



junho / 2010
O protagonista é o Rock - Crítica da peça RockAntygona
por Mariana Barcelos
Qualquer menção ao título de uma tragédia grega nos remete primeiramente ao texto e história originais, e logo em seguida a idéia de como seria uma encenação contemporânea do mesmo. RockAntygona pula a segunda questão, tudo porque antes do nome do clássico, a palavra Rock já situa a encenação num tempo determinado. Rock, para algumas gerações passadas foi o grito de uma juventude aprisionada por regimes ditatoriais. Rock é também personagem dessa montagem.
A dramaturgia de Caio de Andrade recorta do original de Sófocles as questões políticas do texto. Creonte é um ditador obsoleto e Antígona uma jovem que se rebela contra o regime. Hémon, seu noivo e filho de Creonte outra voz da oposição. O Rock é o quarto personagem. Os altos gritos das guitarras, as sonoridades metalizadas fazem coro dos personagens (povo) não presentes. O som eletrônico faz as transições das cenas, e por vezes dialoga com um ator que permanece no palco. Os sons e ruídos que constituem a trilha assumem um volume extremamente alto, que briga com as vozes dos atores, por esta razão, pode-se pensar que, propositalmente ou não, o Rock tem uma materialidade superior e com isso dita o tom do espetáculo. Parece, entretanto, que o diálogo feito com os personagens é um confronto, um enfrentamento. Quando a possibilidade mais coerente com a qualidade transgressora da trilha era uma aliança com as vozes que esbravejavam contra o poder totalitário: Antygona e Hémon. O Rock como a voz dos não ouvidos.
A fragmentação sofrida pelo original Antygona precisou de momentos narrativos para explicar em que parte da história se encaixavam as cenas. Marcello H., ator responsável pela operação da mídia eletrônica e narrador ficava o tempo todo à mostra com os equipamentos necessários no canto direito do palco. As narrações eram como que narradas pelo próprio Rock, pelo ator que o “representava”. Todas as lacunas deixadas pela dramaturgia eram preenchidas pela voz do Rock. É interessante quando um elemento se sobrepõe a um texto que normalmente sofre com a canonização. A direção de Guilherme Leme parece não ter se preocupado com a dissolução da personagem título – dos personagens que permaneceram do original, Creonte, interpretado por Luís Mello, é nitidamente o foco e ponto de partida para a discussão da intolerância política. Antygona, apenas um exemplo do mal que tal intolerância pode causar, (a personagem tem a morte decretada) e Hémon, a oposição ignorada pelo orgulho do poder, apesar de ser também a voz racional, detentora de argumentação lógica, contrária a de Antygona que se defendia através de um discurso religioso.
A organização textual alterna monólogos de Creonte, diálogos de Creonte e Antygona, diálogos de Creonte e Hémon, e passagens de Antygona por um caminho de pedras no proscênio. A concisão da estrutura dramatúrgica reflete-se na opção por uma movimentação rígida, quase militar, dos atores, com exceção de Luiz Mello que varia na composição. Toda a síntese – do texto, dos personagens, dos movimentos corporais– aumenta o poder do som. Mas o Rock é o que? O elemento de atualização, e, um recorte temporal, que indica a voz rebelde de quem fala. Se a trilha expõe as escolhas/delimitações da direção para a montagem, o texto – que por se tratar de um clássico grego, e mais uma releitura – deveria apresentar um caráter que também o demonstrasse insubstituível. Mas Antygona, na representação, é exemplo de qualquer jovem inconformada (o) e revoltada (o) com os comportamentos políticos por ela (e) considerados antiquados. Mesmo que inadequados realmente, ímpetos da juventude parecem um motivo frágil para se optar pelo texto trágico. Com o mesmo tema, tantos outros textos foram escritos em momentos mais recentes da História sem deixarem de ser, ainda assim, síntese de um questionamento político universal e atemporal (caso este tenha sido outra razão para a escolha de Antygona): a discussão do poder autoritário.
O percurso do “trágico” na dramaturgia está para além do recorte dado. Não foi por violar o poder apenas que Antygona morreu no texto de Sófocles. Ela cumpre, como várias gerações de sua família (contadas em outras tragédias), um destino trágico, sem meio de fuga, independente do como isso ocorre. A dissolução da trama, neste caso, esvaziou o texto de seus significados – o que não tem uma relação direta com o fato de o texto ser uma releitura, dele ter sido “mexido”. Antygona não é um grito qualquer de rebeldia, as histórias de desobediência não são as mesmas. Os diálogos desenham um compacto de falas de efeitos do discurso político e resumos explicativos da história que os cercavam. Antygona passava pelo palco como se não a fosse, porque não tinha consigo sua trajetória, seu passado em fala. Ela poderia ter qualquer nome, foi generalizada, se ao contrário, ainda fosse a Antygona filha de Édipo, as aspirações de rompimento, enfrentamento, mudança política chegariam, talvez, mais nitidamente ao público, mesmo sem os gritos do Rock.
A tentativa constante de diálogo com a densidade sonora garantiu o tom pesado da encenação. O som é mais denso que o recorte. A dor de Antygona ganhou corporeidade no Rock. Mas sobrou Rock, e faltou Antygona.