[Polêmica] Literatura. Vale a pena? por Ronaldo Lima Lins Écrire n'est, peut-être,
qu'acclimatement; graduelle
accoutumance à la nuit du mot.

Ne perds pas de vue l'origine. Tu ne
peut t'en rapprocher que par origines interposées.

Jabès , Edmond. Le livre du partage1.

Enquanto a arte se transformava, no século XX, em valor de mercado, embora o desprezasse, ocupada com a forma e com indagações sobre a vida, saber o que representava constituiu um foco de reflexão. Estávamos diante de processos de afirmação do sistema histórico, algo que em geral se faz acompanhar de sofrimento – nada de novo desde que os comparemos aos períodos de miséria da Idade Média e do Renascimento, quando as disputas, para não mencionar o clima, congelavam a Europa. A urgência dos debates e as agruras da política exigiram posições. Como conseqüência, territórios voltados para o culto à beleza passaram a experimentar angústias que se traduziriam na vontade de agir.

Graças a tais fenômenos, os intelectuais elevaram-se de servos (ou domésticos) a orientadores. Um jovem como Rimbaud escandalizava. Um homem como Sartre sacudia as bases do governo. Antepunha-se como uma barreira difícil de transpor diante de opções que, a seu ver, feriam a dignidade. Isso começara durante a fase de ocupação na França. Sem condições de combater no front, junto aos soldados, pensou: “Tenho de transformar meus livros numa arma”. Dava assim resposta a um trabalho antes especulativo do que prático, uma resposta que, de fato, condizia com expectativas da época e de suas dificuldades.

O que alterou a consciência nessa esfera, ao lado de uma dissolução dos costumes, foi, já se sabe, o mercado. Adorno havia detectado o problema.

As seduções econômicas, mescladas a uma ideologia da liberdade, agiriam, talvez mais do que previa, no sentido de inovar os postulados de uma atividade que sempre se mostrara imbatível porque fruto da constância, do vagar e da intimidade da ocupação artesanal. Exija-se pressa a um romancista e ele perderá qualidade. Movimentos mecânicos não se prestam aos modelos de elaboração e de invenção de personagens. Em algum momento e em algum lugar temos de interromper o fluxo da fabricação e do consumo de supérfluos se desejarmos arranhar sentidos a ponto de nos identificarmos com eles. Clássicos da literatura impuseram rígidas condições aos seus autores, transformando-os em gênios pelo isolamento a que se submeteram, como se, para enxergar, tivéssemos de recuar. A repercussão que obtiveram compensou a trajetória.

Colocando o tema em termos semelhantes, damos a impressão de elaborar em torno do passado como se estivéssemos numa postura anacrônica, tecendo comentários sobre um tempo e um comportamento que não nos atinge, a não ser pelo exotismo, como se fôssemos cientistas debruçados sobre as irreverências de outrora.

Tem a ver conosco a indagação: o que é literatura?

Soa atual, solucionada ou respondida?

