[Polêmica]Estilhaços de ficção, literatura viva *por Paulo Roberto Pires"Literatura partida", um dos temas deste seminário, é imagem boa e, ao mesmo tempo, insuficiente para dar conta da produção ficcional brasileira contemporânea. É certo que ao se falar em literatura, hoje, fala-se mais em fissura do que em unidade, refere-se antes à fratura do que ramificação. Mas a expressão, que alude de forma inequívoca ao livro de Zuenir Ventura, Cidade partida, também sugere divisões entre centro e periferia, produção dominante e alternativa, visão de mundo bem assentada e deriva marginal. E aí é preciso radicalizar para tentar ver os desenhos possíveis de uma "literatura estilhaçada".
Fragmentação foi, por muito tempo, palavra-mágica que, nas águas ralas do que se chamou "pós-modernismo", nomeava tudo o que não se conseguia classificar ou, o que é pior, desistia-se de interpretar. Aqui tem outro sentido, bem preciso: os estilhaços são as ocorrências do literário em lugares físicos e simbólicos até então completamente excluídos da vida literária, dos MCs e rappers até a anarquia virtual dos blogs.
Face às outras artes, aqui e em qualquer outro lugar, a literatura tem perdido relevância e conseqüência estética e cultural. A música e o cinema, sobretudo, estão a anos-luz de distância na capacidade de sintonizar-se com seu tempo e, também, de pôr em questão seus fundamentos. Um vanguardista comemoraria mais esta morte da literatura, um beletrista iria denunciá-la com indignação. Noves fora, resta para a literatura uma admirável liberdade, que é a dos despossuídos, dos periféricos e dos desimportantes.
A vitalidade que se vê hoje na literatura brasileira não é heróica, como em tempos de resistência política e cultural. Não tem a grandiloqüência de uma retomada, como se quer atribuir ao cinema nacional, e tampouco se faz com a criatividade organizada de movimentos e escolas. Novos autores despontam aqui e ali, revistas e blogs somem e aparecem ao sabor dos downloads e uploads, críticos reclamam "qualidade", escritores ameaçam ir "às vias de fato" na defesa de posições de um jogo literário que conhece até lances sensacionalistas na disputa por evidências passageiras e glórias banais.
Tudo isso é sintoma, se acreditarmos no conceito de um crítico como Brito Broca, de uma pujante vida literária1. Tudo isso é indício de que escritores, editores, críticos e leitores deixaram o alheamento dos anos 80 e de parte dos 90 para voltar, de alguma forma, a relacionar-se. Rompeu-se, por cansaço ou atitude, uma hibernação iniciada nos últimos estertores da ditadura, quando começa a aguar a idéia de uma "literatura como missão", e que se prolongou pelo inverno do "tudo está dito", o AI-5 da criatividade que se decretou a partir da "morte das grandes narrativas" apontada por Jean-François Lyotard em O pós-moderno.
Ao despertar, cada um dos atores da vida literária encontrou, como é próprio ao fim de hibernações, uma paisagem muito diferente. No horizonte, o mercado cultural lançava novas luzes - e sombras - sobre práticas e costumes, elegendo o entretenimento como valor e o audiovisual como forma privilegiada de difusão. É preciso profissionalizar-se segundo padrões internacionais - e bem o entenderam os editores, que começam a esboçar novas relações com os autores (até então excessivamente confinados num esquema de fidelidade e afetividade) e transformam livros em produtos bem acabados e competitivos que passam a fazer parte, de forma mais agressiva, na lógica dos blockbusters da cultura.
Se a profissionalização soou como um alerta para escritores que, atônitos, viam alguns de seus pares figurar em manchetes pelos polpudos adiantamentos recebidos, para a grande maioria funcionou como um estranho canto da sereia. O mercado acenava com modelos narrativos de sucesso garantido (o policial e o romance histórico, principalmente pela facilidade com que poderiam ser adaptados para o cinema e a TV) e mostrava-se mais refratário do que se poderia supor ao surgimento de novos nomes. O fenômeno Paulo Coelho era exemplar, pela consagração de um modelo narrativo e o monopólio de uma fatia deste mercado - menos por uma imposição calculada do que pelo imponderável que sempre cerca este tipo de desempenho editorial.
Neste período, os leitores aumentaram em número - pelo menos a se julgar pelo incremento de títulos e tiragens2 - mas não em qualificação. A inequívoca afirmação daquele que se poderia considerar um "leitor de massa" não foi acompanhada pela disseminação dos "leitores profissionais", aqui entendidos como jornalistas, editores, professores e, é claro, os próprios escritores. Também estes, os que têm na leitura parte de suas obrigações profissionais, praticamente desconhecem a produção contemporânea, em geral confinada no circuito das pequenas editoras, agraciadas com eventuais destaques em jornais e revistas e penalizadas pelas históricas dificuldades de distribuição comercial do mercado editorial brasileiro.
A disseminação da internet a partir da segunda metade dos anos 90 contribuiria fundamentalmente para transformar de forma radical esta paisagem desolada. A literatura - e o literário - não passariam incólumes pela aceleração que a web impôs à produção e difusão de informações. Com a simplificação crescente das formas de acesso, a grande rede começou a ser povoada por um número maior de textos que, entre muito lixo, pornografia, notícias, pesquisas e tecnologia, diziam-se... "literários". É impreciso e redutor afirmar que uma "demanda reprimida" acabou escoando pela internet, mas é fato que ela se mostrou o meio ideal de expressão para escritores jovens e nem tão jovens que se sentiam excluídos da vida literária ou, o que é melhor, não estavam nem aí para estes parâmetros.
