[Inéditos]Apagar os rastrospor Maria João Cantinho
O homem levou a mão ao coração. Tirou o lenço do bolso, um lenço amarrotado e que se via que já tinha sido usado amiúde, e passou-o na testa. Lentamente. De olhos postos no chão e respirando vagarosa e profundamente. Era verdade que se sentia velho. Cansado, mais que tudo. O grupo que o acompanhava ia um pouco mais adiante. À sua frente, ia Hildegarda, grávida de 5 meses, subia a custo. Esqueceu-se de si. O que pensaria Hildegarda neste momento, a mão pousada sobre o ventre, espreguiçando-se desajeitadamente? Um filho que nasceria do lado de lá, a salvo da guerra, livre do estigma que transportava em si?
E, como em certos dias em que a luz é tão incerta, a caligrafia do vento mais parecia um sonho, rodopiando no azul, por entre as fagulhas incendiadas de sol. No horizonte o mar, o azul puro, intacto. A testa escorria-lhe de suor, o coração batia com força, em meio a tanto silêncio. A sua miopia acentuada permitia-lhe ver uma vela branca desfraldada.
Recordou o Verão de Capri onde fôra feliz, mas isso havia sido há tanto tempo! Uma mulher deslumbrante, essa inflamada russa que aí conhecera, convertendo-o ao marxismo. O vento corria por entre as árvores, à beira mar, soprando nas escarpas abruptas. Fizera longos passeios num pequeno veleiro, enquanto se deitava ao sol, a ler. Asja, assim se chamava, viera por trás e tapara-lhe os olhos. Ele sentira o cheiro da pele dela, o cheiro fresco dos seus braços, roçando a pele dos seus ombros e essa imagem permanecera, duradoura. Ainda hoje se impressionava com as coisas que mais amara. Pequenos pormenores, as mãos de uma mulher, um cheiro inadvertido e momentâneo, o modo como ela o olhava e como deixava pender a cabeça, quando lia ou pensava. E admirava-se de tão pouco, a minúcia de um gesto, que o tornava tão feliz. Deus concentrava-se nos pormenores, dissera Aby Warburg e como ele amava essa frase! E lembrava-se desse grão de trigo onde se encontrava gravada a oração sagrada de Shema Israel. A minúcia caprichosa de um desenho, por exemplo, concentrando a violência da história. No pormenor estava a potência do infinitamente grande. O homem não acreditava na totalidade e sabia que apenas o fragmento podia oferecer ao olhar a medida do humano.
Um grito chamou-lhe a atenção. A ideia volatizara-se, dissipara-se no ar. Ele era um homem de pensamento, não de acção. Lembrava-se que ouvira alguém dizer: “Fulano de tal morreu porque não sabia abrir uma porta ou estrelar um ovo”. Um travo amargo indicava-lhe que padecia inevitavelmente do mesmo mal. Não sabia agir. Jamais o soubera, vivera toda a vida quase miseravelmente por não saber fazer mais nada a não ser escrever, pensar…
Distraíra-se e era preciso continuar. Sempre, parecia-lhe agora que não iria terminar aquela errância. Durante toda a noite haviam caminhado, depois de saírem da última estação de comboio, e ele pensara, por causa do seu coração, que não aguentaria. Tinham atravessado os Pirinéus, todos juntos, irmanados na esperança. Os minutos contados, no terror dos dias vividos. O medo impelia os seus passos, o medo de desistir e de ser capturado pelos nazis, que haviam invadido a França. Daquele grupo, alguns tinham passado, como ele, pelo campo de concentração e o terror dava-lhes o ânimo e a força para continuarem a fugir. Não sabiam como chegar ao destino e duvidavam se algum dia chegariam, porém, aquela fuga era a única via para uma possível liberdade. Não havia para onde fugir, a não ser Portugal e, a partir daí, para os Estados Unidos, onde já irmãos, primos e parentes os esperavam. Portugal era um sonho próximo, referência para todos os exilados e fugitivos da Europa. A Europa parecia ter-se dissipado sob a assombração do nazismo, da guerra, da ameaça constante. O homem havia escrito, algures, coisas sobre a história em que ele próprio já não acreditava. Coisas como a redenção e o despertar, sobre a memória. Sob os escombros de uma modernidade estilhaçada, dissera, jazia a possibilidade de salvação. Coisas estranhas e incompreensíveis sobre uma linguagem universal, que se aproximavam de uma compreensão poética da vida. Todavia, cortou abruptamente o seu pensamento. A Europa agonizava, no estertor da guerra. Já não era um nome, mas um estilhaço, um fragmento de uma ideia. A cultura não podia viver sobre as novas formas de barbárie. As melhores cabeças da Alemanha tinham partido para o exílio, na melhor das hipóteses. Quando não, tinham ficado presos e impedidos de falar, de escrever.
