[Resenha]O declínio do efeito cidade partidapor Heloisa Buarque de Hollanda
Foi admirando o Paço Imperial, visto da perspectiva da Praça XV, que me veio à cabeça um dado precioso para a compreensão do perfil cultural do Rio de Janeiro. Se hoje, o Paço é um centro cultural ativo, contemporâneo e, sobretudo múltiplo, houve um dia que, deixando de ser a Casa dos Governadores, foi transformado, às pressas, no Paço Real, tornando-se o cenário de um fato tão anacrônico como significativo. Foi no Paço que se instalou, em estado de emergência, D. João VI, a família real e aproximadamente 18.000 pessoas entre empregados e membros da corte portuguesa. Ou seja, num momento em que as colônias portuguesas e espanholas exercitavam seu direito de rebelião e conflito contra o jugo dos colonizadores europeus, no Rio de Janeiro em plena Praça XV, oferecíamos abrigo à corte portuguesa que chegava às pressas, fugida, pedindo asilo a seus súditos, formatando na comunidade local estranhos sistemas de hierarquia e de articulação entre culturas, valores e poderes. Não quero estabelecer uma relação de causa e efeito entre esta estranha geopolítica dos promórdios da formação de uma cultura carioca, mas esta deve ter contribuído de alguma forma para a geração da habilidade que desenvolvemos em minimizar as situações de confronto, da expertise no jogo de corpo, do comportamento aristocrático de depreciação do trabalho e da disciplina produtiva, da capacidade diferenciada em acolher o estrangeiro, da flexibilidade na coexistência bem humorada de fatores contraditórios que definem um ethos absolutamente original para a cultura da cidade.
O jeito de ser carioca é um fait accompli no vocabulário nacional e define a positividade e o grau de atratividade do Rio de Janeiro. É esse ethos que batiza organizações sociais festivamente como "Viva Rio", no qual um "abraço" na Lagoa Rodrigo de Freitas é uma das formas mais catalizadoras de manifestações políticas, que identifica lazer e cultura, que regionaliza o carnaval como carioca.
Por outro lado, a noção de carioca é genérica o suficiente para atravessar classes. O jeito de andar, vestir e sorrir é da garota de Ipanema, da mulata e do malandro da Lapa.
Outro ponto que chama atenção é a ênfase na noção de cidade quando se pensa numa possível definição para o que seja uma "cultura carioca". Não me lembro de ter encontrado nos discursos acadêmicos, da imprensa, ou mesmo da música carioca, o investimento na idéia moderna de cultura como raiz, como tradição local tão cara ao debate sobre a cultura das demais regiões do país. Ao contrário, sobrepõe-se à noção de uma cultura regional carioca, a noção mais aguda de cidade enquanto locus belo e privilegiado para o cruzamento de civilizações, para o encontro entre práticas culturais e sociais.
Nestas observações, apontam duas variáveis importantes para o exame das características mais incidentes na idéia do seja uma cultura carioca e na potencialidade de seu desenvolvimento. A idéia de uma cidade cujo maior patrimônio são suas belezas naturais e a idéia de sua vocação cosmopolita aberta portanto à mistura democrática de culturas. Vou tentar pensá-las separadamente.
Sobre a questão do valor patrimonial da exuberante beleza natural do Rio de Janeiro há um estudo bastante interessante de José Marcio Camargo 1. Segundo Camargo, o que torna a cidade especial é o fato de que a oferta de bens públicos nela disponível é relativamente muito elevada. Seu argumento básico é o de que, como a beleza da paisagem do Rio de Janeiro é o mais notável desses bens públicos, a exploração e a criação de mercados para esta beleza, tornando-a um ativo importante para o desenvolvimento sustentável da cidade é o desafio para seus governantes e para sua população. Não me atenho a essa discussão porque, apesar de bastante importante, meu foco aqui são as perspectivas específicas da produção cultural do Rio de Janeiro.
Volto portanto á idéia valorizada no perfil do Rio de Janeiro de cidade como encontro de culturas.
Os estudos culturais apontam uma certa reformulação teórica no pensamento sobre o que passou a ser chamado como "o direito à cidade", uma das novas reinvindições na área da cultura e da cidadania.
Este direito, seria, mais ou menos, o direito à fruição do espaço urbano como o duplo exercicio da história e da estética. A atual proeminência dos debates sobre preservação histórica, reconstituição dos bairros, a preocupação com o design urbano, com a definição de sentido dos perfis urbanos, o compromisso vital da cidade hoje como o espaço que deve suprir uma possível perda e/ou desgaste das "memórias nacionais"., vão neste sentido. Poderíamos dizer, a grosso modo, que hoje TUDO é cultura e como tal é reinvindicado. Foi a isso que me referi quando falei do novissimo "direito à cidade". A tendência de transformação dos mais variados espaços - incluindo-se ai o espaço museológico - em centros culturais em princípio, espaços onde a oferta cultural abre-se, de forma mais democratizada para todos os cidadãos, me parece uma das respostas possíveis aos novos sentidos da experiência cultural hoje. Atualmente, é o design da cidade quem preserva a memória e responde pela necessidade de guardar e narrar sua própria História. Nesta idéia de cidade culturalizada, colocam-se as novas identidades que tornaram-se não só plurais mas mutantes em relação ao espaço e aos discursos dos quais se apropriam. O próprio pensar sobre a nacionalidade hoje implica no reconhecimento da complexidade de suas fronteiras internas, externas, simbólicas, econômicas, políticas ou geográficas, reconhecimento esse que tem sua chave nos subtextos que só os discursos da cidade, enquanto cultura, pode oferecer.
