[Polêmica] Ficção e Desenraizamento por Vera Lúcia Follain de Figueiredo Ao afirmar, em textos diversos1, que o narrador ou é um viajante ou um investigador, que só se pode narrar um crime ou uma viagem, o escritor Ricardo Piglia não está evidentemente se referindo de maneira estrita a recortes temáticos. Está interessado em caracterizar a narrativa como tributária de experiências que supõem o ultrapassar fronteiras, sejam fronteiras espaciais, sejam fronteiras impostas pela ordem vigente. A ênfase conferida por Piglia aos deslizamentos entre territórios delimitados relaciona-se com o lugar a partir do qual pensa a literatura: isto é, como intelectual latino-americano, situa-se à margem da tradição cultural dos países centrais, pertence a uma cultura fronteiriça que se constitui em tensão com a tradição hegemônica.

Nesse sentido, ao dizer que o porto é o lugar ideal da narração, da literatura , de toda literatura, que o porto provoca a fantasia, a troca, o tráfico, a sexualidade2, o escritor argentino traz à lembrança as narrativas dos viajantes dos séculos XV e XVI, que, recorrendo à imaginação, lançavam uma ponte entre dois mundos distintos, aguçando a curiosidade do europeu, no alvorecer da modernidade, em relação ao continente americano recém-descoberto. Alude a um imaginário espacial, alimentado pela existência de lugares distantes, situados além dos habituais – lugares distantes, onde, curiosamente, se encontrariam todas as ameaças, mas também, por outro lado, todas as cidades utópicas.

É em torno das representações fantásticas das terras desconhecidas, que estimularam a aventura das grandes navegações, que gira o conto "O Caminho de Santiago" (1958), de Alejo Carpentier, ambientado na Europa do século XVI. O personagem principal é um tal Juan, jovem espanhol que não resiste à tentação de correr mundo como "tambor de tropa": a idéia de viajar, marcando o ritmo da marcha dos soldados, lhe parece mais atraente do que ficar em sua aldeia e seguir a vida religiosa. No entanto, em suas andanças, acaba por contrair a peste e, com medo de morrer, faz a promessa de percorrer o caminho de Santiago, como peregrino, caso lhe fosse concedido o milagre da cura. Tendo escapado da morte, vai, então, Juan, convalescente, vestido com o hábito de peregrino, pisando o chão da Europa, sem pisar o chão das tavernas, em direção a Santiago de Compostela. À medida que o vigor físico se restabelece, continua a viagem, mas já não evita os vinhos. Atirado de surpresa a uma feira, conhece Juan Indiano, que se apresentava com um mico no ombro e um papagaio na mão e vendia, dentre outras coisas, dois jacarés empalhados, afirmando que os trouxera de Cuzco. O viajante fala das maravilhas das Índias Ocidentais e Juan Romeiro se deixa encantar pela narrativa dos prodígios que o outro conheceu:

Esquentado pelo vinho, o indiano começa a falar dos prodígios menos divulgados: de uma fonte de águas milagrosas, nas quais os velhos mais curvados e entrevados mergulhavam e logo saíam com a cabeça coberta de cabelos lustrosos, as rugas alisadas, a saúde recuperada, os ossos desentorpecidos e tesão suficiente para emprenhar um exército de amazonas. (...) Havia também uma cidade, irmã de Jauja, onde tudo era de ouro – até as bacias dos barbeiros, as caçarolas e os tachos, o aro das rodas das carroças e as lamparinas.3

Seduzido pelo discurso de Juan Indiano, Juan Romeiro larga o hábito de peregrino e embarca para as terras americanas, onde não encontra ouro, nem sereias, nem fontes de juventude. Encontra intriga, competição, num povoado recém-fundado, no qual a ambição acirra a violência. Nas terras americanas, as lutas religiosas travadas no continente europeu parecem perder o sentido, assim como todas as leis e proibições se flexibilizam. Juan rejeita os costumes diferentes, a falta de vinhos, a natureza e o clima da América e promete a si mesmo que se conseguir voltar para a Europa, fará o Caminho de Santiago. No entanto, ao pisar de novo o solo europeu, Juan, agora denominado Juan Indiano, ao invés de cumprir a promessa, apresenta-se nas feiras, narrando as maravilhas das Índias Ocidentais e convence um tal Juan Romeiro que se encaminhava para Santiago de Compostela a embarcar num navio em Sevilha, rumo a Manoa, onde haveria mais ouro do que as tropas eram capazes de trazer da Nova Espanha.