Recomeçou a caminhar, enquanto avistava uma aldeia à beira-mar. Estavam em Espanha, aproximavam-se de Port Bou, essa aldeia que fazia fronteira com França, entre os Pirinéus e a costa espanhola. Estava-se a 26 de Setembro, no começo do Outono, apesar de fazer ainda muito calor.
Lembrou-se de Ibiza e lamentou, por momentos, não saber falar catalão. Isso seria útil, neste momento. “Um homem sem linguagem”, pensou, e a ironia fazia-o sorrir. Passara a sua vida a escrever sobre a linguagem e agora via-se assim, tão emudecido como um animal, despojado da única riqueza que julgava possuir. A linguagem como escrita, alimento das noites escuras e angustiadas, em que a solidão é a única conviva. A que rouba a essência de um homem, mas que também pode trazer a luz, na alquimia da palavra. A brisa suave e morna interrompeu-lhe os pensamentos, uma voz sussurrante e cheia, junto a si. A serenidade chegava agora, nessa hora branda do crepúsculo, em que tudo se acolhia nas pétalas do silêncio. Suave a luz, sentia-se, não o homem cansado, mas o viajante que chega e senta-se à beira de si mesmo, nesse tão só gesto de escutar-se. Escuta o quê? A morte? Ouve o bater surdo do coração, que teima em manter-se acelerado, após a louca caminhada. Uma neblina em tons de violeta descia sobre o mar e tudo tinha essa calma insondável dos grandes e inefáveis momentos da existência. O tempo envolto na quieta luz do anoitecer. Era isto um homem sem linguagem, também. Não apenas a mudez da tristeza. Ao anoitecer, o perigo dissolvia-se, durante esse período o mal recolhia as suas garras como sombras ou chamas invisíveis, suspendendo-se. Era isto, um homem cansado, doente.
A polícia viu-os aproximarem-se. Um bando de vagabundos, errando como sombras através do crepúsculo. Apenas Hildegarda compreendia vagamente o catalão, respondendo numa confusa algaraviada, misturando francês e catalão. Eles pediram-lhe os documentos. O homem trazia no bolso um visto passado em Marselha e meia dúzia de trocos. Um arrepio percorreu-o, de cima a baixo. Teve um mau pressentimento. Não iriam deixá-los passar. O carrancudo rosto do guarda permanecia obstinadamente fechado, fazendo sinal negativo com a cabeça. O homem falava um francês perfeito, enquanto o guarda fazia rugas na testa, indiciando dificuldade de compreensão.
Na sua cabeça apenas o eco de um vazio, uma confusão. Sentia-se exausto, incapaz de pensar. Tinha medo e esse sentimento ocupava-o por inteiro, tornando-o incapaz de reagir. Ouviu e percebeu o guarda dizendo ao companheiro que teriam de voltar para trás. Apertava contra si um volume, com receio que o descobrissem. Insistiu, apertando o peito, fazendo sinal aos homens de que estava muito doente. Os homens, ambos jovens, olharam-no com atenção. Viram as olheiras fundas daquele homem, que nada dormira na noite anterior, compreenderam que ele se encontrava no limite da sua resistência. Um deles decidiu telefonar a um superior, para saber o que deveria fazer. Estavam indecisos se deveriam mantê-los numa cela ou enviá-los de volta.
O diálogo ao telefone, rápido e cerrado, durou alguns minutos. Para os viajantes, que se entreolhavam amedrontados, pareceu uma eternidade. O mais forte dos dois, então, veio dizer-lhes que era demasiado tarde para voltarem para trás, percebia que estavam cansados, poderiam passar a noite num modesto hotel, o Francia. O homem compreendeu. Percebeu, também, que não podiam seguir viagem para Portugal e havia algo de perverso naquela generosidade. Como se lhes concedessem o último desejo do condenado, a alegria breve. O coração gelou-lhe, uma picada forte acometeu-o. Viu que tinha chegado a um beco sem saída. Cansado e sem coragem de afrontar os seus velhos inimigos. Gastara toda a sua energia nesta fuga, acreditando nela como uma ténue esperança de liberdade. O sonho sangrava de dentro e, por momentos, reviu o seu doce amigo de adolescência, o poeta Heinle. O medo deu lugar ao mais fundo terror. Pediu intimamente o direito à sua dignidade. Já era noite e ao longe avistavam-se as estrelas. Quis invocar o seu nome secreto, imerso na escuridão, mas ela era um espelho cego, opaco. Disse de si para si que o seu nome continha o rosto possível, não aquele que ele trazia, mas o nome do canto.