Ela fala de temas como a emergência de novos sujeitos politico-culturais, os discursos que constituem estas subjetividades, o alcance e o status das formações discursivas em torno da cidadania e do inadiável reexame da produção artistica e cultural dentro de uma nova lógica.
Indo direto ao ponto das tendências culturais emergentes na década 00 , não há como não ressaltar como o principal fenômeno deste início do século XXI, a afirmação das vozes da periferia urbana no mercado cultural.
No Rio de Janeiro, esse fenômeno apresenta certas características próprias. Tomo, como exemplo, o funk, considerado uma manifestação cultural estritamente carioca. Poderíamos dizer, sem medo de errar, que o funk carioca é mais do que um estilo de música. É antes de mais nada uma fusão de funk, Miami bass, charm, techno, rap , hip hop e MPB. Reza a história. que o funk carioca surgiu quando foi descoberta a possibilidade de usar a bateria eletrônica baseada numa batida funk de Miami e deitar por cima a fala das gangues, a fala do morro. A maioria plena de suas letras falam de dançar, pular, transar, zoar. Insto é, desde seus primórdios o funk no Rio de Janeiro gera a festa.
Um texto quase-manifesto, divulgado no site Rio Funk defende a índole libertária do funk carioca que se expressa através do balanço do corpo. Ou melhor dizendo a atitude de "soltar o corpo ao escracho, reinventar o ridículo, para transformá-lo em estilo" (sic)2. Afirmam ainda que o erotismo atual do funk veio para salvá-lo da violência. E aqui estabelece-se o confronto entre Rio e São Paulo dividindo corações e ideologias. O funk carioca, (chamado pelos paulistas de bunda lelê), aquele que é anti gansta, que mixa gêneros, rítmos e comportamentos - e o rap paulista - que é anti-mestiço, doutrinário e explicitamente engajado. Essa discussão, que é tão longa quanto antiga - leva ao debate sobre o que é e o que não é político, discussão que foge ao âmbito deste artigo. Estrategicamente, fico com Hermano Vianna que defende o funk como um caminho para o novo, para a articulação cultural e que contem a vitalidade (e a possibilidade de sobrevivência) da "melhor cultura popular carioca".3
Perseguindo a pista de Hermano, e pensando sobre o que ele chama de "a melhor cultura carioca", descarto o debate sobre uma possível inflexão política implícita no funk e foco no seu evidente poder de trânsito, integração e congregação entre tribos, classes e credos, enquanto o rap paulista, ainda que louvado por sua dicção revolucionária, é inegavelmente bem mais circunscrito ou territorializado.
A batida rebelde do funk congrega a quase totalidade da massa da juventude negra e favelada e termina contagiando e trazendo para a favela a juventude da classes média e alta carioca. A festa funk pode ser vista como uma forma de produção intercultural que intensifica a circulação entre gêneros, classes e territórios.
Hoje, o funk deixou de ser uma música típica da periferia carioca e está se espalhando rapidamente pelo país. O Rio de Janeiro, nestes últimos anos, tornou-se o segundo produtor de funk do mundo.4
Se na época descrita em Cidade Partida de Zuenir Ventura, a favela e o asfalto eram espaços excludentes e claramente divididos, assistimos agora à proliferação de inúmeras redes e canais entre estes mesmos espaços que começam a estabelecer conexões novíssimas e impossíveis de serem imaginadas a algum tempo atrás. O que há de novo e chama atenção nesse fluxo que está se estabelecendo entre centro e margens é sua força enquanto criador de espaços efetivos de articulação intercultural.
Na própria produção cultural mainstream a presença da periferia não como tema mas como uma nova competência cultural é visível. Cito rápidamente alguns casos, apenas à guisa de exemplo. No cinema, filmes como "Notícias de Uma Guerra Particular" e "Cidade de Deus" com a participação técnica e autoral das comunidades-tema são eloquentes; nas artes plásticas, o trabalho "Roupa de Marca" realizado por Rosana Palazyan, em co-autoria com os jovens internos da Escola João Luiz Alves, onde cumprem pena por tráfico e assalto à mão armada, comprova o rendimento cultural deste tipo de parceria autoral; na literatura, a obra de Waly Salomão mostra um significativo influxo de retorno e intensidade de repostas no seu espaço criativo de troca e educação na favela de Vigário Geral; na moda, o desfile-espetáculo criado por Bia Lessa para a griffe Blue Man, sincroniza "funkeiros e intelectuais e empolga a platéia do Fashion Rio, evento que transformou o MAM em point da cidade".5
Pode-se dizer, sem hesitação, que o efeito "Cidade Partida" não caracteriza mais a cultura carioca. Como observa Paulo Lins, no lugar das favelas (antigos similares das senzalas) surgem as neo-favelas (atuais similares dos quilombos) com voz própria, beleza própria, inserção no mercado cultural e alto poder agregador.
Definir hoje a cultura do Rio de Janeiro é antes de mais nada imaginar estratégias e políticas culturais a partir desta rede de canais recém-abertos, das perspectivas efetivas de inclusão social que a nova cultura urbana carioca vem sinalizando e do sonho de estarmos assistindo ao inédito rito de passagem da cultura à cidadania.