



06/08/2008
Um ensaio quase cênico
por João Cícero
A peça FITZ JAM, inspirada em contos de F. Scott Fitzgerald, que está em temporada de 4 a 27 de abril no teatro de arena do Sesc Copacabana, pode ser definida como (quase) um ensaio cênico. Hans-Thies Lehmann mostra, em seu livro Teatro pós-dramático, a peculiaridade deste novo teatro cujo manejo dos procedimentos cênicos (textos, atores, espaço, cenário, luz e som) o transformaria num ensaio cênico, que não mais obedece à lógica do texto dramático. Este, para o teórico, teria a qualidade de um texto com início, meio e fim, e a de uma obra submetida à moldura do ficcional. Então, para que uma peça seja considerada um ensaio cênico faz-se necessário vê-la fora destes padrões descritos por Lehmann. Na peça em questão, a estrutura é fragmentária, não cumpre a linearidade de início, meio e fim - Adorno já disse que o ensaio pensa fragmentariamente -, e tampouco se submete aos "moldes" do ficcional, visto que seus atores falam, muitas vezes, diretamente para a platéia, misturam-se em muitos personagens, e quebram a seqüência narrativa que as cenas prometem cumprir.
Em FITZ JAM existe uma desorganização do narrativo que, contudo, não perde o raciocínio sobre como seriam as imagens Fitzgeraldianas hoje em dia. O que seria daquele Jazz? Como seriam as ruínas capitalistas da época de Fitzgerald? Há, na verdade, uma forte reflexão sobre a decadência do capitalismo, sobre suas imagens fantasmáticas. Há a cocote; há o Jazz de Billie Holiday - que, infelizmente, hoje em dia, é imediatamente ligado ao enxame das biografias fatais sobre sua vida (o vício de heroína, os casamentos fracassados, etc.) -; há a dança fantasiosa de um musical ingênuo; há o decadentismo de um sonho (talvez) felliniano, em que o homem precisa estar preso no subjetivismo do seu devaneio para poder ver a beleza do mundo, já que esta não existe mais no mundo real; e há ainda o decadentismo do escritor de novelas Gilberto Braga, que, circunscrito ao imaginário de Copacabana fabulou, em sua última novela, a perda de um paraíso tropical, num bairro em que as cocotes já morreram, ou mesmo que envelhecidas vestem-se num longo vestido de gala dos anos vinte e trinta. Alguém pode dizer que as cocotes Fitzgeraldianas nunca existiram em Copacabana, mas sim no centro do Rio ou no Cassino da Urca. Isso pouco importa. O que importa é o imaginário de decadência que percorre Copacabana como um bairro de luxo antigo, e a sua citação nesta peça.
Mas... como fazer um ensaio cênico? Basta operacionalizar no texto escrito a fragmentação? É só fazer com que uma idéia percorra alegorias ficcionais e imagens construídas pelos atores, ou fazer o ator executar a alocução para o público, assumindo-se como parte 'presente' na representação? Fazer um ensaio cênico só é possível se a forma pretendida percorrer toda encenação; ou seja, se cada elemento cênico assumir uma força crítico-reflexiva dentro do espetáculo. Aqui neste espetáculo, a luz, a sonoplastia e o espaço de arena não foram pensados como materialidades para um ensaio sobre a obra de Fitzgerald e a decadência do capitalismo. Em vários momentos, a luz, muito bem em seu artesanato de contribuir com a graciosidade do espetáculo, sublinha uma dramaticidade que parece estar fora da proposta de FITZ JAM. O mesmo sucede com a sonoplastia que acentua suspenses que fazem a peça se parecer com a fragmentação dramática de Lost. Tal obra é um seriado que exerce bem a função de entreter, o que não parece ser a finalidade deste espetáculo. A fragmentação de um ensaio cênico é certamente diferente da fragmentação de um quebra-cabeça dramático, como é o caso desta série cujos efeitos sonoros reforçam a expectativa do público em tentar decifrar o enigma. Na forma ensaio a fragmentação não está pretendendo matar charadas.
O espaço de arena também não entra na questão lançada pelo espetáculo. A força das cenas se dá, na maioria das vezes, pela frente. Se não há lado e costas no espetáculo, de quê adianta a arena? Evidentemente, o espaço central da arena faz com que vejamos tudo. Mas ver tudo não é o suficiente. A sensibilidade da feitura da peça parece, todavia, apontar para uma frontalidade. Mais que isso: o transporte para a arena parece não ter sido pensado reflexivamente, mas sim feito artificialmente. Há o uso dos aviões nas cadeiras, que são jogados ao centro, mas este é o único recurso que permite a este espaço pulsar em sua natureza. O corre-corre pelas laterais mostra o lugar. Porém, o importante não seria mostrar a qualidade do palco, mas fazer com que a natureza deste (suas costas, seus lados, seu buraco em relação ao espectador) adentrasse na reflexão sobre a decadência Fitzgeraldiana que está presente em FITZ JAM. Há uma cena em que a atriz Daniela Fortes entra com cigarros entre os seus dedos e vai para o centro do tablado. Lá, no centro, a atriz parece tímida com a arena; ao invés de dominar a cena, o olhar dos espectadores parece intimidar Daniela. Os quatro atores estão conscientes de suas performances na peça. Às vezes, Marina Vianna e Renato Linhares vibram demais, e Daniela Fortes e Leonardo Netto de menos. Mas esses momentos são poucos e breves.
Certamente, com o passar do tempo, o ensaio sobre a obra de F. Scott Fitzgerald e sobre a imagem decadente do capitalismo ali presente tomará conta dos outros elementos, e a força bruta destes será mais que a exibição de uma carpintaria cênica, será uma materialidade cênica pensante. FITZ JAM é um ensaio inspirado em F. Scott Fitzgerald. Contudo, não chega a ser completamente um ensaio cênico.