagista era a que aparentemente mais o incomodava.

Da penúltima vez que tentou deixar a nicotina de lado, até que conseguiu por algumas semanas, mas não resistiria a abstinência ao fumódromo, e... voltar a fumar foi uma questão de tempo.

Sobre pendências, há toda a sorte delas: há aquelas que parecem existir antes mesmo de nascermos, algumas são corriqueiras, outras que nascem de nossas próprias escolhas. Existem ainda aquelas que podem ser classificadas na categoria de ‘pendências futuras'. Estas últimas mais resistentes, pois advém das escolhas não-feitas e que de alguma forma ficam lá penduradas na sala de estar de nossas existências como janelas com vista para o mar em uma casa sem portas. Assim, nesta casa sem portas não temos lá a conveniência de simplesmente pegar as chaves, atravessar a ante-sala, passar pelos umbrais e descendo as escadas até o portão entreaberto, sair. Ou mesmo não possuímos desprendimento suficiente para simplesmente esquecermos da porta e sairmos pela janela e assim tocarmos com os pés a praia, sentindo a areia fofa ea brisa cheirosa que vem do oceano acariciar nossa face.

O medo de arriscar pode levar ao atalho da contemplação. Imóveis, somos tentados a nos debruçar a assistir de camarote a vida que passa diante de nossos olhos. Na pior das hipóteses, chegamos a nos trancar no quarto de dormir – sem janelas -, donde incapazes de contemplar, nos persuadimos a tentar apagar as lembranças que guardamos do mundo lá fora.

No final do expediente, meu amigo Arlindo gosta de sentar-se ali no final do Leme para contemplar as ondas batendo nas pedras e pensar na vida. Aquele ir e vir do oceano traz junto com o cheiro de maresia, um certo sentimento de urgência. Isso faz com que Arlindo tenha medo de, com o tempo, acabar por envelhecer e perder assim o viço e a força nas pernas que o permitam pular a janela de sua sala de estar existencial.

Nestas horas, a primeira pendência que vem a sua cabeça é o fumo. Queria encerrar sua carreira de tabagista compulsivo. Carregava este parceiro há anos, o que denunciava os dentes ligeiramente enegrecidos pela nicotina, que exibiam sua fraqueza em cada sorriso fácil.

Sempre que se decidia por parar de fumar, vinha na carona uma enormidade de outras resoluções que adiava há tempos.

Planejava mudar vida: de coisas simples como começar a fazer exercícios, ou uma simples viagem de duas semanas para um lugar com muita natureza a fim de arejar o cérebro, até coisas mais complexas ou, digamos, mais trabalhosas, como mudar de emprego, de apartamento e de mulher. Não que detestasse o trabalho na repartição – que, diga-se de passagem, pode até ser aparentemente monótono, mas é de uma rotina muito peculiar, em que o dia nunca é igual à véspera –, o velho apartamento no Lido ou Neusa. Nada disso. Levava uma vida bem conveniente, entretanto, era como se a vitória sobre o vício o credenciasse a vencer quaisquer outros obstáculos que até hoje o impediam de ser mais feliz nessa vida.

Nos primeiros dias em que parava de fumar, chegava à repartição com gestos largos e, transbordando em confiança, me pegava num canto da sala para começar a desenrolar um novelo de projetos inacabados e os planos de como iria mudar de vida definitivamente.

Certa vez, conseguiu parar de fumar por mais de seis meses. Nesse ínterim, separou-se da mulher, iniciou um regime, matriculou-se num curso de inglês, planejou uma viagem ao Taiti, e até chegou a flertar com algumas moças, digamos, interessantes. Parecia outro homem. "- Cinco anos mais novo!", diziam. Enquanto expectorava as impurezas acumuladas no pulmão por anos a fio, acabava por expectorar da mesma forma todo um ranço existencial e outras impurezas que a amontoara para si.

Não durou muito.

Uma enfermidade na família fez com que se desequilibrasse e voltasse aos braços do velho companheiro; e junto com o cigarro, a então futura ex-mulher. Neusa, talvez por insegurança, não quer lá ver o marido alçando vôos maiores ou conquistando novas fronteiras. "Neusa é muito amiga de Arlindo, não quer vê-lo se machucando por aí...» Arlindo funciona como uma muleta. Sem Arlindo se sentiria meio deslocada. Daí, pelo bem ou pelo mal, Neusa o desalimenta sutilmente, sem que ela mesma perceba, e ironicamente prefere quando ele está fragilizado, pois assim pode oferecer seu apoio, ganhando sua gratidão e adiando assim indefinidamente sua partida.

Arlindo se deixa entorpecer pelo cigarro.

* * *

Réveillon, Praia de Copacabana, meia-noite.

