[Inéditos] Vã Glória por Inês Pedrosa Era uma manhã gloriosa, aquela, de 9 de Setembro de 2004, no Rio de Janeiro. O azul-cenário do céu nascera carregado de luz, quente, borbulhante. Às 10 da manhã inaugurava-se, com um bouquet luxuoso de altas individualidades de Portugal e do Brasil, uma exposição de Artes Tradicionais Portuguesas no Museu Histórico Nacional. Seguir-se-ia, ao meio-dia, na Biblioteca Nacional, o acontecimento cultural do ano: a entrega do Prémio Camões, o Nobel da Literatura de Expressão Portuguesa, a Agustina Bessa-Luís. Agustina chegara de véspera, vinda da Bienal do Livro do Ceará, em Fortaleza, onde fora homenageada e tivera o prazer de encontrar doses generosas do alimento favorito dos escritores: leitores a sério. A Bienal do Ceará, este ano dedicada à travessia da Ibéria à América, é um comovente ancoradouro de transfiguradores da palavra, de amantes desse trabalho áspero sobre a música e a intimidade das línguas que é a literatura. De resto, é nas universidades do Brasil que se encontram alguns dos maiores estudiosos da literatura portuguesa contemporânea, as teses aprofundadas, a paixão analítica autêntica e despreconceituosa, despida das ideias feitas sobre idades e currículos, dos julgamentos prévios sobre os costumes e companhias dos escritores e das maledicenciazinhas de bairro que tantas vezes entopem o olhar sobre os nossos livros, deste lado do Atlântico.

Chegara Agustina de Fortaleza, na incómoda parte de trás, dita turística, de um avião que na parte da frente, de conforto executivo, trazia a Ministra da Cultura de Portugal e outras individualidades – e chegara sorridente, depois de recusar um upgrade de voo atabalhoadamente tardio. Chegara radiosa, na flor dos seus 81 anos de vida, ao lado do novo conselheiro cultural de Portugal no Brasil, o pianista Adriano Jordão, que, talvez por ser também artista, ou seja, homem de sensibilidade, preferiu a companhia de Agustina às mordomias da moderna aviação. E radiosamente entrou Agustina na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, flutuando num rio de luzes e flashes e microfones, para receber esse galardão máximo da literatura lusófona. Ao seu lado, comungando do seu génio iluminado pelas televisões, estavam o Primeiro Ministro de Portugal, os Ministros da Cultura de Portugal e do Brasil, o Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal e muitas e variadas excelências oficiais e oficiosas. Todos eram de súbito Agustina, todos participavam do fulgor da sua obra, inquietante tigre momentaneamente amansado, todos lhe beijavam a mão ou as faces aureoladas. Agustina distribuía sorrisos e gargalhadas, com aquela perspicaz alegria do mundo que a caracteriza e que aos tristes, fechados na sua desconfiança de si mesmos, parece ironia cáustica.

E vieram os discursos, solenes e promissores. Quando Maria João Bustorff acabou o elogio de Agustina, o Ministro Gil, antes de entregar o galardão e o cheque (de cem mil euros), improvisou aquilo a que ele próprio chamou um “barroquinho baiano” sobre o poder da palavra. Agustina agradeceu, com educação e sem deslumbramento, lembrando que os cerimoniais são apenas marcadores práticos de uma existência que está sempre noutro lugar. Contou a história de uma conversa de alma, no acaso de uma rua do Rio de Janeiro, com uma vendedeira de rendas do Ceará que se disse também escritora, e que, na hora da despedida, como Agustina demonstrasse pena de não poder prosseguir o colóquio, lhe disse: "Vá, não se preocupe, que nem a viagem ao céu é só de ida". Houve lágrimas nos olhos de todos, ministros incluídos, e uma ovação de pé à magistral premiada.

Passava da uma da tarde quando terminou a cerimónia. Começaram então as movimentações, entre sucos e canapés. O Presidente da Academia Brasileira de Letras insistia junto das assessorias em ter Agustina para o chá, e os responsáveis do protocolo sussurravam entre si, empurrando a incumbência de acompanhar Agustina de uns para os outros. Estava previsto um almoço num barco com o primeiro-ministro português, que afinal se transformou em vários almoços em terra entre os ministros, presidentes e directores. Os copos esvaziavam-se e o barulho das luzes esmorecia à medida que os ministros se escoavam. Nisto Agustina aproxima-se, livre e solitária, para nos perguntar se não queríamos ir almoçar com ela. E lá fomos os quatro, tranquilamente: Agustina, Adriano Jordão, Paulo Roberto Pires –  o crítico literário que se tornou editor e lançou na Planeta uma colecção de autores portugueses, onde se lançará muito em breve Vale Abraão de Agustina –  e eu. Tão animado foi esse almoço que nos esquecemos de pedir champanhe para brindar, como fez Agustina em Frankfurt, nessa noite de 1998 em que Saramago ganhou o Nobel. Nem sequer falámos de literatura; só de temas perturbadores como fantasmas, premonições, bons e maus casamentos, desvarios do poder. Agustina recordou-se da decepção que o pintor Henrique Medina teve, em certa época, porque foi chamado à Argentina para pintar retratos de todas as grandes figuras locais – mas depois punham-no a comer com os criados. "Um escritor recebe uma coroa de pedras falsas de vez em quando, mas a verdade é que ainda é considerado uma figura menor na sociedade", dissera, em entrevista a Andréia Azevedo Soares para o jornal Público, aquando do anúncio deste Prémio. No encontro com os leitores, em Fortaleza, lembrara que "o riso e as lágrimas não têm sotaque". Rimo-nos muito, neste sereno e improvisado almoço a quatro, no recato do restaurante Santa Fé, para onde nos guiou uma conhecida empresária de espectáculos brasileira, quando nos apanhou, meditando em hipóteses gastronómicas, nas escadas já desertas da Biblioteca Nacional.

Agustina dispensou a Academia; já lhe custara ter sido acordada às sete da manhã por um canal de televisão, ter-se arranjado para essa entrevista imprevista num tempo recorde –  sem esquecer a écharpe vaporosa e o precioso conjunto de jóias Lalique que seleccionara para a ocasião. E entre risos nos despedimos dela, no calor luxuriante da tarde do Rio, à porta do velho e garboso Hotel Glória.

publicada em 18/09/2004 no semanário "Expresso".