[Resenha]Caetano Veloso - Notas sobre ética, estética, política e educaçãopor Francisco Bosco
“A forma custa caro” - dizia Valéry. A idéia não tem preço: a idéia é a pré-condição da forma, e é imponderável. A forma é uma questão de tempo, trabalho. A idéia é o que se espera; a forma, o que se busca. Impressiona, em Caetano, a capacidade inesgotável de gerar idéias. Canções onde caiba uma idéia; a fala, por onde passam várias; um filme, para abrigar a multidão. Outro dia ouvi alguém dizer - não me lembro quem - que achava pretensiosas as pessoas que diziam ter “idéias”. Para ele, tinha-se uma única idéia na vida - e olhe lá. Mas não: pretensioso é quem pensa ter tido uma idéia. Caetano as tem o tempo todo.
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Velha e impertinente questão: “a letra de música resiste no papel, desamparada da música?”. Impertinente, porque a letra de música deve ser pensada na totalidade da estrutura de sentido a que pertence - a canção - e é assim, de resto, que ela costuma se apresentar publicamente. Mas as letras de Caetano, se propostas publicamente na condição de texto impresso, sem música, revelam uma força muito própria. Deformadas - pois a forma se projeta na totalidade da canção, de que a letra é apenas parte -, elas brilham de um outro valor que não o da forma: uma força ética. Por sua força ética, as letras de Caetano acabam por constituir um desafio à poesia brasileira: o que, em poesia, está à sua altura?
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Força ética: não apenas figurar a vida, mas afirmar um conjunto de valores. Ética: valor. Para Caetano, destaco: a experimentação existencial, a liberdade, a pluralidade, a miscigenação.
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E recusar o álibi - sempre. Não ceder à sua tentação: a de transferir - ao país, ao mundo, ao outro - a responsabilidade por um fracasso, uma incapacidade qualquer. Pensar e agir, crítica e afirmativamente. Recusar, acolher - mas sobretudo propor. Sempre pedir licença, nunca deixar de entrar.
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Querer, querer. A vontade - e o desejo.
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A obra de Caetano: sua força ética manifestada esteticamente.
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A obra de Caetano é o lugar, por excelência, onde a canção brasileira se pensa. Pensar a música popular brasileira, pensar a cultura brasileira, pensar o Brasil foi um traço que marcou sua geração de compositores, mas em nenhum outro projeto estético da música popular encontra-se a canção brasileira se pensando como em Caetano, onde o intertexto, a paródia, as citações são apenas algumas das manifestações mais explícitas dessa canção que pensa a canção brasileira, e cujas manifestações mais sutis podem-se observar a cada gesto, a cada interpretação, a cada escolha de repertório.
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Caetano educador: ele disse, em entrevistas, que, se fosse para escolher outra profissão, ele seria: professor.
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Barroco: como a Bahia de Vieira e Gregório, de Glauber, Waly, Ubaldo. Barroco - o que quer se expandir. Seu barroco: a fala excessiva, inestancável, a canção que quer exceder-se no mundo, de dentro para fora, e que se excede em si, de dentro para dentro, incontida: os versos que parecem não caber na frase melódica, as idéias que parecem não caber no canto, a prosa que parece não caber na poesia. Mas - o veneno e o antídoto: o senso de medida, a concisão, a economia: a Bahia de João.
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Uma utopia tropicalista: a pluralidade cultural. Inventar um público, uma sociedade que soubesse fruir, desimpedida, das manifestações artísticas e culturais mais diversas que ela mesma produz: do iê-iê-iê ao samba, do bolero ao baião. Caetano realiza a pluralidade em sua existência individual, mas a realização coletiva permanece distante: o regime do “ou” impera na definição social das identidades. A cultura é heterogênea - manifestações diversas ocupam ao mesmo tempo a cena - mas os indivíduos o são menos: grupos, “tribos”, baixo grau de abertura e experimentação. Caetano lança mão de argumentos artísticos (como em sua defesa de Sandy, cantora, segundo ele, de afinação comparável a uma Elis Regina) e sócio-históricos (como no caso dos que abominam a “axé music”, processo em que ele enxerga uma espécie de recalque histórico que remonta à escravidão) para afirmar o valor de determinadas manifestações culturais. Entretanto, o “passe-livre” da pluralidade pode simplesmente evocar uma variada tipologia semiológica: há signos para se refletir, há signos para se distrair; há canções para dançar, outras para ouvir; há filmes para lembrar, novelas para esquecer. Por que, afinal, a monocultura semiológica? Certamente, a cultura de massas privilegia os signos distrativos, o regime generalizado do fait-divers, mas não se deve jogar fora o bebê junto da água suja: nem sempre quero ser denso, nem sempre quero ser raso, nem sempre o sério, nem sempre o engraçado, nem sempre o afeto, nem sempre a razão, nem sempre a crítica, nem sempre a distração.