Carpentier tematiza o fascínio das viagens, ou melhor, o fascínio exercido pelos relatos de viagem, verdadeiros ou imaginários, naquele momento em que a Europa estava em crise: a religiosidade medieval estava em ruínas, assim como os valores da sociedade feudal teocrática. A miséria e a doença se espalhavam. Juan Indiano era, então, a outra face de Juan Romeiro, a face que apontava para o desgaste do maravilhoso cristão, disciplinado, regulamentado no milagre, e para a força crescente do maravilhoso propriamente dito, que não se restringia ao arbítrio de um só Deus, contando com inumeráveis forças sobrenaturais. O conto nos reporta a esse momento que, como observou Gerd Bornheim, caracterizou-se pela tensão estabelecida entre dois tipos de narrativa: a que tinha a Bíblia como referência para tudo e a que deslizava para um universo povoado de monstros, seres estranhos, ilhas de pérolas, montanhas de ouro. As figuras do peregrino e do viajante se sobrepunham, se trocavam, como acontece com Juan Romeiro e Juan Indiano: trata-se do homem dividido entre os referenciais do passado e o apelo do novo. Quando prevalecia o espírito do peregrino a significação da viagem não ultrapassava a identidade do mesmo:

O peregrino perseguia aquilo que ele já sabia, a confirmação absolutória de um Absoluto desde sempre creditado, ele nunca se desprendia das fronteiras de uma verdade que se exauria em exigir a sua própria confirmação, ainda que, e mesmo principalmente, através de milagreiras penas sequiosas de redenção. Os tortuosos caminhos ratificavam a identidade do princípio e do fim: do mesmo se ia ao mesmo, e tudo isso mais nada tinha a ver com o mundo.4

Quando prevalecia o impulso para a grande viagem, falava mais alto a aventura de se lançar ao desconhecido, de conferir os prodígios que povoavam as narrativas e ainda que esses prodígios não fossem encontrados nas terras distantes, continuavam a povoar o imaginário, movendo o comércio das feiras e em escala maior o mercantilismo incipiente.

Viajante e peregrino, entretanto, eram frutos da mesma inquietação e cada qual, a seu jeito, buscava uma saída para os males que assolavam o contexto europeu da época. Não é à-toa que Erasmo, no Elogio da Loucura, escrito em 1509, considera, loucos os viajantes que, por um lucro magro e duvidoso, correm através dos mares e dos ventos colocando em risco uma existência que dinheiro nenhum poderia restituir, mas também julga loucos os peregrinos, que largam "a casa, mulher e filhos para ir a Jerusalém, a Roma, ou então a Santiago onde nada os chama"5.

Erasmo olha o mundo com distância e ironia, a partir da certeza de que a única verdade está na Sabedoria divina e de que a única busca válida é a busca interior, voltada para o encontro com Deus. Seu livro é um longo monólogo no qual a Loucura, diante de um auditório repleto, faz o elogio de si mesma. A loucura a que o autor se refere é aquela que contamina a razão, que se encontra no âmago da própria razão, disseminando-se de tal forma que ninguém dela escapa, nem os sábios, nem o clero e nem Cristo, já que se revestiu da natureza humana. Torna-se, assim, impossível traçar limites entre sanidade e insanidade. A loucura subjaz a tudo que é humano, é inerente ao homem, à sua presunção, à sua vaidade.

Por outro lado, a associação entre o mar e a loucura já se manifesta, no século XV, através do estranho hábito de se escorraçarem os loucos das cidades, confiando-os aos marinheiros, mercadores e peregrinos, como informa Michel Foucault. Daí surgem as chamadas "naus dos loucos", navios que carregavam insanos em busca da razão. O autor destaca, então, o caráter simbólico desse hábito:

Esta navegação do louco é simultaneamente a divisão rigorosa e a Passagem absoluta. Num certo sentido, ela não faz mais que desenvolver, ao longo de uma geografia semi-real, semi-imaginária, a situação liminar do louco no horizonte das preocupações do homem medieval – situação simbólica e realizada ao mesmo tempo pelo privilégio que se dá ao louco de ser fechado às portas da cidade: sua exclusão deve encerrá-lo; se ele não pode e não deve ter outra prisão que o próprio limiar, seguram-no no lugar de passagem.6