Ao entrar no quarto, pediu algo para comer. Tinha muita fome, mas o cansaço era maior. O coração pedia-lhe descanso com urgência. Passado algum tempo, entrou uma mulher toda vestida de negro e com um carrapito no alto da cabeça, coberta por um xaile, trazendo pão, chá e fruta. Ele murmurou um agradecimento e ela saiu, tão discreta e muda quanto tinha entrado. Ficou de pé, mãos nos bolsos, os óculos miúdos e o cabelo um pouco comprido, fazendo ondas largas sobre a testa. Tirou a mão do bolso, passou-a num gesto lento pelo cabelo, ajeitando-o, depois tirou os óculos e passou a mão pelos olhos. Ardiam-lhe, pelo cansaço. Sentou-se na beira da cama, olhando pela janela. O quarto tinha vista sobre o mar e, ao longe, podiam avistar-se os cumes das montanhas. O silêncio quase doía, uma lua de prata sobre o mar e a sombra poderosa das montanhas. Pela janela entrava o odor da maresia, misturado com o cheiro dos pinheiros. Doía-lhe o peito. Deixou-se cair de costas sobre a cama, enquanto mastigava um pouco de pão. Gostava do chá mais quente. Fitou o tecto do quarto, o olhar vazio, um torvelinho de recordações acometendo-o. Stephan e o seu sorriso infantil doeu-lhe. Onde estaria agora Dora? Deixara para trás a família, sentia-se desalmadamente só. O sorriso de Stephan, de braços abertos para o abraçar era apenas uma recordação ténue, longínqua, um rosto imerso na neblina da memória.
Tirou o volume discreto que transportara consigo, durante toda a viagem. Poisou-o sobre a mesa de cabeceira. Uma dose de morfina suficiente para atenuar as suas dores. Da janela aberta vinha um odor suave de flores. Seriam rosas? A maresia tomava tudo de assalto, incendiava o ar, tomava as flores para si e fazia o ar resplandescer.
Do quarto do lado chegavam-lhe vozes indistintas. Um homem e uma mulher. Podia ter sido assim, com ele. Se tivesse sido outro, se não houvesse tanta inquietude, se lha bastasse apenas a quietude do casamento e dos filhos. Mas nunca fôra assim. As mulheres que amara eram todas inquietas, vivas, apaixonadas. Jula Cohn recusara-se a casar com ele. Tinha medo, dissera ela. Asja era uma revolucionária, amara-a por ser precisamente assim: impetuosa, intelectual. Não saberia ter sido de outro modo.
Nos bolsos tilintavam algumas moedas. Mesmo isso que seria, do outro lado do Atlântico? Atreveu-se a sonhar em dias calmos, numa Califórnia de que lhe haviam falado, cheia de sol e de luz. Sim, talvez pudesse ser feliz na Califórnia ou em qualquer outra parte dos Estados Unidos, onde a promessa se assemelhava a uma manhã nova, aos que chegavam como ele. Eles, os outros, talvez chegassem. Uma ideia fixa ocupava-o. Tinha de os fazer chegar, haveria um modo. Hildegarda e o seu sorriso largo de jovem mãe, os outros, menos jovens. Poderia algum dia sonhar um mundo diferente? Imaginava um mundo novo, nascido por entre as neblinas do ser, um mundo-criança, sem história nem tempo, onde houvesse apenas uma celebração: uma única celebração de si no silêncio da alvorada. Caía sobre si uma calma intensa…
Sim, a morfina fazia já o seu efeito. Suspendia a dor, elevava-o no canto da terra, um mundo sem palavras, apenas cor e beleza. A noite viera, flutuando no luar de prata. À tona, apenas o fogo das sensações, o suave tender para o sono. Olhou para as suas mãos. Precisava de escrever, queria fazê-lo, mas uma calma chamava-o para dentro, paralisando-lhe os movimentos. As imagens sucediam-se na lentidão aquática da noite, as vozes pareciam vir de outro mundo. E deu-se conta da inutilidade da sucessão do tempo, de como o medo era vão quando o mundo tendia para esse imenso vazio espiralado que o arrebatara. Era ali o centro, a unidade. Lutou racionalmente contra essa ideia, mas um sentimento mais forte apoderou-se de si. Arrastou uma cadeira, oh, como tudo parecia flutuar, até à janela e ali se sentou, apoiando o rosto sobre as mãos. Queria olhar, ouvir o sussurro do vento nas árvores, que pareciam falar-lhe e deu-se conta que olhar é estar verdadeiramente nas coisas, esquecendo a razão, ser por elas sugado, envolvido. O hálito próximo do anjo. A inocência. Um véu caía sobre o seu rosto, protegendo-o. Uma mão sobre o ombro. Ver, verdadeiramente. Dentro de si, a água que corre na alma. Finalmente. O tempo não era senão a aparência, assim as coisas sobrevinham mansamente, beijando-o, a doçura, o marulhar das ondas. Por momentos, fechou os olhos, querendo guardar a imagem na memória. Era isto, sim, era isto a eternidade.
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