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Citar, mas geralmente não para, através da autoridade da palavra alheia, reforçar o sentido das suas próprias palavras; tampouco para esclarecer, determinar o sentido do citado acomodando-o em um contexto determinado: citar, como estratégia de choque, pororoca - polifonia tensiva.
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(Ouço, acidentalmente, na casa de um amigo, uma canção que adoro: “It’s a long way”, do disco Transa. Penso no Poema Sujo, de que ela parece uma versão miniaturizada - o estar no exílio, a reconstrução evocativa do lugar amado -, e lembro de uma declaração deliciosa de Caetano sobre sua experiência de escrever letras em inglês: “(...) é uma loucura escrever letra de música da língua dos outros. A gente nunca sabe se está dizendo o que está dizendo. (...) Mas acontece que, além de irresponsável, eu sou muito curioso. De modo que não me é difícil escrever essas letras de música em inglês: o que me enlouquece é a curiosidade de saber o que elas dizem”.)
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Para recorrer a um paradigma “clássico” da estética - apolíneo / dionisíaco -, o paradigma “clássico” que lhe é correlato na música popular brasileira: Chico Buarque / Caetano Veloso. Chico é um arquiteto da canção: suas letras são “redondas”, sua sintaxe não deixa arestas, as rimas, virtuosas, estão sempre no lugar - nada sobra. Chico está do lado da escrita - mesmo quando para se produzir um efeito de fala -, do tempo da escrita, do trabalho - para se produzir um efeito de facilidade -, da rasura que se depura em perfeição. Caetano, como aquele outro, americano, “has given up all attempts at perfection”. Caetano está do lado da fala: é sujo, inacabado, excessivo, cheio de pontas, estilhaços - as coisas sobram ou faltam (há exceções, é claro; que se pense, por exemplo, na perfeição, na extremada escrita de uma letra como a de “O Quereres”). É fragmentado, mistura indistintamente suas palavras às de outros, cita, cola, parodia, é às vezes obscuro, opaco. Para mim, na canção brasileira, quem mais se aproxima dele, em muitos sentidos, e sobretudo na grandeza ética-estética, é: Cazuza.
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Há pelo menos duas possibilidades de uma letra de música ser excelente: 1) quando ela serve à música, potencializa a música e é por ela potencializada, mas não a ultrapassa, não chega a ter uma espécie de existência para além da música; 2) quando a letra, sem nunca deixar de servir à música - pois a letra é parte de uma totalidade de sentido: a canção -, entretanto a excede, atingindo uma espécie de existência para além da música. Não hierarquizo essa tipologia, pois tomo como critério avaliador a totalidade da canção; mas quando se diz, por exemplo, que Caetano é um “grande poeta”, penso que isso se refere a esse excesso de suas letras, essa sua capacidade de, sem nunca abafar a música, falar ao mesmo tempo mais alto que ela: letras que são, ao mesmo tempo, menores, iguais e maiores que a canção - letras que cabem na canção, mas não se deixam reter por ela. A poesia seria, assim, esse excesso, esse a mais da letra que faz com que ela possa se destacar da canção (guardo na memória diversos trechos de letras de Caetano sem que me lembre da melodia), e se destacar na canção (a letra nos atinge, nos toca, nós a compreendemos e a guardamos a cada vez que ouvimos a canção). A poesia seria o que fica quando a canção cessa.
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A ironia e o amor. Mais o amor.