É também a partir de uma geografia semi-real e semi-imaginária, que, no final do mesmo século XV, os homens vão se lançar ao mar para empreender as grandes navegações. Vão se lançar ao desconhecido, "ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo", para usar as mesmas expressões de que Foucault lança mão ao descrever a viagem das naus dos insensatos. Mas, ao contrário dos loucos cuja "única pátria é a extensão estéril entre duas terras que não lhe pertencem" e que, por isso, acabavam não tendo para onde regressar, a viagem do navegante só se realizava plenamente se houvesse o regresso que dava notícia da viagem, ou seja, a aventura náutica era tributária da experiência do relato. A nau dos loucos era o barco da viagem sem volta e, portanto, silenciosa. A nau dos navegantes era o navio daquela loucura que organiza seu próprio discurso sedutor e com ele atua sobre o realidade: o relato do louco viajante alimentava as novas viagens, seduzindo o ouvinte. Se no solo americano as estratificações sociais pareciam desfeitas, estando todos equiparados na luta pela sobrevivência e pelo enriquecimento, nas narrativas dissolvia-se mais uma fronteira: a existente entre o fantástico e a realidade.

A dissolução dos limites entre loucura e razão estava em consonância com um mundo que se encontrava entre os valores medievais já em decadência e os valores modernos em gestação. Os valores modernos se anunciam no livro Utopia, de Thomas More, escrito em 1516. A utopia de More não era o Paraíso Terrestre buscado por Colombo, não pressupunha a volta às origens, mas considerava o futuro, o mundo que o homem poderia vir a construir. O espaço a ser descoberto era agora um lugar ideal, construído pelo discurso e no discurso. A grande viagem se realizava no espaço literário, território de onde a vontade do homem, dirigida pela razão, podia olhar criticamente o Velho Mundo. A utopia de More é a consagração do pensamento da negação do que existe: o imaginário já não era o dos monstros nem prodígios. Produto confesso da escrita, a utopia de More se queria verossímil: era o imaginário a serviço da razão crítica, numa visão que já era moderna e que estará na base de grande parte das narrativas de viagem dos séculos seguintes.

Por um viés diferente do adotado por Carpentier, Juan José Saer retoma o tema do relato de viagem suscitado pelas grandes navegações, com a publicação de El Entenado, em 1983. Nesse romance, problematiza-se a dificuldade de narrar quando os referenciais de origem são perdidos, quando o desenraizamento não permite a organização da experiência num relato coerente. El entenado se estrutura como uma narrativa autobiográfica, escrita na velhice, para resgatar o sentido da experiência vivida na adolescência, por um marinheiro do século XVI. Este, apartado dos companheiros de viagem, em função de um ataque realizado pelos indígenas, se vê obrigado a conviver, durante dez anos com uma tribo de antropófagos. Toda visão que temos dos indígenas é permeada pela interpretação do narrador e, entre os fatos e o momento em que começa a narrar, temos a mediação de um longo tempo, durante o qual o narrador vai se readaptar à cultura ocidental e aprender a ler e escrever com a ajuda de um padre. Daí resulta que o ato de escrever as memórias se confunde com a busca de entendimento do ocorrido no passado, e o movimento da escritura segue os percalços da reflexão e da dúvida.

Em compensação, a metáfora dos vários nascimentos do personagem, que pontua o romance, confere, em certa medida, legitimidade ao seu relato. Nascer significa estar diante de um mundo desconhecido, cujas leis temos de aprender sem que disponhamos de nenhum aparato anterior que nos ajude a compreendê-lo:

Nunca se sabe quando se nasce: o parto é simples convenção. Muitos morrem sem terem nascido; outros nascem apenas, outros mal nascem, como abortados. Alguns, por nascimentos sucessivos, vão passando de vida em vida, e se a morte não viesse interrompê-los, seriam capazes de esgotar o ramalhete de mundos possíveis à força de nascer uma vez após outra, como se possuíssem uma reserva inesgotável de inocência e de abandono.7

O personagem de Saer nasce três vezes. A primeira vez, como um menino europeu, vítima da orfandade, vivendo, em meio às prostitutas, no porto, onde circulam as narrativas dos marinheiros. Diz, então, o narrador:

Na boca dos marinheiros tudo se mesclava; os chineses, os índios, o novo mundo, as pedras preciosas, as especiarias, o ouro, a cobiça e a fábula. Falava-se de cidades pavimentadas de ouro, do paraíso sobre a terra, de monstros marinhos que surgiam subitamente da água e que os marinheiros confundiam com ilhas, de modo que desembarcavam sobre seu lombo e acampavam entre as anfractuosidades de sua pele pétrea e escamosa. 8

