[Resenha]A vitória da literaturapor Beatriz Resende
Bernardo Carvalho encerrou 2003 com seu Nove noites recebendo o expressivo prêmio literário Portugal Telecom e, mais do isso, sendo reconhecido pelos críticos como o grande romance do ano anterior. 2004 apenas se inicia e Bernardo já pode ir sacudindo a timidez para receber, em março, o prêmio de melhor romance de 2003, atribuído pela Associação Paulista de Críticos de Arte, a seu livro seguinte: Mongólia .
A origem do livro está na bolsa que a Fundação Oriente e a editora portuguesa Cotovia concederam ao escritor, enviando-o em viagem ao país escolhido, a Mongólia. A idéia da Fundação não é nada má, especialmente quando lembramos que foram viagens à África e à Ásia que renderam aos portugueses a obra fundadora que consolidou, no século XVI, quando Lisboa era “cais do mundo”, não apenas sua literatura, mas a própria língua portuguesa, Os Lusíadas , do genial marinheiro Luís de Camões.
Diante de tanto sucesso, este último romance chega às mãos do leitor cercado de alguma suspeição. Será possível a um escritor ainda jovem, em seus quarenta e poucos anos, manter a mesma qualidade, com uma produção tão intensa? E poderia este livro, de algum modo encomendado, ainda que apresentando na capa o subtítulo “romance”, ser mais do que um relato de viagem? Pois foram justamente estes dois desafios enfrentados pelo autor que acabaram se tornando responsáveis pelo êxito absoluto do resultado final.
A longa elaboração da estrutura narrativa, que começa a ser idealizada antes da viagem, a redação de diários durante a travessia de desertos e cidades e, finalmente, a montagem do romance, segundo depoimento do autor, o que mais reescreveu, dão à labiríntica construção, marca do escritor, como que uma precisão cirúrgica que se une a minuciosos cuidados artesanais de bordadeira experiente.
O autor coloca diante do leitor ficção e realidade, imaginação e documentalismo e promove um combate acirrado, violento, quase mortal. Já em Nove noites uma enigmática superposição do que seria realidade, experiência pessoal do escritor ou relatos imaginários era sugerida. Em Mongólia , porém, não estamos mais no campo da suposição. A viagem foi realizada, a intrigante história do país é contada, seus costumes discutidos, sua cultura avaliada. Mais ainda, a áurea mítica que cerca os mongóis e o budismo é desfeita. Neste sentido, o titulo que afirma ter-lhe vindo à mente num primeiro momento, O Anti-Buda , se justificaria plenamente. A igreja budista, na Mongólia, pode ser tão autoritária ou repressiva quanto qualquer outra, o que acrescenta ao romance mais um mérito, o de poder funcionar como uma espécie de providencial antídoto a narrativas consoladoras de auto-ajuda que se utilizam com grande freqüência e pouca seriedade de pensamentos atribuídos a orientais despreocupados de coisas materiais como a sobrevivência ou a justiça neste mundo. Surgem diante dos olhos do leitor cidades como Ulaanbaatar e seus caixotes de concreto construídos pelos soviéticos e ficamos sabendo que existe lá uma verdadeira indústria cinematográfica, ou khovd, percebida por sentidos ocidentalizados como tristíssima e poeirenta, com cheiro de banha cozida . A Mongólia foi o segundo país comunista do mundo, teve um dos mais sanguinários ditadores, e viu o número de monges budistas reduzidos de 100 000, em 1924 a, após vários expurgos, apenas 140 em 1990, e tornou o medo e a desconfiança sentimentos cotidianos.
No combate que se desdobra pela narrativa, a arma da ficção é o discurso, a da realidade, o estranhamento. A luta entre adversários poderosos é instigada pelo autor que, de um lado, fornece suprimentos à curiosidade do leitor interessado no relato de viagem através de cultura tão diversa e geografia peculiar. De outro, porém, cria um enredo tão simples quando emocionante. Ao final, o que garante a vitória da ficção, é a própria construção discursiva desenvolvidas em manobras do escritor hábil e competente. E é, sobretudo, nesta afirmação dos poderes do ficcional que a importância deste livro original e instigante. A ficção, no entanto, ganhadora generosa, incorpora à narrativa os méritos do adversário nesta história passada, na maior parte, entre nômades misteriosos e fascinantes. É a reunião de propostas aparentemente antagõnicas que produz momentos extraordinários, quando o discurso ficcional doma a narrativa documental e é, ao mesmo tempo, por ela moldado. Assim como a repetição é condição fundamental para a sobrevivência dos nômades: “aqui tudo é repetição. A repetição é a condição de sobrevivência. É essa também a cultura dos nômades”- diz uma das vozes narradoras- é também recurso narrativo. A repetição constrói os trajetos que retomam percursos já feitos, repetem ações já praticadas e anotações já registradas. A narrativa coleia em idas e vindas, movendo-se, por vezes em círculos, como os nômades em suas viagens de iurta em iurta, todas iguais.