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Certa caricatura pública diz que ele “gosta de tudo”. Não exatamente - o modo de Caetano é antes o amar do que o gostar. O gostar, como na definição que ele deu ao pop (“ser pop é gostar das coisas”), é um modo de leve adesão, despreocupada, irrefletida: curtir, concordar com seu tempo, privilegiar o deslizamento à resistência. Caetano gosta, é certo, mas sobretudo ama; seu gostar não cessa em si, porém se encaminha ao amor: o amor é a relação reflexiva com as coisas, é a compreensão das coisas dentro de um processo histórico em que está em jogo, sobretudo, as possibilidades do Brasil. O Brasil é o lugar do amor em Caetano: é sua pedra-de-toque, ele ama a partir da relação de tal coisa (uma canção, um filme, um estilo musical, um projeto político) com o Brasil. O Brasil é o horizonte do pensamento de Caetano, e de seu amor. Entre o gostar e o amar, há uma diferença profunda: a diferença da profundidade - gostar é uma disposição de fazer coincidirem as superfícies - a de nosso corpo com a do mundo -, já o amor é um comprometimento, um laço, nosso corpo irremediavelmente ligado a um outro, à sua história, a suas potencialidades, a seu destino. Em Caetano, a história, os possíveis e o destino do Brasil.
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O amor nasce de uma perícia: “quando você sente as sutilezas da qualidade” - “nervo por nervo”.
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Uma fundamental ambivalência: estar dentro e fora dos acontecimentos, o palco e a platéia, o público e o privado, o protagonista e o crítico.
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A pluralidade, para mim a mais importante das lições: o samba e as vanguardas, o território e a desterritorialidade, a periferia e a metrópole, a zona norte e a zona sul, o “brega” e o experimental, os livros e a televisão, o cinema e a canção, a cultura e a transgressão - meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim.
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Incômodo: talvez o afeto por excelência que seu discurso costuma provocar. O incômodo é o estado afetivo decorrente do discurso ambígüo, no limite indecidível. O indecidível é, para alguns, insuportável, e assim preferem desqualificá-lo como logro, enganação, ou mero oportunismo político (não tomar uma posição “clara”, unidirecional). Pelo contrário, é preciso chamar a atenção para a dimensão política do indecidível: toda a arrogância, todo o autoritarismo são fundados na crença em uma verdade; a dúvida, benefício do pensamento livre, tem enorme importância política.
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Caetano não erra esteticamente: característica de uma obra que se forja a partir de um profundo senso crítico. É, ao mesmo tempo, intuitivo: suas intervenções críticas - sobre o Brasil, os EUA, o mundo, a música brasileira, etc. - trazem a surpresa de um rápido deslocamento de perspectivas. A canção popular é crítica; a reflexão crítica é intuitiva. Ambas têm relevância, descortinam novas possibilidades. Mas a turma do “cada macaco no seu galho” protesta...
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Um elefante incomoda muita gente. Um leão incomoda muito mais.
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(Waly certa vez lhe disse: “Deus não dá asa a cobra, mas pra você ele abriu uma exceção”.)
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Vejo seu rosto. 61 anos, eu acho. Envelhecer é triste - mas disfarçá-lo o é ainda mais: também aqui álibi nenhum, nenhum querer parecer mais jovem. O querer, sim, ser jovem. Pois não existe o “mais jovem”, mas simplesmente: o jovem, disposição irredutível à passagem do tempo. O, para mim, admirável: não há nele - em seu rosto, em seu ser - qualquer sinal de envelhecimento moral. Os erros não se acumularam. Nenhuma dívida a pagar. A história é a riqueza. O mundo está sempre começando. Vejo seu rosto - luminoso. A mesma mistura de ternura e quase-insolência.
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Escrevendo sobre o que nos é mais importante, mais íntimo, talvez estejamos na verdade escrevendo sob isso, atravessados por isso, a partir disso que de alguma imprecisa maneira já nos tornamos. Tenho um amigo, grande escritor, para quem ensinar é a maior das artes. Concordo inteiramente. Esse texto é uma aproximação - na direção de uma espécie de balanço ético -, não poderia dizer exatamente de Caetano, mas do meu contato com ele: coisas que ele não necessariamente ensinou, mas aprendi com ele.
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