[Resenha] Comoventes e poéticos registros: Diários de Sylvia Plath. 1950-1962 por Beatriz Resende Em 11 de fevereiro de 1963, a escritora americana Sylvia Plath abriu a janela do quarto onde seus dois filhos pequenos dormiam, colocou xícaras de leite e fatias de pão ao lado das camas, vedou cuidadosamente a porta, ligou o gás da cozinha e se matou. Uma babá contratada para cuidar das crianças chegaria de manhã. Fazia um frio terrível durante aquele inverno em que se mudara para Londres, depois de abandonada pelo marido, o “Poeta Laureado” Ted Hugues. Sylvia Plath tinha apenas 30 anos e o mais importante de sua obra poética ainda não fora publicado.

A partir daí começou a surgir o “mito Sylvia Plath” e a crescer a curiosidade em torno das circunstâncias de sua morte ao mesmo tempo em que a crítica passava a prestar mais atenção a sua obra.

The Colossum, volume de poemas, tinha sido publicado em 1960, mas seus contos foram constantemente rejeitados. O romance The Bell Jar, onde a personagem Esther Grennwood vive os mesmos conflitos experimentados por Sylvia no período em que cursa a faculdade e, como ela, tenta suicídio, acabava de ser publicado na Inglaterra sob o pseudônimo de Victoria Lucas. Ocultar o nome era uma forma de preservar pessoas a que o livro fazia referência, especialmente sua mãe.

Após a morte, o grande impacto no mundo literário será a publicação, organizada pelo ex-marido, do livro de poemas Ariel, em 1965. A força da poesia original de Sylvia Plath passará, daí em diante, a ocupar a crítica literária, desafiando-a com poemas que nada têm a ver com a imagem de uma jovem dona-de-casa, submissa a um marido consagrado.

O suicídio da segunda mulher de Ted Hughes, levando consigo a filha do casal, em 1969, voltou a esquentar as polêmicas que dão forma à narrativa da vida literária, e as acusações a ele se acumularam, sobretudo a de ser parcial na seleção dos poemas publicados em Ariel, preferindo mostrar aqueles onde apareceria uma obsessão incontrolável pela morte, como em “Auge”, segundo consta o último a ser escrito: “A mulher está perfeita./Morto,/seu corpo mostra um sorriso de satisfação”.

Na busca por desvendar qual seria a verdadeira identidade de Sylvia Plath e talvez com a intenção velada de desculpar-se, culpar os outros ou tentar fechar a ferida que a morte de um suicida deixa nos que o sobrevivem, vêm a público Letter home (1975), as cartas de Sylvia à mãe, e, finalmente, os Diários (1982) editados por Francês McCullough com a ajuda de Ted Hughes. Na apresentação, o ex-marido, responsável pelo espólio, revela que dos dois diários referentes aos três últimos anos de vida, um se perdera, e o último, o “livro de capa castanha”, que continha anotações que iam até três dias antes do suicídio, fora destruído por ele. A razão alegada foi o desejo de preservar os filhos da dor de lê-los. Dois outros cadernos foram entregues lacrados ao acervo do Smith College, onde Sylvia estudara e fora professora. Esta primeira versão do diário provoca uma reação no público semelhante à que Susan Sontag aponta como derivada da leitura dos diários de Cesare Pavese: a descoberta da criação da obra de arte e da aventura do amor sexual como as duas mais requintadas fontes de sofrimento. Para Sontag, o escritor surge então como “sofredor exemplar: enquanto homem, ele sofre, enquanto escritor, transforma seu sofrimento em arte”.

Acumulam-se, a partir daí, as biografias, sendo Bitter fame (Amarga fama)de Anne Stevenson a mais conhecida. As feministas, por outro lado, identificadas com a imagem de Sylvia Plath, organizam-se para preservar a autenticidade de sua memória, divulgar e estudar sua obra.  Marjorie Perloff e Jacqueline Rose destacam-se na análise,  do ponto de vista da crítica literária e dos estudos de gênero, de vida e obra.  Janet Malcolm, com o interessante The silent woman (A mulher calada), um estudo sobre os limites da biografia, parece encerrar inteligentemente o ciclo de textos biográficos.

