junho/2009 Calabar, o elogio da traição - um musical brasileiro
Crítica da peça Calabar - direção Jefferson Almeida
por Mariana Barcelos
Calabar, o elogio da traição - um musical brasileiro

Os Centros Acadêmicos são claros espaços de experimentação e liberdade criativa. Muitos espetáculos ali produzidos estréiam também no mercado profissional como conseqüência natural das temporadas bem-sucedidas realizadas nos teatro das Universidades. Este é o caso de Calabar, o elogio da traição, com direção de Jefferson Almeida, que reestréia este mês em um circuito pelos teatros do Estado do Rio de Janeiro, que só terminará em Outubro. Depois de duas temporadas de sucesso no Teatro Paschoal Carlos Magno (o “Palcão”) na UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) o espetáculo ganha estrada.

A escolha pelo texto de Chico Buarque e Ruy Guerra não pode ser aleatória, revela, na verdade, uma demanda de alunos interessados no gênero musical. O específico desta montagem é a opção diferente das releituras, ou adaptações diretas dos espetáculos da Broadway. Obviamente, o texto brasileiro afasta, de certa forma, a opção por uma montagem americanizada, já que existem características implícitas na dramaturgia que encaminham a direção para algo diferente de tais espetáculos. Contudo, a escolha do diretor pode, ou não, dialogar com esses apontamentos. Jefferson fez escolhas que a Universidade propicia.

A característica principal da montagem é a junção dos alunos do curso de Artes Cênicas com os da Escola Música em um mesmo projeto. A banda ao vivo possibilita aos atores a experimentação e estudo necessários para o canto, e a contribuição para a peça não é menos essencial, os arranjos compostos especificamente para esta produção e seus respectivos atores solistas corroboram com a linguagem proposta. O chão coberto por terra, as laterais e fundo forrados por um tecido laranja transparente, que permitem que cenas sejam realizadas por detrás, e caixotes formam o cenário. Os personagens se escondem atrás do pano, depois se sujam na terra e se escondem novamente. A metáfora da traição colocada em atos físicos: ás vezes pode ser melhor se esconder à se sujar na terra, o que quer dizer, lutar em nome da Pátria. É por isso que Bárbara vê seus homens serem mortos, porque ora são considerados homens honrados, ora traidores. E o que muda não são suas atitudes, e sim o ponto de vista. Massacres de índios e negros com concessão dos mesmos, representantes políticos corruptos, populistas, déspotas, um pouco da construção política do Brasil quando foi nomeado Império de Portugal, com citações à diversos outros momentos políticos do país. Crítica característica das dramaturgias apresentadas durante a Ditadura Militar.

O próprio contexto no qual o musical foi escrito elimina de suas montagens um propósito puramente comercial. Não é necessário apresentar o enfoque político desta proposta enquanto releitura atualizada da dramaturgia, até porque é pouco provável um total distanciamento das referências políticas neste texto. Paradoxalmente, a atitude mais política que se tem no espetáculo se passa fora dele: a busca pelo espaço para o estudo de uma nova apreensão estética do gênero musical, que durante muito tempo fez sucesso nos palcos brasileiros, e que retoma com força os palcos. É importante para um aluno de Artes Cênicas que se possa pensar o musical no seu lugar de estudo.
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