Seu segundo nascimento se dá como conseqüência da viagem ao Novo Mundo, como agregado de uma tribo indígena, tendo que tentar decifrar a linguagem e os hábitos de uma cultura totalmente nova para ele. O terceiro ocorre quando volta à Espanha, reaprende a viver entre os europeus, readquire o idioma materno esquecido, sendo também introduzido no mundo da escrita. A experiência de descentramento que, de início, o silencia, não permitindo que, ao retornar, tenha o desempenho verbal de Juan Indiano, tornará possível, anos mais tarde, a construção de um relato que não repete os dos marinheiros dos portos, mas se constitui numa indagação sobre a maneira como diferentes culturas lidam com o medo, com os desejos, com o desconhecido. A narrativa de viagem, no romance, é veículo para a problematização da fragilidade do próprio ser humano, pondo em xeque as certezas do chamado mundo civilizado. Do povo antropófago, o marinheiro destaca a luta pela sobrevivência diante das intempéries e a angústia silenciosa de viver num tempo cíclico, pautado pela repetição do ritual de devoração de carne humana, que, no entanto, os ajuda a dominar as inquietações. Mas assinala também a delicadeza, o pudor, a higiene, a consideração com o próximo e a civilidade que caracterizam os indígenas. E declara:

Durante anos, despertava dia após dia sem saber se era besta ou verme, metal em sonolência, e o dia inteiro passava entre dúvida e confusão, como se tivesse estado enredado num sonho obscuro, cheio de sombras selvagens, do qual me libertava apenas a inconsciência noturna. Mas agora que sou um velho percebo que a certeza cega de ser homem e só homem nos irmana mais com a besta do que a dúvida constante e quase insuportável sobre nossa própria condição. 9

Como se pode perceber, as palavras do personagem de Saer colocam sob suspeita as certezas canônicas da chamada civilização ocidental e nos remetem para a crise dos paradigmas da modernidade, crise esta que, desde a segunda metade do século XX, só tem se acirrado. Diante desse quadro, caberia, então, perguntar sobre o estatuto dos relatos de viagens no imaginário contemporâneo. Qual o lugar de onde se relata a viagem? O da razão, que organiza a experiência, segundo um fim na história? O da loucura, que denuncia a falácia da ordenação causalista e teleológica? O da fé, que despreza esses dois lugares mencionados em nome da ordem divina? Que outro Juan tomou o lugar de Juan Romeiro e Juan Indiano? Segundo George Balandier, o homem contemporâneo acha-se sob esses aspectos numa situação nova, sua relação com os espaços teria se tornado mais complexa e múltipla:

Ele adquiriu em algumas décadas o conhecimento real de um espaço aberto: o dos universos que a pesquisa espacial, com suas máquinas habitadas ou não, lhe faz descobrir; o de uma Terra tornada acessível em todas as suas regiões ou quase, pela vulgarização das viagens de longa distância. È uma mutação mais imprevisível em suas conseqüências que aquela da época das grandes descobertas, a partir dos séculos XV e XVI, período durante o qual se deu a primeira modernidade européia.10

Pode se acrescentar às mutações apontadas acima aquelas decorrentes das tecnologias digitais, que criam o espaço das redes, introduzindo uma espécie de sobre-realidade virtual. Quer nos parecer, então, que, numa certa vertente da literatura, a figura que surge é a de um Juan cujo relato se deixa contaminar pelo desencanto, decorrente da circulação num mundo que perdeu todo e qualquer mistério; um Juan que já nem sequer articula o discurso da dúvida, como faz o narrador de El Entenado. A temporalidade vazia em que se move não aponta senão para o presente, no qual o diferente não é surpresa nem promessa, podendo ser visto como mera presença incômoda. Espaço e tempo, categorias indissociáveis, esvaziam-se quando o próprio caminho da história perde a direção e o sagrado já não aponta para um além estimulador do imaginário, voltando-se para a vida imediata.