O alargamento do designativo, com a introdução de elementos que a opinião não aceitava, consagrou definições que inflacionaram as razões da escrita. Quando, com o argumento da democracia, a idéia de criação se exonera da aura, para relembrar Benjamin, aliena-se em conteúdo e a forma se ressente. Um slogan, entendido como original, alça-se à categoria de descoberta, quase um poema, quando não passa de esperteza e não sonhava transcender aos seus limites. A vulgarização de toda ocupação humana, como se qualquer um fosse capaz de qualquer coisa, desmitifica a noção de obra na mesma medida em que iguala o crime e a redenção. Ninguém escapa à própria ferocidade, habituamo-nos a imaginar. O colonizador e o colonizado, o opressor e o oprimido, identificando-se, neutralizam-se por meio de concepções que visam tornar a realidade palatável. Como julgar então aquilo que condenamos? O labirinto no qual nos colocamos construiu, com a riqueza da época, as portas e janelas, fechadas, com que assinala, em cada passagem, atualizando-os, os impasses não resolvidos. É feito de abundância – e não de escassez – o material das nossas incertezas. Nada disso modificou para a prosa literária o conceito de sentido enunciado por Sartre quando escreveu sobre o assunto. O autor de O que é literatura? é tributário de concepções nas quais o papel da escrita se delineava a partir de expectativas. Adorno partilhava de preocupações no que se refere à tarefa e à necessidade de resistir dentro de um sistema, como nenhum outro, a um só tempo sedutor e tentacular. As reviravoltas que se sucederam dão a impressão de haver transformado em problemas de criança os desafios que ambos enfrentaram. As leis de mercado, transformando o espaço da autenticidade numa brincadeira ou num jogo de intelectuais, como se não tivesse validade, já que não proporciona lucro, desconcertam e confundem. Nós precisamos, como em qualquer tempo, distinguir o que nos convém e o que não nos convém. O difícil é estabelecer a hipótese da conveniência. O volume do que se produz em termos de livros, como se trouxesse recursos para um bom trabalho, ofusca a exigência de qualidade; as fontes que deveriam garanti-la diminuem em vez de aumentar no escaninho social do que antes chamávamos, usando a palavra com economia, de literatura. O bom e o mau se misturam. Salva-se o resíduo de um gosto com o qual tentamos endireitar o barco à deriva da viagem sem mapa onde nos atiramos. A ambigüidade orienta mal os movimentos ou a ausência de movimentos com que os escritores, dispostos a insistir, vivem, no meio dos ecos do sucesso, os ingredientes de uma solidão aumentada pelo constrangimento de marchar em contracorrente. Mas que não se pense que a criatividade diminuiu, sufocada pela desorientação ou pelo hipnotismo do excesso de luminosidade que nos cerca. A realidade cada vez mais complexa é que, como um animal anfíbio habituado a alimentações diferentes, respira ar puro e oxigênio contaminado. Não se abala com as fórmulas decifradas em laboratórios tão cuidadosos e eficazes quanto inúteis nos diagnósticos. Responsabilizar os artistas pela falta de perspectivas ou pelas invenções que desenvolvem soa inconsistente. São as aspas de “soluções” sem resultados que empanturram os estômagos de nosso tempo com receitas indigestas.

Os sete fôlegos da criatividade não se esgotaram. Mostram-se agudos na atividade de reverter situações e manter acesa a chama das possibilidades. Não atravessamos um deserto. A genialidade não se manifesta, como na fase do modernismo, rasgando-se com revolta a constituição da forma. Há uma anuência que se contradiz na manifestação do sim. Um modo de reconhecer a inviabilidade da contestação conserva uma força de reserva convencida das suas fragilidades. Saber que não se pode mudar o mundo não significa desejá-lo como está.

O que, então, literatura?