Mongólia é, sim, um romance, mas é também, o relato do confronto, feito de fascínio e perplexidade de um homem do ocidente em viagem ao oriente. Afinal, Edward Said já nos mostrou que o orientalismo “não é uma fantasia avoada da Europa sobre o Oriente mas um corpo criado de teorias e práticas em que houve, por muitas gerações, um considerável investimento material”. É este mesmo crítico quem nos diz que a sociedade e a cultura literária só podem ser entendidas e estudadas juntas.
Há, pois, uma fricção produtiva causada pelos múltiplos confrontos que atravessam esta narrativa construída a três vozes, onde o país do Oriente aparece ora como exílio indesejado, ora como abrigo buscado. Como no canto sétimo dos Lusíadas, cheio de oposições, ou em Joseph Conrad, que narra no romance Lord Jim: “Tinham tomado horror às linhas da metrópole, com suas condições mais duras, seu serviço mais estrito e os azares dos oceanos furiosos. Estavam acomodados à paz eterna dos céus e dos mares do Oriente” e faz em seus diário e cartas, com bem mostra Luiz Costa Lima, anotações opostas. Em carta citada no decisivo estudo sobre Conrad desenvolvido pelo ensaísta em O Redemunho do Horror. As margens do Ocidente (Planeta, 2003), o romancista escreve a propósito de uma de suas viagens: “Tudo aqui me é antipático. Os homens e as coisas; mas sobretudo os homens. E eu também lhes sou antipático”.
O plot de Mongólia é simples: um diplomata aposentado lê um dia a notícia da morte de um colega, a ele subordinado quando esteve a serviço em Pequim. O colega, que se espantara várias vezes com a violência mal dissimulada que percebia nas cidades orientais, fora assassinado ao pagar o resgate cobrado por seqüestradores de seu filho em um morro do Rio. Quando serviram juntos, autoridades brasileiras solicitaram aos serviços consulares que investigassem o desaparecimento de um jovem fotógrafo, filho de um poderoso, que desaparecera durante viagem à Mongólia. O diplomata, já em final de carreira, atribui ao vice-cônsul a tarefa de ir ao encalço do desaparecido. Algo, porém, perturba o subordinado quando conhece a identidade do jovem e o faz tentar recusar a tarefa. Os protestos são inúteis e a tarefa fora mantida. Comovido, o antigo funcionário do Itamaraty recupera pastas deixadas pelo colega, contendo o diário de sua viagem em cumprimento da missão. Junto estão dois diários que fotógrafo tinha deixado com o guia mongol; um completo e outro pela metade. Debruçado sobre estes escritos, o solitário diplomata vai compor um romance que, por toda vida, almejara escrever.
Não podemos deixa de lembrar aqui o último romance de Machado de Assis, Memorial de Aires, onde o escritor coloca igualmente o ficional em debate ao assumir, na escrita de Aires, a forma de um diário. No Memorial, a narrativa é composta pelos fatos registrados de acordo com o tempo e a relação causal arbitrados pela vontade ou disposição do diplomata aposentado que assume no livro a função autor contrariando, muitas vezes, as regras ainda então vigentes dos romances do século XIX.
Os diários – o do Ocidental, como o diplomata assassinado era chamado- e os do rapaz desaparecido – o desajustado, buruu nomtom, como era designado pelos mongóis - se entrelaçam, apresentam versões opostas da realidade e, por vezes, se repetem. “Parece que eu estava ouvindo a mesma pessoa. De alguma forma o desaparecido e o Ocidental tinham uma afinidade sinistra em suas idéias etnocêntricas”. Quem era o fotógrafo, que fim levou e as razões do espanto do ocidental sóé sabido ao final do romance, depois das nove noites que o diplomata dedica à narrativa- “ Foi a primeira vez em nove dias que pus os pés fora de casa”- e conclui: “A literatura quem faz são os outros”.
Ao leitor caberá, também, preencher os mistérios deixados pelo caminho, optar pelas significações que permaneceram ambíguas, como os motivos que prendiam o desajustado à Mongólia ou o significado da misógina e assustadora imagem Narkhajid, entidade representada por uma mulher vermelha e nua, com o sexo exposto, empunhando um crânio humano cheio de sangue. E mais, se a Mongólia, com sua dolorosa história de domínios, invasões, expurgos e perseguições é sedutora, em suas montanhas cobertas de neve mesmo durante o verão, suas grandes distâncias livres convidando ao movimento, ou é assustadora com a violência prestes a explodir; se os mongóis são ingênuos e acolhedores ou dissimulados e intimidadores.
São buscas e desencontros, preconceitos derrubados e idealizações desfeitas. O caminhos nunca levam ao destino previsto e o encontro só será possível de desistirmos da busca.
Afinal, “as estradas da Mongólia na realidade são pistas que o motorista tem que decifrar entre dezenas de outras, são marcas de pneus em campos de pedras, desertos, estepes” e o “bom motorista é aquele que sabe achar sua pista o deserto. A boa pista”.
Na realidade, mas não só nela.
1. Texto publicado de forma ligeiramente reduzida no Caderno Idéias do Jornal do Brasil de 24/01/2004. 2. Beatriz Resende é professora da Escola de Teatro da UNIRIO, pesquisadora da PACC/UFRJ e do CNPq.
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