outubro/2009 O corriqueiro estranho - crítica da peça Sutura por Mariana Barcelos
A insegurança que vivenciam os casais apaixonados em seus relacionamentos pode permanecer numa esfera subjetiva por muito tempo, mas de repente um novo acontecimento pode obrigá-los a materializar e encarar essa insegurança – o que não significa acabar com ela, e sim compreendê-la e aprender a conviver – para que posicionamentos claros possam ser tomados. Esperar um filho, considerado sequência "natural" da vida do homem, é a razão que motiva a reflexão sobre a vida em casal – com suas individualidades emocionais – dos dois personagens de Sutura, dramaturgia de Anthony Neilson, com direção e tradução de Felipe Vidal, em cartaz no OI Futuro.

"Temos condições de ter esse filho? Nosso passado nos dá garantia?" O caminho reflexivo seguido pelo casal não engendra no âmbito moralista – não se julga a possibilidade do aborto como "certo" ou "errado". Não se julga o aborto, questiona-se o ter, poder ter o filho ou não. Optar por não ter o filho não representa um assassinato por parte dos pais. A gravidez tenciona o relacionamento e reflete a sua condição.

A apreensão que se tem à distância de um relacionamento amoroso é a de um todo que não é sustentado pelas partes – o amor que não garante a harmonia, estabilidade financeira que não garante responsabilidade, etc. Um casal pode parecer um acorde dissonante, que não soa estranho. Por não soar estranho é que nos sentimos próximos de qualquer casal, existe um ponto coincidente que cria identificação. A proximidade do espectador ao palco, e consequentemente, aos atores, põe uma lupa na vida daquele casal, um "dentro", como se estivéssemos também nas duas salas do cenário. Porém, a naturalidade com a qual as personagens falam não nos agride, tornando-nos invasivos, mostra-nos o quão íntimos somos da realidade dos relacionamentos amorosos. Por isso mesmo, a exposição de uma história, termina, em algum instante, expondo todas, o que inclui "a" ou "as" nossas.

Portanto, essa variedade de comportamentos e sensações dentro de uma relação afetiva não causa estranhamento. Quando, então, se dão as mudanças das cenas juntamente com a alternância do lado palco – o palco é dividido em duas salas separadas por uma cortina transparente; dois casais se revezam entre elas; o público fica também dividido, vendo uma sala de frente para ela e a outra através da cortina – e a possível variação de casais, ainda assim não se dá uma visualização incômoda das cenas. A existência de um caráter desarmônico nos casais já está estabelecida, desfazendo logo uma idéia de linearidade lógica e consecutiva da vida a dois. A alternância dos casais pode provocar no público duas hipóteses sobre eles: a de serem casais diferentes, ou o mesmo em algum outro período da relação – dada a continua convergência de ambas as histórias. Pode ainda não provocar essas indagações e o espectador assistir à peça com seus recortes, sem que isso implique numa quebra na percepção do todo. A ilógica das relações está implícita.

Os sentimentos truncados dos casais nos guiam com facilidade, sem estranheza, para seu final, paradoxalmente, surpreendente. Os recursos dramatúrgicos utilizados por Neilson se apóiam no lugar íntimo e confortável das relações amorosas, onde qualquer turbulência recebe um olhar de cumplicidade. Com isso se consegue um efeito de "fui enganado, por mim", segue-se o fluxo do óbvio, para descobrir que encravado no mais íntimo das relações banais, nada é tão óbvio, banal, e familiar assim. Uma "rasteira" dramatúrgica. Para quem considera o teatro apenas um lugar de repetição do real, Sutura mostra que mesmo o que é mais corriqueiro e "amistoso" aos olhos do público revela que a linguagem teatral tem seus recursos específicos.
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