[Resenha] Qual ilusão o acompanha? Um relato do debate que aconteceu no lançamento do livro editado pela Casa da Palavra. por Patrícia Flores No dia 24 de abril de 2006, aconteceu na Livraria da Travessa, em Ipanema, o lançamento do livro Cocaína: literatura e outros companheiros de ilusão. O livro foi organizado por Beatriz Resende, com introdução apresentando as obras literárias que o compõem, e editado pela Casa da Palavra.

Para o evento de lançamento, foi promovida uma mesa de debate formada por Beatriz Resende e Luiz Eduardo Soares, que escreveu o prefácio do livro. Mauro Ventura foi o responsável por mediar a mesa.

Cocaína trata-se de uma seleção de textos de diversos autores brasileiros do início do século XX (o ano limite da pesquisa é 1938, quando as leis passam a ser mais rigorosas em relação aos usuários), que abordam experiências com substâncias como morfina, ópio, cocaína, álcool, etc. Entre os autores selecionados estão Benjamin Costallat, Olavo Billac, Manuel Bandeira, Lima Barreto e Álvaro Moreyra.

Para iniciar o debate, Mauro Ventura questiona Beatriz Resende quanto ao nome do livro. Se os autores abordam várias substâncias, que consideramos serem drogas atualmente, por que nomear o livro de "cocaína"? Resende nos conta então que a idéia tem grande influência de Martha Ribas, a editora, que sugerira e insistira no título.

Segundo a autora, Pernambuco de Oliveira, na década de 20, nomeara o ópio como um "gosto chique" do qual podia-se desfrutar no Rio de Janeiro. O gosto pelo ópio foi mais um reflexo da grande influência parisiense na capital brasileira. Algumas personalidades de nosso país ficaram encantadas com os "excessos" (termo bastante usado por Beatriz Resende para se referir ao uso de ópio, cocaína e demais substâncias) pelos quais os parisienses se deixavam levar e não hesitaram em trazer o vício para cá. José do Patrocínio, Théo Filho e Benjamin Costallat foram alguns dos responsáveis por essa "transferência".

De acordo com a autora, tudo parecia se encaixar, pois de 1904 até por volta de 1910 o Rio de Janeiro se preocupava em trazer a arquitetura parisiense para a cidade. O ambiente da Cidade das Luzes foi sendo instaurado na Cidade Maravilhosa. Assim, foi se construindo aqui o cenário "Paris". Nada mais esperado do que, logo depois, surgir elementos que preencham harmonicamente esse cenário. Ou seja, tem-se o espaço, traga os costumes, ou melhor, os vícios e "excessos" que são sempre as partes mais fáceis de se apreender.

Um elogio levantado por Luiz Eduardo Soares e retomado em vários momentos do debate é o fato de que o livro nos traz um novo ponto de vista sobre a questão das drogas. Ou melhor, recupera uma forma de pensar antiga, porém com um viés completamente novo em relação ao que temos atualmente. Para o antropólogo, os textos presentes no livro mostram de forma clara como a população da época tenta naturalizar o que hoje em dia chamamos de drogas. Esse ponto de vista não proporcionava àquelas pessoas a visão crítica que temos hoje. E o tipo de contato que se tinha na época em relação às "drogas" era isento do fantasma do tráfico e da violência que carregamos hoje. Era um foco na substância em si e em seus efeitos sobre os experimentadores e usuários.

Mas, não são apenas as drogas que estão como coisas "proibidas" experimentadas pelos autores. Também há um outro ponto que chama a atenção nos textos: a liberdade sexual. Segundo Resende "pior do que a cocaína é a mulher livre". Enfim, se a existência desses textos nos amedronta hoje em dia por causa das drogas citadas, naquela época também havia receios quanto à propagação das idéias libertárias que esses autores poderiam causar. O fato é que essa literatura fez muito sucesso no Rio de Janeiro da década de 20, há relato de extraordinário número de vendas dos exemplares, porém onde estão esses livros. A organizadora teve enorme dificuldade em encontrá-los. Com certeza, essa literatura foi muito reprimida por causa das idéias que trazia. Os livros eram lidos, mas não mostrados. Lia e calava-se. Álvaro Moreyra, tão conhecido ainda hoje, publicou na época um livro chamado "Cocaína", que não se encontra mais. O nome do autor ficou, mas o livro desapareceu.

Um outro fator que causou o fim dessa literatura foi o surgimento do modernismo. A estética modernista entrou no Brasil com força total, fazendo com que se tornasse "brega" ler um outro tipo de literatura.

Ventura questiona os debatedores sobre a relação da atual literatura com as drogas. Hoje em dia, a ficção aborda o bastante esse tema? Luiz Eduardo acredita que pode ser leviano dar esse parecer, porém afirma que a sensação que tem é de que as drogas não têm sido um tema tão presente na literatura quanto em nossa vida. Resende completa que a literatura beatnik dos anos 60 e 70 abordou excessivamente o que pode ter causado a retração atual. A obra literária voltada para os "excessos" foi uma marca muito forte daquelas décadas. Resende diz ainda que, hoje em dia, a abordagem está mais voltada ao uso do álcool e à "terrível relação" álcool e velocidade.

A organizadora do livro confessou ter sentido muito medo de que ocorressem mal-entendidos com a publicação da obra e a mesma fosse acusada de apologia às drogas. Porém, lembra que os textos mostram também os efeitos das substâncias. É possível observar nos textos que os autores narram experiências com as drogas e também a percepção dos "perigos" que ela traz.

O primeiro veto ao uso das drogas ocorreu em 1921, sob influência do sistema político norte-americano, quando a penalidade se traduzia em encaminhar os usuários a sanatórios. Costallat visitou alguns desses sanatórios e ficou chocado com o que viu. O estado em que as pessoas "condenadas" se encontravam!

É claro que o debate se estendeu ao problema que temos hoje em dia com as drogas e à polêmica sobre a descriminalização das mesmas. Resende traz uma frase de Brecht para a discussão: "o que é o assalto ao bando diante do próprio banco". Talvez seja uma comparação cabível ao uso e ao tráfico das drogas. Afirma ainda que Lima Barreto, em 1916, escreveu "Cuidado com a polícia!" pois o jornalista e literato percebera já naquela época a brutalidade com que a polícia tratava os usuários. Após o primeiro veto às drogas (1921) houve uma manifestação por parte dos grandes farmacêuticos da época que não sabiam como resolver o problema em que o Governo os colocara: também não podem vender drogas a um viciado químico que pode morrer por parar bruscamente o seu uso? Como eles poderiam gerenciar essa situação?

Pelo visto, a dúvida fará cem anos de existência...

Enfim, retomando Luiz Eduardo, hoje, além do uso da cocaína, nós temos a Guerra do Tráfico. Talvez lendo autores de outros tempos que abordam o assunto por outro viés, podemos deslocar nossa crítica.

E, para finalizar, gostaria de trazer outra afirmação do antropólogo: "A literatura também é capaz de alterar consciências e pode ser muito perigosa!".