[Inéditos] Mortos por Sérgio Nazar David Tato não gostava de CD. Ouvia vitrola e tinha visto a cabeça de Mussolini. Sílvia deixou-me uns cartões personalizados que fez no computador e que foram amarelando. Tio Waldir contou-me um dia o murro que deu na cara do David Nasser. Tia Maria dizia que doce não se repete e que o que vem para a mesa não tem obrigação de voltar à cozinha. Chamava a empregada apertando o rabinho de uma tartaruga e xingava os milicos que apareciam na TV. Tia Rosa era de poucos afetos, mas tinha nos olhos o que escondia nos gestos. Tio Salim era um pândego. Eu sempre achava que ele tinha acabado de raptar a dançarina de um circo e que seria morto a qualquer instante pelo domador. Mário Lúcio deixou tudo pelo meio. Tenho ainda o livro do R. Barthes que ele me devolveu em frangalhos. Soube que estava sem dormir fazia três meses, quando veio ao Rio, antes de morrer. Dindinha detestava galinha, adorava sanduíche de pernil, detestava gente sem coração, adorava dia de Finados, odiava luxo, adorava vestido de tricô e batom. Mandava botar na conta (mas pagava) e volta e meia corria uma cadernetinha para ajudar algum desvalido. Me amarrava quando dizia "Lema de Napoleão: vamos devagar porque temos pressa!" ou então "Sérgio, modere o entusiasmo." Meu pai um dia vendeu um Opala azulão só por causa de um amassadinho no capô. Teve também uma vez em que mandou o mecânico tocar o carro, e se enfiou no porta-malas (fechado) só para descobrir de onde vinha o barulhinho renitente que ouvia ao volante. Tio Dirceu uma vez deixou de vender um Monza que ele mal tirava da garagem só porque o comprador tinha uma mulher e duas filhas gordas. "Tive que desfazer o negócio", disse-me. "Iam acabar com o meu carro! Eram três baleias!" Meu avô ficava sentado na porta de casa, no desfile de 7 de Setembro, e a marcha tinha que parar diante dele para a baliza fazer as acrobacias... Cresci vendo o seu retrato de terno e gravata sobre um camelo, com as pirâmides do Egito ao fundo. Era diabético, e morria por um café com leite com açúcar, adorava o Botafogo, Mano a mano e televisão. Consertava tudo: relógio, rádio, até a peça da máquina de cinema de Estrela Dalva ele consertou uma noite (ficou todo mundo na sala esperando). "A pessoa que fez isso", dizia, "era um homem que nem a gente." Minha avó começava a arrumar malas uma semana antes de viajar e anotava tudo que gastava numa caderneta. Tia Nazira gostava de pôr a mão no peito e em tudo enfiar o "sangue do meu sangue". Tio Paulo fazia churrasco até de chuchu. Tio Mucci tocava na flauta Doce de coco, e só aprendi a letra depois que ele morreu. Às vezes, ainda hoje, canto "Tu sabes bem quantas mágoas tem meu coração, e os punhais cravados pela ingratidão..." Tio João foi o nosso Carlos Gardel. A Terra agonizava quando, abraçado ao violão, com uma tristeza contida e incerta, mandava "Acordate, hermano, que tiempos aquellos!" Nada vale mais que uma canção...

Biografia:
Sérgio Nazar David é poeta e professor de Literatura Portuguesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), atuando em graduação e pós-graduação. Doutor em Teoria Literária (UFRJ, 2001), com tese intitulada O paradoxo do desejo - O masoquismo moral nas literaturas portuguesa e brasileira - 1829-1899 (inédita). Autor de O romance do corpo (7 Letras, 1997, poesia), de Onze moedas de chumbo (7 Letras, 2001, poesia) e de Freud e a religião (Jorge Zahar Editor, 2003). É organizador e co-autor de Paixão e revolução (EdUERJ, 1996), O que é um pai? (EdUERJ, 1997), Ainda o amor (EdUERJ, 1999), O diabo é o sexo (EdUERJ, 2003) e de As mulheres são o diabo (EdUERJ, 2004). Organizou a edição crítica de Cartas de amor à Viscondessa da Luz, de Almeida Garrett (7 Letras / Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, 2004). Tem poemas publicados nas revistas e suplementos Babel (Campinas / Florianópolis / Santos), Caderno Mais! (Folha de São Paulo), Poesia Sempre (Biblioteca Nacional), Storm Magazine (Portugal) e Revista Camoniana (São Paulo).