[Polêmica] Literatura: a questão renovada por Luiz Costa Lima * Alguém já deve ter escrito: só na velhice, aquele que se dedica a uma atividade intelectual pergunta-se radicalmente sobre em que ela consiste. A restrição à atividade intelectual é fácil de se explicar. Não se imagina que, terminado seu período de atividade, um atleta se indague sobre as propriedades do jogo que o tenha tornado famoso. Ou que então um empresário de êxito, deixe de pensar em seus bens para cogitar do fundamento das trocas econômicas. Por mais que a fama de um e a riqueza do outro tivessem a ver com tais propriedades e fundamentos, tais perguntas não haviam se incorporado às suas vidas. O intelectual, ao contrário, é com freqüência forçado, não só a agir em seu campo, como a pensar nele. Mas, por que há de esperar pela velhice para que busque por suas raízes? Porque, enquanto foi jovem, tinha tarefas outras e mais imediatas. Desde logo, de acumular conhecimentos que o tornassem progressivamente mais competente e realizar pesquisas, que, no melhor dos casos, apresentassem a parcela com que ele próprio contribuiu para o saber de sua área. Além do mais, enquanto jovem, sua dedicação era dividida por outros interesses. Para nenhum pintor, poeta ou filósofo, a vida terá se resumido ao quadro que pintava, ao poema que escrevia, ao argumento que pretendia desenvolver. Escorregadelas, ora mais ora menos graves, terão sucedido. Algumas poderão ter sido mesmo decisivas e o nosso intelectual terá desaparecido de cena antes da morte biológica. É só na velhice que a dispersão de interesses poderá diminuir bastante de modo a permitir a pergunta: que é exatamente isso que sempre procurei fazer e entender?

Embora não seja aconselhável, tomar a si como exemplo, permito-me contrariar a regra. Meu primeiro livro se chamou Por que literatura. (Eliminava a interrogação, porque ela já estava indicada pelo "por que"). Não era preciso esforço para compreender-se a pergunta. Tantas eram as coisas a que poderia ter-me dedicado, por queescolhera exatamente esta? Mesmo porque assim pessoalizada, a pergunta longe estava da maturidade requerida. Pois a primeira condição da pergunta simples e radical envolve quem a faz mas nele não seconcentra. Compreendo-o melhor agora, trinta e oito anos depois. Sem que houvesse pensado no que aqui exponho, ocorreu-me, no fim do ano passado, que seria interessante, em vez de pesquisar sobre isso ou aquilo, dedicar-mea refletir sobre os núcleos mínimos com que tenho trabalhado. O mínimo do mínimo seria a literatura. Mas não emabstrato ou em separado, mas sim em relação a seus campos próximos. Para quem pensa a literatura, que área serámais próxima que a história? Esta pois seria o segundo núcleoa que me dedicaria. Isso teria um interesse geral e responderia a umademanda local. Explico-me: desde a independência dos países latino-americanos, a literatura que aqui se praticou teve como primeira preocupação distinguir-se do modelo europeu e mostrar que incorporava traços, se não a dita "essência", da nacionalidade. Como, ademais, todo o continente desconhecia qualquer tradição filosófica de peso, a tendência geral fora confundir literatura com documentalismo. A literatura se tornava uma espécie de descrição retórico-sentimental da natureza ou, mais tarde, uma sociologia para amadores. Até hoje me pergunto, sem encontrar boa resposta,como Machado escapou da praga. Mas sua via de libertação lhe fora tão exclusiva que seu caminho viria a ser percebido pormuito poucos. O resultado é até hoje continuar extremamentemajoritária a afirmação da literatura como documentalismo. Como tal, a extrema dificuldade de distingui-la da escrita da história. Essa primeira grosseria daria lugar a uma segunda: confunde-se literatura com o texto bem escrito, sem que nunca se tenha explicado, além do tacanho critério gramatical, o que torna bem escrito um texto.