A pergunta implica em discutir, no meio daquilo que nos cerca, a relevância do sucesso. Claro que este, desde o século XIX, representa um problema. George Sand, capaz de escrever um romance de seiscentas páginas em um mês e obter retorno financeiro, não ignorava que produzia uma coisa menor. A grande autora, a personalidade que chocava com os amantes famosos de sua vida destemperada, transformou-se com os anos num elenco de títulos sem atrativos. Junto a Flaubert, não se sustenta. Tem destreza em construir enredos em que as peripécias dos amores desembocam em final feliz. Ela mesma dizia que o amigo este sim ficaria, compondo romances com a lentidão dos míopes, na obsessão pelo estilo. Daí por diante, o número de exemplos cresceu. Nada se deu aí de modo pensado. Há como afirmar que, na sociedade dividida entre esquerda e direita, capitalismo e socialismo, realidade e utopia, a dilaceração estaria presente. E havia a intuição de que os projetos, efetuando-se, gerariam a unidade perdida. Isso não aconteceu. No quadro de perversões (políticas, policiais, polivalentes), estampadas aos olhos de cada um, o desejo de sucesso não confirma a fórmula da literatura apaziguada. Sugere uma fantasia querendo se fazer realidade, mas não a realidade. Não se trata de rejeitar o modelo Flaubert atrás de outros, mais adequados a nossas circunstâncias. Um escritor que se descobre na atitude de reserva (inclusive ao sucesso) aumenta as expectativas da humanidade. Gente assim não precisa de editores. Os editores é que precisam deles. Perseguem por seu intermédio a aura de que falávamos para emprestá-la a uma indústria que de outro modo se mostraria vazia. Ler não significa apenas um prazer. É tudo menos passiva enquanto ocupação a atividade da leitura. Representa trabalho: o instante em que nos entregamos a uma ocupação certos de que algo nos aguarda. Leitura e livro interagem, como salienta Sartre. Antes de constituir outra coisa, é busca. Se conservássemos uma postura de ingenuidade quanto a isso, nada saberíamos dos métodos de abordagem e passaríamos ao largo de importantes segredos da civilização.

Uma análise de conjuntura situaria na classe dominante, no atual sistema, as razões do desprezo pela solidez no capítulo da produção de livros. É dela o interesse pela instalação de uma sociedade de massa e seus postulados de simplicidade e entendimento. Diferencia-se de suas antecessoras no século XIX e em boa parte do século XX. Estas atribuíam relevo, senão no comportamento, no convívio, ao gosto pelo refinamento e pela tradição literária. Copiavam os aristocratas do antigo regime. Nós estamos numa experiência de dissolução do eu, sob o influxo de uma prática voltada para os sucessos de curta duração. O futuro dura muito tempo, o ditado francês, transformou-se numa expressão de caráter universal. É uma lógica que privilegia o fácil e o imediato. Provém daí a aversão às fórmulas do modernismo, vistas como duras, excessivas ou sem rentabilidade entre os agentes do comércio. O volume de recursos voltados para a distração aumentou na mesma medida em que se ergueu uma parede em contraponto a considerações sobre a memória do que um dia chamamos de fraternidade. O argumento da pobreza e a necessidade de dinamizar a economia justificam a corrida ao dinheiro, como se a circulação de mercadorias em ritmo acelerado sustentasse os desvalidos. Já vivemos o bastante para não ignorar que se trata de uma falácia. A aceleração, nesse patamar, é perversa e destrói o meio ambiente, sem oferecer saída para reivindicações sociais. Trata-se de um debate que ultrapassa os limites da economia. A literatura, embora cada vez menos chamada a opinar, neutraliza, com as suas narrativas, o princípio da empreitada. Perdidos, sufocados, angustiados, infelizes, os personagens da nossa narrativa ficcional vivem os conflitos de um impasse que nesse instante têm mais a ver com o passado do que com o futuro. Inutilmente, pensamos em resolver os nossos dilemas apagando o que se fizera em nome da esperança. O amanhã mobilizava energias e calava dúvidas. A mudança de contexto atingiu o postulado da totalidade e pegou a noção de unidade pelo calcanhar, despida de defesas, apesar das advertências do existencialismo. Caberia, quem sabe, retornar a ela. Na pressa, havíamos perdido a calma para avaliar o que ficara para trás, os insucessos que se escondiam no sucesso na construção da modernidade. Tudo isso teria de reclamar a oportunidade de se fazer voz.

A palavra, como assinala Jabès, tem dias e noites, luz e trevas, vozes e silêncios. Sem silêncios e noites, mesmo na pós-modernidade brilhante e encantadora, não se produz literatura.

1. Jabès, Edmond. Le livre du partage. Paris: Gallimard, 1991. "Escrever é, talvez, apenas aclimatação; costume adquirido gradualmente à noite da palavra. / Não perca de vista a origem. Você só pode se aproximar através de origens interpostas". (Versão nossa)