Arlindo faz uma prece para Iemanjá. As lágrimas que rolam salgando seu rosto são possibilidades que quebram depois da arrebentação .Os fogos estouram no céu dividindo espaço com rolhas de champanhe barata que voam na direção da lua. "Ano novo - vida nova!". Sente no peito que é a hora da virada. Arlindo então se utiliza do expediente sobrenatural. Lança o maço de Marlboro nas águas do Posto 6 exclamando:

" Iemanjá leve meu vício pro fundo mar!"

Sente um alívio no peito. Resoluções para o ano que se inicia. Academia, trocar de emprego, mudar de casa, de mulher, de vida! "Mudar de vida! Isso, agora sim! Iemanjá vai me dar força para saltar todos os obstáculos que vierem a minha frente. Iemanjá e São Jorge, o guerreiro. Ah, São Jorge. Isso. Se precisar apelo até para Santo Expedito! Mas agora é pra valer, não tem mais volta!"

Animado, compra uma sidra com os ambulantes para comemorar sua mais recente empreitada. Saem pela noite, Arlindo, seu cunhado e mais um amigo. Precisava festejar, estava nascendo de novo e ninguém tiraria isso dele. Chegando em casa teria uma conversa séria e definitiva com Neusa. Colocaria tudo em pratos limpos. "- E o cigarro?" Ah! o cigarro a esta altura já é coisa do passado!

A hora é de celebrar!

E valsa na Avenida Atlântica em companhia de uma jovem desconhecida. Conversa com populares. Jura amor eterno a uma vassoura. Embriaga-se de contentamento. Perde-se do cunhado e feliz da vida corre pela praia de Copacabana inebriado de felicidade e álcool. Caído, adormece.

Horas mais tarde, quase amanhecendo, levanta o rosto da areia úmida. Além do gosto de cabo de guarda-chuva na boca, sente como se a cabeça tivesse sido pisada por todas aquelas gentes naquela noite, uma dor terrível e uma vontade imensa de fumar.

Culpa? Lembra-se de tudo que resolvera na noite anterior. Firme, se levanta e decide levar adiante todo o plano. "Ano Novo.Vida Nova."

Perto de Arlindo, um grupo de jovens ainda permanece na areia sentados em roda ao som de um violão.

"Jovens! Não sabem nada da vida ainda."

No caminho, se depara com os restos da noite de festa.

Copos plásticos, garrafas, sorrisos, rolhas de champanhes, sonhos, flores, pessoas ainda adormecidas nos bancos da orla, esperanças, restos de comida, um boné.

Restos da véspera de Ano Novo.

No caminho, se depara com os restos da noite de festa. Copos plásticos, garrafas, sorrisos, rolhas de champanhes, sonhos, flores, pessoas ainda adormecidas nos bancos da orla, esperanças, restos de comida, um boné, embalagens de cigarro vazias. Restos de uma véspera de Ano Novo. A cabeleira desgrenhada e coberta de areia que tentava pentear com os dedos estava mais arrumada que todas aquelas lembranças e sentimentos conflitantes que desalinhavam os pensamentos nada lineares que rodopiavam na cabeça de Arlindo.

Leva as mãos ao rosto cobrindo os olhos.

Arlindo Bufa.

Arlindo se depara com os restos da noite de festa. Copos plásticos, garrafas, sorrisos, rolhas de champanhes, sonhos, flores, pessoas ainda adormecidas nos bancos da orla, esperanças, restos de comida, um boné, embalagens de cigarro vazias. Restos de uma véspera de Ano Novo e uma guimba de cigarro ainda acesa.

Arlindo traga.

Em meio a copos plásticos, garrafas, sorrisos, rolhas de champanhes, sonhos, flores, pessoas ainda adormecidas nos bancos da orla, esperanças, restos de comida, um boné, embalagens de cigarro vazias, Arlindo deixa seus mais profundos sonhos escaparem por entre seus dedos, e junto, a sua fé se mistura cinicamente à fumaça que sai de sua boca. O “Ano Novo” se dissipa na mesma fumaça que sai da guimba de cigarro que está quase queima os seus dedos amarelados.

Com os olhos marejados fita o relógio por alguns segundos:

"Neusa deve estar preocupada."


AUGUSTO SALES nasceu no Rio de Janeiro em 1971. É editor da revista literária Paralelos; (www.paralelos.org), que desenvolve uma trabalho de mapeamento da novíssima literatura produzida principalmente no Rio de Janeiro. MBA em finanças, atua hoje como consultor de fusões e aquisições depois de ter trabalhado no mercado de capitais em Nova Iorque. Possui textos publicados em diversos sites na internet e, quando não está assessorando investidores, trabalha em seu primeiro livro de contos.