[Inéditos] Estribilhos em asfalto quente por Flávio Izhaki

Na gaveta eu tenho as provas. Me prova que esse não é o seu lamento. Lamento que este tenha sido o seu final. Meu,afinal, que não soube calar na hora certa nem seguir em frente. Pois então, Cecília, quantos anos tem o passado, quantos dias durou nossa história, quantos não tiramos do bolso para cada sim ou talvez?

O contorno do seu rosto mudou; o sorriso mais largo e trincado; a maconha fumada e tragada; a esperança esvaída e perdida. Me diga: - Nunca? Me liga: - Será oi ou será tchau?

Eu prometo que o papo não vai acabar em pizza. E o mês não terminará em lágrimas. Agora é sempre um segundo depois de perceber que era isso que eu não queria. Desmentir. Desta vez penso antes de falar a verdade. Omitir. O que nos teria feito andar de mãos dadas atravessando e arrastando postes.

Mas a língua vadia escapou por entre os dentes e você ouviu: CHEGA. merda. Não naquela hora, cedo demais, o instante eternizado, a dor não curada. puta. Quanto amor mofado em páginas pautadas, recadinhos escritos com canetas coloridas, sempres impressos sem a consciência da fragilidade do acaso.

E se por acaso eu soluçasse em silêncio? E te perdoasse em voz alta. Beijasse com um abraço longo e mudo. Um grito preso na garganta, que não sai nem desiste: (fica!) Esqueço. Esquece.

Mas você, Cecília, que rói as unhas e prende o cabelo com lápis HB, Cecília, foi embora. Decidida, decidiu decidir por nós dois. E disse: - então tá, passar bem. Dizem que chorou; não vi. Dizem que mudou; talvez. Dizem que jamais perguntou de novo por mim; sinto. Muito. Por mim. E você.

Que passou ao meu lado na rua e não me reconheceu. Que chorou por João, Mateus e Pedro e não deixou nenhum deles para trás. Que passou ao meu lado na rua e não me chorou. Que me deixou para trás e reconheceu João, Mateus e Pedro.

Mas eu te invoco: saia dos mortos. Retorne em um rosto que vira de relance, alguém na platéia que segura um saco de pipocas salgadas vendo o meu show. Apareça agora que a cortina está aberta; de pano, de fumaça, de cinismo.

Me traia de novo, que te perdôo sem piscar. Pisque de novo para outro que te trairei sem sorrir. E me perdoe o riso nervoso, as falsas acusações verdadeiras, o dedo no rosto. Te absolvo do dedo no olho, dos risos falsos. Os verdadeiros gozos foram nervosos. Meus ou seus. Alternadamente.

Fique em silêncio. Cale, que eu consinto. Deixe que alguém sopre em meus ouvidos as verdades sobre você. Não me importa, importará. Mas importou. Beije a ferida enquanto estou ausente, me libere dessa dor ardida de mercúrio cromo. Deste sangue de mentirinha, vermelho de pós-machucado, casca de ferida feita com ketchup.

Cecília, a menina ao meu lado. Cecília, a mulher que não me quis, o silêncio que me condenou. A musa que me sopra palavras repetidas, as sílabas que se confundem, fundem, condenam, com o perdão de uma letra intrusa (como ele(s)). Um pedido de desculpa que nunca veio. Meu ou seu. Um encadearia o outro, como as palavras, que ficaram esquecidas em algum canto, orgulhosas, imaculadas, superiores no seu ineditismo.

Todas as histórias já foram contadas, Cecília. Vividas, desfeitas, aceitas. Por isso você chorou por Pedro, Mateus e João. E eu por você, que foi minha Maria, Madalena.

Eu tive ódio e remorso. Fiz força para te cuspir em salivas grossas de letras de músicas. Suar no palco com a luz fria quente em meu rosto. Empapar a camisa que me deu de presente, o primeiro, num dia em que era cedo demais para entender o que seríamos. Tenha dó, Cecília, porque usei seu nome como virgula. Ousei chamá-la em vão, santifiquei-a pelos motivos errados. Nas vias certas, fracassamos.

E agora te reencontro, com a janela aberta, sinal fechado. Cabelo no rosto, vento na cara, a boca coberta por um longo bocejo. A minha música te aborrece? O meu lamento lhe soa ultrapassado? Você preferia meus bilhetinhos escritos com caneta Bic? Posso improvisar declarações, ajoelhar de novo aos pés do banco do motorista, lavar com água sanitária todos os assentos reclináveis manchados com suas decepções amorosas.

Ei, olhe para cá. Sorria para mim. Aplauda o meu showzinho desesperado, meu amor desmedido. Desnecessário. Faça contato: 99743856. Eu mesmo atendo. Nada de intermediários dessa vez.

Não acelere que o sinal está amarelo, e o vermelho ainda é resquício recente. Sim, anos. Cinco anos, mas essa é uma rua de pedestres e o vermelho demora a passar.

Eu não desisto tão fácil. Vou me atirar no capô do seu carro e assim você irá me ver, e chorar por mim. Por você. Que me atropelou novamente. Me matou de amor com esse Palio cinza 2001, modelo 2002, roda de liga leve, ar-condicionado de fábrica, cd player pioneer.

Isso seria piegas demais. Morrer de amor. Morrer pelo amor. Morrer para o amor. Morrer de vez. Amor, morto de uma vez eu não valho nada. Sou um parágrafo concreto estendido no asfalto. Cinqüenta anos depois dos concretistas, cinco anos depois que você me traiu. ou fui eu ao te deixar.

Vai, pisa, me chama de fragmentário. Recolhe meus pedaços pelo chão. Junta meus bloquinhos de letras e bate no liquidificador. Pega um martelo e destroça meu corpo em várias partes. Mas não esquece de colar e fazer um mosaico colorido depois. Carrega no verde e no azul. Me leva debaixo do braço e coloca em cima da sua TV para eu te ver todas as noites. Me leia antes de dormir assistindo Jô Soares e outras baboseiras. Me esqueça como decoração na sua prateleira cheia de porta-retratos e livros de arte.

Sim, eu abuso no uso do imperativo. E mesmo assim não ouves, Cecília. Nenhum lamento. Nem o último lamento, Cecília. Nem em páginas impressas, visitas em sonhos, ausências estudadas. E se eu te impressionasse por mais vinte minutos. Ou digressionasse por outras 200 linhas. Adiantaria?

Ou só um apelo desesperado:
- Pára este carro que eu paro este conto.
Nada adianta. Eu sou apenas um fantasma do seu passado. Para me atropelar, só andando de ré. Estribilhos em asfalto quente. Bilhetes suicidas escritos com sangue que evapora. Lembranças recapeadas em ano de eleição municipal.

Flávio Izhaki é escritor e jornalista. Organizou, com Marcelo Moutinho, o volume Prosas Cariocas, edição da Casa da Palavra, 2004