[Polêmica]As relações entre crítica e poesia na produção textualpor André GardelEsses apontamentos foram feitos para uma mesa redonda realizada na UFRJ, em 13/04/2004, dentro das atividades desenvolvidas durante a Semana de Poesia da instituição. O debate contou ainda com as participações de Ítalo Moriconi, Eduardo Guerreiro e André Luiz Pinto. São, na verdade, tópicos esparsos abordando por ângulos diversos o tema sugerido para a mesa, mas que acabaram por adquirir, no final das contas, um toque reflexivo pessoal, de minha produção particular como poeta e crítico. Talvez resida aí um valor plausível para estes apontamentos, o que levou algumas pessoas a me sugerirem a sua publicação. Faço isso movido mais pelo desejo de transmissão quase poética de uma experiência de linguagem do que por qualquer ambição, qualquer pretensão estético-filosófica.
:: É um tipo de relação que atravessa toda a tradição literária moderna, portanto, desde o Romantismo. Como se sabe, este movimento prima, entre outras coisas, pela valorização da subjetividade, o que levou à rebelião contra os códigos orientadores da criação, lançados pelas Academias clássicas ou quaisquer outros consensos de autoridade. Nesse momento, e por grande parte da modernidade, códigos canônicos que impõem diretrizes – como o Bem, o Belo, a Verdade, os Modelos a serem imitados – são implodidos, passam a viver como resíduos de antigas matrizes culturais. Assim, o debruçar-se sobre a própria produção, o papel do crítico e do poeta embutidos numa mesma persona, encenado por uma linhagem de escritores modernos, é fruto de um desejo de estabelecimento de valores e juízos próprios.
:: Leyla Perrone Moisés no livro Altas literaturas fala em “MAL-ESTAR DA AVALIAÇÃO”, causado nos escritores modernos pelas várias correntes críticas contemporâneas que abdicaram de uma valoração, de uma escolha, de um lugar de fala seletivo e sensitivo em suas orientações metodológicas. Pois a atitude dos escritores que se querem críticos é justamente a de reassumir a escolha, de se posicionarem em um lugar (mesmo que este espaço seja rotativo, evanescente, indiscernível), realizando um recorte sincrônico particular da tradição. Dessa forma, o dístico de Valery, “Ler/ Eleger”, sintetiza essa idéia: redesenhar a tradição para poder melhor pintar-se, como os índios, para a guerra... literária...
:: A Modernidade produziu uma tradição fortíssima de poetas-críticos: os poetas filósofos da escola de Iena, Baudelaire (permanência e tradição), Poe (filosofia da composição), os manifestos de vanguarda européia, Valéry, Eliot, Pound, os concretos, Mário, Oswald, Borges, Cabral, Octavio Paz...uma linhagem que se tornou tão forte que adentrou os limites vorazes da sociedade de massas, da indústria cultural (espaço pastiche que incorpora o culto, o popular, o folclórico de acordo com as flutuações do mercado) com as obras de Caetano e Gil e, atualmente, ainda nas produções de Arnaldo Antunes, Antonio Cicero...entre outros.
:: Para a minha produção, tanto crítica quanto poética, essa relação se dá a partir de um conceito-chave, que funciona simultaneamente por adição e por subtração, que eu chamo de CONTAMINAÇÃO.
:: Pensar tal conceito como determinante de toda uma produção, como algo que se espraia por todas as tessituras de uma criação, de uma voz estilística, já é, em si, moderno, no sentido de interelacionar, inevitavelmente, crítica e poesia.
:: Meu discurso crítico deixa-se contaminar por saberes e disciplinas não necessariamente ligadas à tradição literária, seja na inserção de vocábulos e máximas, seja no ato de se deixar rodear por alguns fantasmas de estruturas epistemológicas estranhas, não literárias. Importa exatamente isso: a lateralidade dessa estranheza contaminada de incorporações, que vai gerar o background necessário para minha leitura específica do objeto da crítica: o que produz um tipo de discurso que pode ser reconstruído a cada nova leitura, a cada nova adição contaminante.
:: Na relação direta com o objeto, o processo de contaminação é ainda maior: só acredito em discurso crítico que passou por um estágio qualquer de fusão com o objeto. È preciso uma relação, de algum modo, amorosa, senão não há contaminação, há assepsia da visão, rejeição do mundo. Sou daqueles que prefere se empenhar em achar um ponto positivo numa obra; ou, se isso não ocorrer a partir de minha perspectiva, sou daqueles que prefere não realizar uma crítica, não tecer um discurso crítico a partir de um objeto, a fim de evitar desancar um esforço criativo qualquer.
:: No que diz respeito a minha produção poética propriamente dita – e espero que já tenha ficado claro que os limites entre poesia e crítica aqui se liqüefazem-, somaria ao conceito de contaminação o de INDETERMINAÇÃO, de suspensão mínima fraccional da intenção, da direção criativa, ao modo do movimento imprevisto das partículas subatômicas na realidade da física quântica. Não me refiro, obviamente, à boa e velha inspiração romântica, nem ao transe poético (seja o movido por potências artificiais como o dos beats e dos surrealistas, seja o movido por foças naturais como o dos xamãs ou dos apaixonados incontroláveis). Não falo em ser cavalo de uma força cósmica, de um espírito externo, dos meus próprios mistérios.
:: Falo de um momento em que poesia e crítica já se fundiram a tal ponto que se confundiram, agem juntas, interagem. Ou, por outro lado, se distanciaram tanto que não comportam a mínima insinuação aproximativa, instantânea, no átimo da criação.
:: Esse momento surge quando o mundo fere, de algum modo, nosso desejo de produção de linguagem, interferindo em nossas vidas com tamanha intensidade que uma frase ouvida ou lida, uma idéia, uma cena, um som, um sentido, um intervalo tempo-espacial qualquer precisa ganhar corpo, tornar-se coisa, ser poema.
:: No meu caso adicionaria ainda a indeterminação do percurso de construção do aspecto formal do poema. Não que não haja um projeto preconcebido, um plano de ação, uma meta. Mas a liberdade desse plano ser desfeito no processo de criação, de tomar um rumo anticabralino na estruturação e conformação de linguagem, é uma possibilidade constante em minha produção. Pelo simples fato de que deixo à força do movimento criativo o contorno formal que o poema terá. Acho que isso ocorre devido ao caráter bifronte de minha produção.
:: Sou poeta e músico, compositor de música popular, portanto também letrista. O jeito que mais gosto de compor é criar uma melodia a partir de uma letra, um poema, daí a facilidade que tenho em musicar outros poetas. Bandeira dizia que adorava ser fotografado e ser musicado, como se esses dois atos viessem de um mesmo processo inventivo. Concordo. Uma melodia é uma fotografia musical de uma letra; da mesma forma que fazer letras a partir de uma melodia dada se assemelha a escrever sob o enquadramento de uma forma fixa.
:: Pelo fato de fazer letra e poema a partir de um mesmo lugar, o espaço de construção verbal, a indeterminação se impõe, prismando o contorno do objeto, de letra ou poema, ou dos dois, quase sempre no próprio desenvolvimento do ato criativo. Acredito que o exemplo sirva também para definir o modo de relação que crítica e criação surgem em minha produção textual.
André Gardel é Doutor em Literatura Comparada, porfessor, poeta e compositor. Neste início do ano, além de preparar o lançamento de um novo CD, está publicando seu mais recente livro de poesia: A letra do poema.
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