Nesse sentido cabe lembrar o livro Passaporte, de Fernando Bonassi, publicado em 2001. Com o subtítulo de "relatos de viagem", compõe-se de mini-histórias que funcionam como flashes fotográficos de dramas captados pelo olhar do narrador, a partir de suas viagens pelo Brasil, pelas Américas e pela Europa. Com a cor e o formato de um passaporte, estrutura-se como uma colagem de pequenos relatos, fracionando-se, assim, a forma tradicional das narrativas de viagem. Os microtextos, embora sejam datados, não se articulam numa seqüência temporal, não obedecem a uma cronologia linear, podendo ser lidos em qualquer ordem, tornando-se, portanto, autônomos – os mais antigos são de 1987, mas a maioria se distribui ao longo de toda a década de 90. Dispostos de maneira irregular em cada página, como se fossem os carimbos de um passaporte, os relatos são como peças que se espalham, sem que haja um centro, evitando-se as conexões entre elas: peças soltas resultantes do estilhaçamento de uma ordem narrativa que pudesse conferir uma inteireza ao livro. Desse ponto de vista, tem-se uma narrativa fraturada, "em pedaços", que já não se configura como um todo orgânico e sim, como um quebra-cabeça, como sugere a epígrafe, retirada de Trilogia suja de Havana, de Pedro Juan Gutiérrez. A geometria fracionária do texto de Bonassi, colocando em destaque a dimensão espacial, em detrimento dos nexos temporais, confere ao livro um caráter de álbum de fotografias verbais, coladas de maneira aleatória, obedecendo apenas a uma ordenação numérica arbitrária.

Um olhar irônico, mordaz, faz sobressair, em cada um dos locais por onde o narrador passa, a miséria da condição humana, através da apresentação de cenas que imprimem aos relatos de viagem uma profunda amargura, justificando, ao mesmo tempo, a estampa de uma gilete na capa do livro e o texto da contracapa que define Passaporte como "instantâneos sórdidos da pós-modernidade", "cartões postais da desilusão". Veja-se o seguinte microrrelato intitulado "Turismo Ecológico":

Os missionários chegaram e cobriram das selvagens o que lhes dava vergonha. Depois as fizeram decorar a ave-maria. Então lhes ensinaram bons modos, a manter a higiene, e lhes arranjaram empregos nos hotéis da floresta, onde se chega de uísque em punho. Haveria uma lógica humanitária exemplar no negócio, não fosse o fato de as índias começarem a deitar-se com os hóspedes. Nada faz com que mudem. Seus maridos, chapados demais, não sentem os cornos. De qualquer maneira, todos levam o seu. Só mesmo esse Deus civilizador é quem parece ter perdido outra chance. (Cuiabá - Brasil - 1995).11

Os dois primeiros períodos fazem lembrar a maneira pela qual Oswald de Andrade reconta a “descoberta” da América, mas Bonassi se refere a uma situação atual: não se trata da aventura marítima do europeu do século XVI, que embora tivesse cunho comercial, envolvia vários riscos, inclusive o do encontro com o Outro. Trata-se do turismo ecológico, que se constitui em negócio bem rendoso, explorado por empresas transnacionais, e voltado para oferecer ao viajante a diferença como espetáculo. Compra-se um pacote com o tipo de viagem que se deseja fazer, para viver, temporariamente, de maneira segura, a experiência da diferença, que se transforma numa pseudodiferença. A Terra, que, como disse Balandier, tornou-se acessível em todas as regiões, pelo menos para uma elite mundial, já não oferece espaços inexplorados, e viajar, no caso, torna-se uma experiência previsível. No entanto, entre a cena do presente, tal como descrita por Bonassi, e as vividas pelos conquistadores no passado, no que diz respeito ao espírito mercantil, a diferença não é substancial - até os personagens envolvidos são os mesmos, não faltando nem os missionários.

Um outro 'instantâneo', de número 055, intitulado, "Fronteiras", mais descritivo do que narrativo, dá conta de uma situação diversa, que é conseqüência dos limites rígidos que se impõem entre territórios, quando se trata do deslocamento dos excluídos:

Cercas reforçadas & enterradas com alicerces de concreto para baixo& além de túneis possíveis, dividindo um deserto em dois desertos. Os Estados Nacionais palpáveis como cacos de vidro. Guardas sérios, quase soldados, mais que autorizados, prestes a... Um movimento em falso e... Muit‘a’tensão. Mochilas, poder de fogo, remela & mau-hálito. Passaportes esquecidos, passaportes aquecidos, suados, naftalínicos - passados de mão em mão como coisas bentas ou boas biscas. Animais humanos de olhos arregalados, preparando botes, encoxando guichês. (Dresden/Teplice - Alemanha/República Checa - 1998).