Em 1997, Ted Hugues transfere aos filhos a responsabilidade pelo novo projeto de edição dos diários completos e libera o acesso aos cadernos lacrados. Em 1998, pouco antes de sua morte, publica o extraordinário volume de poemas Cartas do aniversário,escritos durante 25 anos, num diálogo com a ex-mulher e sua obra: “De repente leio tudo isso – /suas palavras como saíram/Da sua garganta e boca, até a página do diário”. Se o marido fora infiel, o poeta pranteara, por toda vida, a escritora.

É depois disso tudo, inclusive do filme Sylvia, que temos aqui, diante de nós, os diários de Sylvia Plath, de julho de 1950 a julho e 1953, em impecável edição de Karen V. Kukil (Rio de Janeiro, Globo, 2004) curadora do acervo do Smith College, seguidos de notas identificando pessoas e locais citados e recuperação de palavras e trechos riscados ou anteriormente excluídos. Cabe destacar que a edição brasileira nos traz o privilégio de uma excelente tradução assinada por Celso Nogueira.

Ao texto dos cadernos, foram acrescentados anexos importantes sob forma de cartas, anotações que serviriam de base à criação de textos literários, um fragmento sobre a execução dos Rosenberg, narrativa de sua viagem a Paris, antes do casamento, e importantes anotações inéditas de 1962, incluindo notas do Hospital e o relato dos momentos em torno do nascimento de Nicholas, o segundo filho.  Os diários liberados falam de sua carreira como professora de inglês no Smith College e das dificuldades com o convívio acadêmico, trazem observações sobre suas leituras e relatos das sessões de psicoterapia com Ruth Beuscher. Estes são registros comoventes e comprovam que ninguém se resigna ou se compraz com o sofrimento mental ou a angústia se houver possibilidade de supera-lo. O doloroso é ver a importância que o tratamento tem para Sylvia: “Sinto que este mês dominei meu Pássaro do Pânico” e, sobretudo, a incrível dedicação ao tratamento, interrompido quando se muda para Londres, na luta contra a depressão. Após uma das sessões registra: “Paz imensa, hoje, após conversar com ela, manifestando minha dor profunda: quando isso acabará afinal?”

Agora que todos os detalhes de sua vida já parecem ter sido revelados, a leitura dos Diários de Sylvia Plath poderá, finalmente, cumprir outras funções além da satisfação de inevitável voyerismo.  Para quem escreve, o diário pode ser mais do que uma prática da escrita que vai se realizar de outras forma. Serve também como refúgio da solidão e como forma de garantir a sobrevivência e a sanidade (Ana Cristina César fala do “caderno terapêutico”). No diário, como salvação, o autor se salva pela escrita e por ela salva sua escritura. Em novembro de 58, Sylvia Plath anota; “Só escrevo aqui quando estou no fundo do poço, num beco sem saída.”

Mas os diários são, muitas vezes, obras literárias eles mesmos. Barthes afirma que a única justificativa para publicação de um diário íntimo é a literária, no sentido absoluto, mesmo que nostálgico, da palavra.

É já a escritora Sylvia Plath quem nos conduz pelos registros feitos pela universitária americana, atormentada pela virgindade, assustada ou fascinada por rapazolas e obcecada desde desejo de escrever. Surpreendentemente, lêem-se como um folhetim os relatos de alguém a quem ainda falta o principal para poder criar: “Escrever.(...)Mas para escrever é preciso viver, certo?”. Mais adiante, o diário revela a gangorra em que oscilava a relação do casal, a cada vez um deles experimentando sucesso ou recusas, as rivalidades e os ciúmes e a admiração incontida de Sylvia por Ted “Ele é minha vida, a estrela guia que me mantém centrada”. Para além disso tudo, são textos onde se acumulam momentos de incrível beleza, de exercício poético desenvolvido por vezes a partir do cotidiano mais banal.

Este, para mim, é o maior mérito dos diários que nos fazem atravessar as quase 800 páginas de um só fôlego (suspenso!), estimulando a inteligência, emocionando, revoltando, fazendo pensar em nossas próprias paixões e mostrando que praticar a literatura exige esforços de Sísifo, provocando, em doses por vezes desiguais, o prazer e rejeição. Como anota Sylvia Plath em 1952, “Escrever é um ato religioso; uma missão, uma reforma, um reaprendizado e um amar de novo as pessoas e o mundo como são e como poderiam ser. Uma postura que não passa como um dia datilografando ou lecionando. A escrita perdura: ela segue seu próprio caminho no mundo”. Beatriz Resende é professora da Escola de Teatro da UNIRIO, pesquisadora da UFRJ e do CNPq.