[Resenha] As muitas razões para o suicídio O Suicida feliz, de Paulo Nogueira
Editora Planeta do Brasil, 2005
por Beatriz Resende
Dificilmente Paulo Nogueira poderia ter encontrado título mais interessante e provocativo para um romance do que este: O suicida feliz. De saída, já dá vontade de conhecer a história que vai ser contada.O autor, incluído pela editora Planeta em sua coleção Tanto mar, o porto da literatura portuguesa, oferece ao leitor situado do lado de cá do Oceano Atlântico, a facilidade de ser brasileiro. Vivendo em Portugal há muitos anos, onde trabalha como jornalista do Expresso, Nogueira fala da Lisboa contemporânea, das vicissitudes de uma Europa que se debate entre males da sedução neoliberal e tradições muitas vezes excessivamente conservadoras ou preconceituosas, guardando o ritmo dos bons momentos da literatura brasileira e certa coloquialidade que nos é familiar. Vez ou outra um fê-lo ou um tu foste surpreende o leitor embalado pela intimidade que logo se estabelece, mas o enredo corrige o estranhamento e carrega o fruidor adiante.

Três personagens conduzem, de formas diferentes, a narrativa de O suicida feliz e a nenhum deles faltaria razão para se matar. Como se não bastasse a Ricardo Antunes a vida dura de cabeleireiro na cidade aonde chegam os salões de atendimento em série, a ponto de distribuírem senhas aos clientes, a culpa por possível atropelamento o persegue. Eulália Pires seria uma órfã desprotegida batalhando por uma chance no perverso mundo do jornalismo pós-Tom Wolfe se não tivesse crescido diante da televisão, falado o nome de um detergente antes de balbuciar mamã e se dispusesse a usar tudo isso a seu favor. Dentre as personagem que menos freqüenta as páginas do romance, Eulália é talvez a mais original. “Uma das primeiras teledependentes da história da televisão portuguesa”, a jovem se transforma em poderosa programadora da mais importante emissora de TV em Portugal, sobrevive aos assédios sexuais de jornalistas experientes e um tanto preguiçosos, rejeita  intelectuais pedantes vestidos de casacos de tweed (“será que não se dera conta de que os intelectuais de hoje cheiravam cocaína?”) e encarna todos os males daquele universo de competitividade resumido por ela numa frase:“já não há mais  povo: só público”. Mas é um terceiro personagem, o roteirista de programas de humor cujas piadas se tornam cada vez mais macabras, escritor refinado e solitário, quem, em confissões recheadas de histórias sobre suicídio, confia ao diário a determinação objetiva e racional de se matar. Como o homem dionisíaco de Nietzsche, está convencido de que nenhum ato seu pode modificar em nada a essência das coisas. Nem amor, nem procriação, nem trabalho. Mas é como um daqueles amargos e cheios de humor personagens Woody Allen que segue lançando mão de sua ironia para convencer o diário-confidente que não pode mais perder tempo porque precisa perder a vida e pretende matar-se com todas as comodidades da vida moderna.

É deste entrelaçamento de discursos dos três e de encontros e desencontros que vão terminar no cenário pós-moderno do Oceanário de Lisboa que se constrói este livro que merece atenção, especialmente dos brasileiros, submetidos que somos, cotidianamente, aos poderes do império televisivo.

Se não chega a mudar o rumo da literatura contemporânea, Paulo Nogueira tem o grande mérito de, mais do que criticar duramente o poder demolidor a TV, oferecer alternativa àquela que seria, para a nossa brava e cruel Eulália, a maior função da telinha: combater os dois maiores males da existência humana: a monotonia e a certeza de que a vida é breve.