Independente porém do documentalismo continental, e a conseqüentedificuldade de lidar-se com figuras como Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges, Juan Rulfo, Lezama Lima, a distinção com ahistória não é tão simples como poderíamos esperar. Para verificá-lo, iniciei minha pesquisa de velhice por um campo que nunca foi de minha especialidade: a história antigagrega. Lendo Heródoto e Tucídides e procurando me familiarizar com seus analistas, tenho verificado duas coisas: embora o legado de Homeroe dos trágicos estivesse próximo de suas investigações,ambos estavam conscientes de que faziam coisa diversa. Como dirão os romanos, a res facta, objeto da escrita da história, não se confunde com a res ficta, matéria dos escritores. Contudo ospróprios antigos, com a exceção de um Aristóteles, não se empenharam na distinção. Para potencializar os equívocos que se seguirão, o próprio termo latino, fictus, tinha um duplo sentido: sua raiz, fingere, significava usualmente algo negativo, origem do nosso fingir e, ao lado, um sentido positivo, criar. A res ficta, ou seja, a matéria do que depois seráchamado literatura, era algo ambíguo, mas suficiente para que nãofosse praticado pelo historiador. Mas o fundamento a este concedido não tornava sua tarefa menos complicada. Dedicar-se a repor em texto a resfacta não significaria expor os fatos sucedidos? Não estranha que, quando no começo do século XIX, a escrita da históriaadquire a dignidade de disciplina científica, tenha sido esta a acepção com que se distinguia o historiador. Em termos práticos, o fingir criador do poeta – no sentido amplo do termo – ressaltava suaconstrução-da-linguagem, ao passo que a reconstituição factual do historiador fazia com que deixasse em segundo plano a questão da linguagem. Coincidindo essa diferenciação com o enormeprestígio que a ciência teria no século XIX e na primeirametade do XX, não parece estranho que a res ficta não provocasse então maior interesse teórico. Ao contrário, a tendência foi procurar dar conta dela através da extensão de algum modo de tratamento "científico". Daí o prestígiodas histórias literárias e, mais recentemente, das abordagens sociológicas. Contra os que se indispunham, passar-se-ia mesmo a contar com um qualificativo de desdém: são os formalistas. (Não por acaso a expressão se pôs em voga durante o período stalinista, dirigindo-se contra os então jovens que se opunham ao tratamento histórico ou histórico-sociológico tradicional). Quanto à história, a ciência social dominante no século XIX, seu modelo "científico" levou mais tempo para ser questionado. É sintomático que a aceitação do chamado positivismo em história tenha vindo a ser violentamente questionado por dois livros publicados quase ao mesmo tempo, o Commenton écrit l'histoire (1971), de Paul Veyne e o Metahistory (1973), de Hayden White. Sua repercussão mostraria que, nos anos de 1970,o problema estava maduro e já não era possível descartá-lo como se fizera no início do século com o Thucydides mythistoricus (1907), do inglês Francis M. Cornford.

Não cogito de dar conteúdo a estes livros contestadores. Assinalo apenas que tanto em Veyne quanto em White, como já em Cornford, se contestavam a objetividade científica da história e sua independência do tratamento da linguagem. Acrescento aindaque, diante do problema, a solução fácil é a menos adequada. Ela consistiria em, voltando aos antigos, fazer desaparecera diferença inicial entre res facta e res ficta e dizer que tudoé a mesma coisa. Não, não é. A questão consiste em mostrar que, da ambigüidade de sentidos do fingere latino,deriva um princípio próprio, a ficcionalidade. A maneira indireta e mais apropriada de entendê-la consiste em pensarmos na famosa afirmação de Coleridge: (a ficção) exige a willful suspension of disbelief ("a supensão proposital da descrença"). É por essa suspensão que não lemos um romance como um ensaio de história e vice-versa. Mas nos iludiríamos se pensássemos que, enfim, a questão está resolvida. O historiador argumenta, o ficcionista fabula. Mas a argumentação lida com ficções então naturalizadas e a fabulação é concebida a partirda realidade. Há um entrecruzamento entre as duas áreas que não dá lugar a formulações distintivas absolutas. Sempre pois se há de contar com a sensibilidade do analista.

A aproximação da pergunta radical sobre as proximidades e diferenças entre história e ficção foi aqui apenas esboçada. Ainda não era preciso haver chegado à velhice para traçá-la. Mas, ainda que tão-só esboçada, supõe-se que ela tenha alguma utilidade.

* Luiz Costa Lima é professor titular de literaturacomparada da UERJ e da PUC-RJ. Autor de 17 livros de ensaios, publicadosem 2003. O redemoinho do horror. As margens do Ocidente. (R.J. Planeta)