Do Rio Grande do Sul vieram as primeiras experiências mais organizadas: TXT Magazine (de André Takeda), Proa da Palavra (editada por Daniel Galera) e o Cardoso On Line, o COL, que começou como um e-zine enviado por e-mail e em 278 edições3, já transformado num site, reuniu gente que hoje já tem bibliografia como Daniel Galera (Dentes guardados), Daniel Pellizzari (Ovelhas que voam se perdem no céu) e Clarah Averbuck (Máquina de pinball). Teoricamente, tratava-se de "revistas literárias" difundidas por um novo meio - o que, como veremos, não é um detalhe tão pequeno assim.
A idéia de revista literária parte de um pressuposto básico: a de um criador, ou grupo de criadores, que dispõe de um meio próprio de expressão, independente de injunções do mercado e da lógica produtiva, para fazer circular suas criaturas. No papel, são uma espécie de ante-sala do livro, este o meio canônico e consensual de entrada na "vida literária" tal como a conhecemos ortodoxamente. A forma tradicional da revista literária obedece, com pequenas variações, a um mesmo modelo: jovens e estreantes são publicados lado a lado com nomes consagrados, que de certa forma os avalizam ou pelo menos ajudam a chamar a atenção sobre seus nomes.
O que vem acontecendo na internet é em parte, e somente em parte, análogo a este processo. Pois nos sites independentes e, principalmente, nos blogs, não há necessidade alguma de legitimação intelectual e literária. No que já se chama de blogosfera reina uma saudável anarquia que, do ponto de vista literário, marca um espaço vira-lata, sem qualquer pedigree intelectual. Como se sabe, é possível blogar o cotidiano de uma grávida, a vida amorosa de um garoto, comentários e bastidores de notícias, informações de um fã-clube, etc. O que faz o literário na internet é, basicamente, a intenção - e aí entramos num terreno minado pelo espontaneísmo e pela pretensão.
A literatura produzida na internet e por ela difundida é reconhecida como tal só e somente através de um pacto múltiplo que se firma entre escritor (que de alguma forma declara estar realizando algo mais do que um simples diário), leitor (que identifica no que lê algum tipo de transcendência do umbigo do blogueiro) e crítico (que se arrisca a de alguma forma emprestar legitimação ao vazio completo de referências que é a web). Esta equação, que é o frágil processo de legitimação intelectual do literário, completa-se se o pacto for ainda firmado por um editor, que ao transformar blog em livro dá a bênção final, transformando a escrita dispersa no virtual no objeto canônico da literatura.
Mas é graças a esta incerteza radical, a esta terra de ninguém, que começam a despontar na ficção brasileira nomes que, de alguma forma, vencem as barreiras tradicionais da difusão e, à margem do mercado e suas convenções, conseguem o que é - ou deveria ser - o objetivo último de um escritor: ser lido pelo maior número de pessoas possível, dialogar com seus pares e com os críticos, manter a sinceridade criativa que cimenta com solidez uma obra. Pois o garoto de qualquer idade que começa a blogar está mais solitário do que um náufrago de piada, soltando suas garrafinhas em busca de um pedido de socorro. Ao iniciar num blog seus exercícios de ficção e escrita, um autor não espera dinheiro ou consagração: manter um blog é ato gratuito, felizmente "não serve para nada" a não ser o exercício da escrita.
Esta mudança de atitude do escritor, que prefere blogar a chorar pela desatenção das editoras, acaba alterando de forma substancial o trabalho de um editor, habituado a receber cotidianamente remessas e mais remessas de originais. Classicamente e na maioria das vezes, trata-se de um trabalho de rápida reação às propostas que chegam pelo correio ou pela recomendação de interlocutores qualificados. Algumas horas de navegação podem, no entanto, mudar completamente esta atitude, pois o que se lê em meio ao caos de informação da web são textos mais ou menos brutos de escritores mais ou menos talentosos. Não há placas indicando o caminho, é preciso perder-se para ter o melhor dos encontros possíveis, a primeira leitura de um texto sedutor do qual se desconhece a autoria. Descobrir é um dos verbos que um editor tem sempre em mente - e a web só o potencializa.
Todas estas transformações alteram de tal forma a vida literária que a complexa equação escrever-publicar-ler-criticar ganha uma surpreendente - e interessante - carga política. O filósofo francês Jacques Rancière viaja à Grécia4 para lembrar que a verdadeira política só se pode fazer pelo desentendimento, ou seja, pela atitude de alguém não-autorizado a falar determinado assunto que resolve tomar a palavra em um lugar proibido e no momento em que não se espera nenhuma fala. Instala-se aí o desentendimento radical e, com ele, a verdadeira discussão e ruptura que têm poder efetivamente transformador.
A literatura estilhaçada é a potencialização máxima da política. Em torno dela, que não tem lugar nem voz pré-definidos, estabelece-se o máximo desentendimento. E, com ele, a vitalidade mais radical.
NOTAS:
* Texto apresentado no seminário "Cultura e Desenvolvimento", coordenado por Heloisa Buarque de Hollanda, no Centro Cultural banco do Brasil.
1. É impossível a meu ver abordar o texto literário sem compreender o que se desenvolve a seu redor, resumido pelo conceito de "vida literária". Tão importante quanto o livro em si é o ambiente que o influencia e que por ele é influenciado. Críticos, editores, jornalistas, premiações, conferências, universidades, boemia, enfim, tudo é material de formação de uma época da literatura, como o demonstrou magnificamente Brito Broca e sua Vida literária no Brasil - 1900.
2. Segundo pesquisa do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, o SNEL, em 1990 publicaram-se 22.749 títulos, que resultaram na venda de 212.206.449 exemplares. Em 2000, foram 45.111 títulos (mais do que o dobro, portanto), com uma venda de 334.235.160.