Num parágrafo, o autor nos faz lembrar que a grande mobilidade das mercadorias, do capital e das imagens, no mundo globalizado, não se estende às pessoas, pelo menos não se estende a todos os tipos de pessoas. Para a elite cosmopolita é possível viajar escolhendo livremente o destino, segundo seus desejos. Para os emigrantes em busca de meios de subsistência nos países hegemônicos, as fronteiras tendem a ser cada vez mais intransponíveis.

Juan Indiano poderia, então, ser, hoje, aquele que tenta retornar aos centros de onde partiram seus longínquos antepassados. Nesse caso, a aventura estaria em conseguir passar pelas fronteiras de um mundo de economia globalizada, mas marcado por uma crescente segregação espacial. Os migrantes que conseguem chegar do outro lado podem, em alguns casos, relatar seus progressos materiais para os que ficaram e atrair mais e mais migrantes, que realizam a viagem em sentido contrário dos conquistadores das terras americanas, sendo guiados pelo sonho de entrar no paraíso do consumo, a cuja porta foram barrados em seus países de origem. Em caso de retorno à terra natal, Juan Indiano já não precisaria se apresentar na feira com um papagaio e um mico nos ombros, apregoando as maravilhas de um mundo mágico. A tarefa de construir o imaginário de uma terra sem males, no mundo contemporâneo, ficou a cargo da publicidade veiculada pelos meios de comunicação: foi-se o tempo dos prodígios anunciados nos pregões das feiras.

Nesse quadro, como fica a observação de Ricardo Piglia citada no início desse ensaio? O que a experiência da viagem ainda pode oferecer às narrativas? A resposta está na idéia de deslocamento que lhe é inerente. Deslocamento que não precisa ser geográfico, que pode ser traduzido como um deslizamento até outra enunciação, como uma tomada de distância em relação à própria palavra. Deslocamento como esforço para captar outras narrativas deixadas à margem pelo discurso fechado do poder ou como esforço para sair de um lugar fixo, sair do centro, para ouvir o que o outro tem a dizer. Trata-se, portanto, de um tipo de viagem que encontra seu espaço na própria literatura, constituída como um lugar em que é o outro que fala. Da mesma forma, para Ricardo Piglia, o crime que dá origem às narrativas é engendrado no próprio ato de narrar. Ou porque o escritor, como um delinqüente, apaga suas pegadas, perseguido pelo crítico, decifrador de enigmas; ou porque, num diapasão mais político, o escritor é o detetive que se propõe a desvendar as narrativas falsificadoras geradas pelo sistema de construção de histórias do poder. Assim, ainda que por um caminho tortuoso, podemos concordar com o escritor argentino e concluir que continuam a ser os crimes e as viagens que estimulam a ficção latino-americana.


[1] Dentre eles, ver a entrevista transcrita em PIGLIA, Ricardo. Ofício do escritor. São Paulo: Iluminuras, 1994, p. 73.

[2] Apud BRATOSEVICH, Nicolas. Ricardo Piglia y la cultura de la contravención. Buenos Aires: Atuel, 1997, p. 199. Cabe lembrar que, ao associar o narrador ao viajante, Piglia retoma, com objetivo diverso, a idéia de Walter Benjamin, desenvolvida no texto "O narrador".

[3] CARPENTIER, Alejo, Guerra do Tempo, Trad. Mário Pontes, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1995, p. 27-28.

[4] BORNHEIM, Gerd. "A descoberta do homem e do mundo". In: NOVAES, Adauto (Org.). A Descoberta do homem e do mundo: S.Paulo, Companhia das Letras, 1998, p.32.

[5] ROTTERDAM, Erasmo. Elogio da Loucura. S.Paulo: Martins Fontes, 1997, 2ª ed., p. 60.

[6] FOUCAULT, Michel. História da Loucura. S.Paulo: Perspectiva, 1991, 3ª ed., p.12.

[7] SAER, Juan José. El entenado. Buenos Aires: Folios Ediciones, 1983. Ver também a tradução brasileira do romance, publicada pela Iluminura, p. 41.

[8] Idem, p, 13.

[9] Idem, p. 102.

[10] BALANDIER, Georges. O contorno: poder e modernidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997, p. 234.

[11] BONASSI, Fernando. Passaporte (relatos de viagem). São Paulo: Cosac & Naif, 2001