maio/2009 Crítica da peça Don Juan: Abordagem fragmentada por Mariana Barcelos
De volta aos palcos depois de uma temporada no SESC Copacabana, Don Juan, com roteiro e direção de Thierry Trémouroux, reestréia no Teatro do Jockey, onde ficará até 18 de Junho. Em cena Allan Souza Lima, Carolina Ivancevic, João Velho, Roberta Wightman, Suzana Nascimento e Thierry Trémouroux interpretam as possibilidades de atualização do personagem de Moliére.

O trabalho realizado se dá no limite da desconstrução: desconstrução da forma dramatúrgica original, desconstrução do enredo do protagonista através da sua atualização, e, desconstrução das formas de encenação teatral, como afirmam os próprios atores em uma das primeiras cenas. Uma entrevista feita pelos atores, onde são respondidas perguntas com temas pertinentes aos processos teatrais (proposta de encenação, influências, objetivos, etc.) dirigidas especificamente para este espetáculo. Os atores falam de Bergman, Saramago, Lacan, Peter Handke, e outras referências estudadas para a montagem. Em meio a tantas informações claramente expostas, descobre-se na “desconstrução” uma proposta de “estruturação do fragmentado”. O desconstruído não só é estudado, como estruturado. O que para os olhos dos espectadores, em princípio, pode ser uma seqüência de recortes aleatórios, evidencia com o passar das cenas, a coerência que existe com a linguagem estética que se constrói.

Fragmentos de textos distintos; elementos circenses; música eletrônica; música ao vivo; pequenas histórias; textos em várias línguas; cenas projetadas; tudo em um espaço alternativo cheio de adereços meticulosamente pensados (manequins, caixinhas de músicas, roupas penduradas, luzes, etc.), que servem de instrumentos para os diversos “Don Juans” que passam pelo palco. As leituras do personagem galanteador que destrói corações são mais que o típico “bon vivant”. O significado do nome Don Juan se desdobra para além do sujeito. Don Juan transforma-se no adjetivo do que é pernicioso, ou “moralmente” permissivo demais – mulheres Don Juan, amores Don Juan. Ou então sinônimo de relações tabu – pedofilia, encesto. O ponto de vista, entretanto, para essas histórias permanece sendo o do protagonista. Os personagens que participam das fábulas são quem julgam os fatos, e como “bons Don Juans”, não a tratam como condenáveis, ou impuras. É o velho jogo que se estabelece sob o prazer – chegando aos questionamentos que isso pode acarretar: traições, puro sexo, amor, abandono, virgindade, etc. Longe de ser um julgamento simplesmente a favor de uma “vida Don Juan”, o que se faz é relativizar os olhares. O indivíduo pode pensar de um jeito sobre virgindade, e de outro sobre pedofilia, mas ambos passaram pelo caminho conceitual do personagem. O que se tem é apenas uma opção. Don Juan não é unânime sequer para ele mesmo. Aparece jovem, velho, palhaço, estrangeiro. Móvel.

Conversas de pós-espetáculo deixaram transparecer, entretanto, por parte de alguns espectadores certa preocupação com o que chamavam de “real entendimento”, tomando como base a obra de Molière e a sequência seguida durante a história. Tal “entendimento”, contudo, não deveria ser questionado, ou percebido como um tipo de falta, um espaço que o espetáculo não teria conseguido preencher. Este “entendimento” como uma necessidade de compreensão lógica e cronológica de uma fábula não se aplica a este caso, onde o entendimento se constrói a partir da fixação do trabalho estético durante a peça. Não parece, aqui, que já ter lido a dramaturgia original contribuiria para uma melhor apreensão do espetáculo, ou que não ter tido nenhum contato, de qualquer natureza, atrapalharia. A atual montagem existe sem a dependência direta do texto original. A relação de influência/inspiração não é negada obviamente, vê-se pelo próprio título que permanece o mesmo. Porém o interessante é que “DJ” (como o personagem é chamado em cena, e como aparece graficamente escrito no programa) seja assistido como um espetáculo autônomo. Livre de leituras convencionais por parte do espectador, como já fizeram os artistas envolvidos.

Don Juan, ou “DJ”, é um personagem inevitavelmente contemporâneo e reconhecível, independente da abordagem. Fora isso, “tudo o que fazem é um jogo de cena” (Molière) *.

* In: citação no programa do espetáculo.
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