[Polêmica] Literatura brasileira: de ausências e esquecimentos por Stefania Chiarelli Sou eterno imigrante; parto de mim para mim mesmo, de meu corpo para meu corpo, mutável.
Samuel Rawet, Devaneios de um solitário aprendiz da ironia.


Não há como escapar: ao folhear suplementos culturais dos maiores jornais brasileiros e revistas de literatura, encontra-se farto material a respeito da comemoração dos cinqüenta anos de publicação de Grande Sertão: veredas. Ainda que se reconheça a pertinência da euforia em torno do meio século da obra rosiana, persiste certo mal-estar. A festa está incompleta, falta um convidado de peso nessa lista: aqueles que escrevem a história da literatura brasileira insistem em omitir o o nome de Samuel Rawet. Foi também em 1956, há exatos cinqüenta anos, que o escritor judeu-polonês lançou a primeira edição de Contos do Imigrante. Saudado pela crítica especializada pelo modo como estabelecia um espaço novo para refletir sobre a experiência da imigração, a obra de Rawet acabou caindo em quase completo esquecimento. Não foi nada fácil - e não é até hoje - forjar um lugar que acolha Samuel Rawet na literatura brasileira. Porque se vacila tanto em nomear a importância dos escritos desse autor? Fato é que o silêncio em torno do nome de Rawet permanece, exceção feita aos comentários gerados por ocasião do lançamento de Contos e novelas reunidos, em 2004. Prefaciado e organizado pelo crítico André Seffrin, o livro registrou o fato de que havia quase trinta anos que nenhuma obra de Rawet era reeditada.

Ainda é no terreno da pequena confraria que seus textos são saboreados, no boca a boca que corre entre admiradores dispostos a escavar exemplares espalhados em antologias antigas, prateleiras empoeiradas de bibliotecas ou sebos. O isolamento dos poucos leitores é quase eco da situação vivenciada pelo escritor. Solidão é palavra que define boa parte da trajetória de Rawet, tanto em relação à comunidade judaica, com a qual rompe não sem algum conflito, quanto no que se refere à sua própria escrita. Simbolicamente, também é o afastamento que marca o final da vida, uma vez que opta pelo gesto de se isolar na cidade-satélite de Sobradinho (próxima cerca de 20 km de Brasília) no fim da existência. É na periferia da cidade que ajudou a construir que terminam seus dias, em 1984.

Não se trata de chamar a atenção para o descaso em relação à produção literária rawetiana como modo de corrigir injustiças ou promover um resgate redentor de sua obra, mas de buscar maneiras de apresentá-lo a leitores que aceitem o desafio de mergulhar na prosa perturbadora desse escritor. É urgente promover o debate em torno dos escritos de Rawet, provocando uma reflexão sobre seus contos, novelas, peças de teatro e ensaios filosóficos, sem se ater tanto ao rótulo outsider que recebeu. A tantas vezes citada misantropia do autor, somada ao rompimento com a comunidade judaica e a própria família, o fato de ser estrangeiro, homossexual, excêntrico, foram elementos que ajudaram a construir a aura maldita de Rawet, onipresente nos meios de comunicação que insistem em repisar tal imagem. Entretanto, utilizar o grau de maldição de um escritor como critério de valor nunca contribuiu em nada para a apreciação de seus escritos. A tarefa dos novos leitores não é pequena: consiste em sondar os diálogos da obra rawetiana com seus contemporâneos, vasculhar as nuances de sua vasta produção ficcional, como também perceber o que tem a dizer o pensamento de autor tão singular em tempos de intolerância e xenofobia. Afinal, é de Rawet a afirmação de que ser judeu.

"é isso, é aquilo (...) Nenhuma violência, nenhum obstáculo, concreto, um estado de espírito apenas, a criar barreiras, um incômodo feito de miudezas que moem, trituram, dilaceram e exacerbam pequenos impulsos, sonhos. (...) 1

A experiência da alteridade no texto rawetiano é atravessada por dilacerados conflitos, e seus escritos confrontam o leitor com perguntas incômodas a respeito do que significava ser um imigrante judeu na sociedade brasileira nos idos de 1950. É a partir do pequeno, do detalhe, da situação de seres à margem que o escritor parte para construir seus textos, na contramão do que se poderia chamar de caráter épico da história da imigração. O imigrante rawetiano é suburbano, na maior parte das vezes proletário, vivendo um cotidiano marcado pelos desafios de operar os códigos de outra cultura a contento. Contos do Imigrante se compõe de dez narrativas em que o autor realiza espécie de painel evidenciando situações em que imigrantes judeus experimentam a sensação de inadequação diante de uma realidade desconhecida. Os cinco primeiros contos tematizam diretamente a figura do imigrante judeu, enquanto os demais ampliam a atmosfera de desajuste a outros tipos de personagens marginalizados. Personagens judeus comparecem em inúmeras narrativas de Rawet, mas já não se trata da experiência da imigração unicamente: marginais, vagabundos e errantes são tipos que povoam o restante da ficção rawetiana, a exemplo do protagonista de Viagens de Ahasverus à terra alheia em busca de um passado que não existe porque é futuro e de um futuro que já passou porque sonhado (1970).

Na produção ficcional de Rawet, os indivíduos que passam pela experiência do transplante cultural e do desenraizamento têm em comum o fato de se verem incapacitados de narrar suas histórias, de transmitir sua experiência, conforme teorizou Walter Benjamin. A ausência discursiva comparece em Contos do Imigrante de diversas formas, seja na gagueira de vários personagens, no entrecortamento do discurso ou no próprio mutismo em que se fecham. O autor soube problematizar de forma singular temas como o esfacelamento da tradição e a ruptura das cadeias de transmissão do legado cultural. "Que dizer? Seria possível compor, pedaço a pedaço, os fluxos de idéias, desordenados, dar-lhes um fio, torná-los história que se conte em palavras? Depois, dizer o quê?", reflete a personagem do conto "Réquiem para um solitário"

O fazer literário era uma necessidade visceral para Rawet, que exercia as atividades de escritor e engenheiro de modo paralelo, já que o primeiro ofício não lhe garantia a subsistência. Convidado a participar da equipe de Oscar Niemeyer, fez parte do grupo de Joaquim Cardozo, o principal calculista (e também poeta) do arquiteto na nova capital. Dessa forma, participou concretamente do processo de erguer Brasília, em momento histórico em que predominava clima de otimismo em relação ao projeto desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek. Mas se engana quem pensa que o escritor aderiu a esse momento eufórico de forma irrefletida. Se ajudou com suas próprias mãos a calcular e projetar inúmeros monumentos dessa cidade cujo épico projeto de construção simbolizava a euforia dos anos 50, também desconstruía essa visão ao trazer para dentro de sua ficção personagens que carregavam a marca da inadequação, do sofrimento e da impossibilidade de fazer parte de toda essa pujança econômica que se queria alardear. Como exemplo de mais um apagamento da contribuição do escritor/engenheiro, a minissérie televisiva JK sequer mencionou sua participação na equipe de Oscar Niemeyer. Era de se esperar. Samuel Rawet tampouco foi convidado para essa festa.


[1] RAWET, Samuel. "O terreno de uma polegada quadrada". Contos e novelas reunidos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004, p. 271.