[Resenha]Palavra, pensamento e imagem em Armando Freitas FilhoMáquina de escrever, reunião da obra do poeta Armando Freitas Filho a que se junta o novo livro, Numeral/Nominal, é apresentada por Vera Lins.
Junto com a obra reunida, Máquina de escrever, o poeta lança um novo livro Numeral/Nominal, que se divide em dois e parece indicar dois percursos um pouco diferentes. A relação com as artes visuais, que já o tornou companheiro em livros do pintor Rubem Gerchman e da gravadora Ana Letycia é uma constante na sua obra, que se vê aqui especialmente em Nominal. Mas, por isso mesmo, o primeiro, Numeral, em que não há referências explícitas às artes plásticas, me lembrou as telas de um pintor polonês, Roman Opalka (1931-1935) que se vêem em todos os museus de arte contemporânea europeus. São uma série de quadros em que o artista numera em cinza ao infinito, numa reflexão sobre o tempo e a morte. Opalka diz que, para apreender o tempo, deve-se tomar a morte como real dimensão da vida. “A existência do ser não é plenitude, mas um estado onde falta qualquer coisa: o ser é definido pela morte que lhe falta”.
Em Numeral a linguagem se defronta com a morte numa impossibilidade que a ancora cada vez mais num corpo que grita e olha. Escrever e pensar é estar em perigo, atos extremos. Agamben, em Le langage et la mort,[1] mostra a relação do pensamento com a angústia, a forma “stare in pensiero” significa estar em suspenso. Esse jogo da palavra pensar com sofrimento e dificuldade está nos versos de Armando do poema que abre o novo livro: “penso: dependurado – curativo”. A tradução livre de angst para “dor de gancho” fala disso. Aqui é um pensamento que caminha com coração e suor, se anota no corpo ou qualquer pedaço de papel. Mas caminha em marcha–ré, ao contrário, ao revés. É um pensamento que se une ao grito, buscando algo atrás dele, um imaginário radical, magma de onde tudo provém:
Pulso monossilábico embora
Ao fundo por trás do pensamento
– cantante - o mar aberto, imerso em mim.
Busca-se escrever desse lugar onde pensamento e corpo se encontram, mas antes do já feito, no lugar da respiração. A idéia de infinito dá o alcance desse pensamento que se volta para a natureza, um texto a ser lido : “No meio , porém, o mar não pára/ tendo como pé direito, o céu”. Busca-se uma escrita cósmica, “roçar o rosto dos astros”, mirando as constelações de Mallarmé.
Essa marcha ao revés, lembra o caminho de Wallace Stevens com o verso “a palmeira no final da mente” no poema “Meramente ser”[2]. E o que Merleau-Ponty[3] identifica ao pensamento do pintor. Aqui o corpo é todo linguagem. Escreve-se como o pintor, que, para Merleau-Ponty pinta com o corpo, que é um trançado de visão e movimento. A origem de qualquer saber está no encontro do corpo com o mundo. O pintor pensa com o corpo, há um pensamento da visão, uma ruminação do mundo sem outra técnica do que a criada pelos seus olhos e sua mão Ao contrário do que afirmam o pensamento cartesiano e a ciência moderna, qualidade, luz, cor, profundidade estão ali perante nós, só lá estão porque despertam um eco no nosso corpo, porque ele as acolhe.
Esse corpo, do poeta, acolhe uma natureza que é mar, montanha luz e horizonte, no sentido de abertura ao infinito, mas também um céu cruel “sob o cerco de céu e cruel” que lembra o “céu sem hinos” de Wallace Stevens (“O homem do violão azul”) ou o céu pesado como tampa de um dos poemas “Spleen” de Baudelaire.
Na segunda parte, Nominal, esse corpo se move pelo mundo que para Merleau-Ponty é feito do mesmo estofo do corpo. O pintor é trespassado pelo universo e sua interrogação é a daquele que não sabe a uma visão que sabe tudo, que nós não fazemos, que se faz em nós, lembrando o que diz Rimbaud na “Carta do Vidente”: “algo se pensa em mim”.
Este pensar com o corpo reúne o sensível e o intelectual. Lembra o que os românticos alemães chamavam de intuição intelectual. Para eles o que se denomina criação poética se dá pela imaginação produtora numa instância pré-conceitual ou pré-objetiva com as idéias estéticas, que não se deixam apreender em conceitos, mas reúnem poesia e pensamento. O conceito de intuição intelectual reconcilia o sensível e o intelectual pela imaginação. Novalis diz num fragmento: ’Na intuiçâo intelectual está a chave da vida’[4]. Uma reconciliação que aparece no verso de Pessoa, “o que em mim sente está pensando”, que reúne a intuição e a consciência dela. Essa tentativa de se captar em ação aparece aqui em vários poemas. Como nesse último em terceira pessoa, o número trinta e um:
Escrevia a um palmo de si
Às vezes nem isso. Às vezes
por dentro, sem se separar
da sua sombra, sequer do suor
do corpo. Mesmo estando na máquina
Em Nominal o mundo que atravessa o poeta é o da busca pelo computador, pelo programa da internet, em que os objetos de Duchamp se encontram com os da loja de móveis. Escrever se torna ler, juntando citações, Mallarmé, Torquato Neto, e inúmeros outros com os acontecimentos recentes, a queda das torres, o futebol, Marilyn Monroe. O poeta se torna pop como Andy Wahrol. Mas a escrita, o tempo e o corpo continuam entrelaçados .
O que tem de sofrimento, dificuldade e obstáculo no pensamento e na linguagem traz enigmas, construídos pela sintaxe, as aliterações e a polissemia de suas palavras, longe do verso claro (“da linha feliz ou de lágrimas”). Para Agamben, a experiência poética e a experiência filosófica repousam sobre uma experiência negativa comum do deslugar da linguagem, indizìvel e inapreensível. A palavra é não dita no que se diz, um fundamento informulável é dado na poesia no elemento métrico-musical, lugar de uma memória e uma repetição. A tentativa aqui é de chegar a esse lugar informulável que passa pelo corpo de quem escreve e da escrita. Busca-se algo que existe, mas se recusa à significação. Pode-se lembrar mais um fragmento de Novalis: “Muitas coisas são delicadas demais para serem pensadas, várias ainda para serem pronunciadas”[5].
Por isso o pensamento como pendere, estar em suspenso, tormento, e a escrita como produção artesanal, em que espírito, olho e mão se conectam.
Num momento em que assistimos a uma redução do alcance do pensável, pela reiteração mediática do conhecido, reproduzido em novas embalagens que disfarçam a mesma mercadoria, aqui se tenta alargar o pensamento num corpo que transita entre o conhecido e o desconhecido, com esforço – suor e raiva.
[1] Agamben, Giorgio. Le langage et la mort Paris: Christian Bourgois Editeur, 1991.
[2] Wallace Stevens. Poemas. Trad. Paulo Henriques Brito. Sâo Paulo: Companhia das Letras, 1987 [3] Merelau-Ponty . O olho e o espírito. Lisboa: Passagens, 2002 [4] Novalis. Pólen. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo:Iluminuras, 1988.p. 157. [5] Id.Ibid. p. 51.
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