



abril / 2009
Uma cena sem tempos mortos
por Raphael Vianna
Nesta sexta-feira (03/04) fui assistir a estréia do espetáculo “Viver sem Tempos Mortos”, um monólogo sobre a vida de Simone de Beauvoir com Fernanda Montenegro, direção de Felipe Hirsch, direção de Arte de Daniela Thomas e iluminação de Beto Bruel. A apresentação aconteceu no Sesc Nova Iguaçu, e como moro em Niterói, o principal motivo de ir até “lá” foi para assistir a um espetáculo aparentemente “Impossível de Fracasso”. Tinha-se reunido em torno do magnífico texto de Simone de Beauvoir, Fernanda Montenegro, Felipe Hirsch e Daniela Thomas. Convenhamos que há de se perguntar: “Como isso poderia dar errado?”. Porém não foi apenas com o intuito de confirmar minhas certezas que fui até Nova Iguaçu. Isso foi apenas um pontapé inicial, que culminaria em uma viagem de ônibus aos “lugares distantes” do Rio de Janeiro.
Sem outros aventureiros para me acompanhar nessa jornada, decidi ir por conta própria, e depois de algum tempo (1h e 40min de viagem) finalmente cheguei ao local da apresentação. Para o meu espanto o SESC Nova Iguaçu tinha uma ótima estrutura, e uma grandiosa instalação. Porém o local não me importava tanto quanto a peça que eu estava para assistir. Assim, às 20h quando entrei no anfiteatro para assistir ao espetáculo, me deparei com um espaço de cena quase que vazio, o que me fez entender a tal “direção de arte” de Daniela Thomas e não “Composição Cenográfica”. Definitivamente o foco não estaria no cenário, sendo que esse espaço aparentemente vazio provavelmente teria como intuito maior favorecer a desenvoltura da atriz e da direção. A iluminação de Beto Bruel também parecia caminhar nesse sentido, provocando uma sensação de “ausência-instigadora” ao iluminar mínima e precisamente aquele espaço de cena, que não era mais que uma cadeira em cima de um tablado de madeira e três cubos pretos dispostos no espaço.
“O que viria a seguir?”
“O que Fernanda faria com aquele espaço que parecia um marco zero?”- Pensava eu. Mas até então o que eu via era “Uma cadeira iluminada”. Certamente me remetia a “Um lugar para se pensar”, e que dentro de alguns minutos meus pensamentos seriam conduzindo e alinhavados em torno da vida de Simone de Beauvoir.
Embora já tenha visto outros trabalhos da dupla Felipe e Daniela (os quais sempre apreciei muito), Fernanda Montenegro eu nunca havia visto em cena. Como um bom crítico teatral socialmente inexpressivo confesso que sempre tenho receio e muitas suspeitas quando ouço elogios inflamados às “Grandes Divas” ou “Vedettes” do teatro.
Percebo que esses “rótulos” muitas vezes existem não porque foram merecidos ou alcançados, mas sim porque foram INSTITUIDOS. Esses status, que muitas vezes são distribuídos aos sete ventos, parece não ter o intuído de se fixar positivamente nessas pessoas, mas sim de as “empurrar” suas GRANDIOSIDADES claudicantes para o seu devido lugar no Pantheon dos deuses. São muitos os casos que depois de algum tempo vemos essas estrelas se apagarem ou mesmo caírem como verdadeiras “estrelas cadentes”. Nesses casos o meu pedido é só um: O de que evitem a minha cabeça.
Porém o que vi ali em cena posso afirmar que não foi isso. Fernanda Montenegro brilhava como uma verdadeira estrela, porém não estava nos céus, mas alí na minha frente. E quando me apercebi, no momento que Fernanda entrou em cena e sentou calmamente em sua cadeira fixando os olhos sobre um ponto no chão sem dizer absolutamente nada, tive a certeza de como aquele “Inevitável Sucesso” aconteceria afinal. Ali, naqueles segundos NECESSÁRIOS de silêncio absoluto, eu calei meus pensamentos e expectativas, e pude perceber que o que fui esperando ver realmente não aconteceria da forma por mim idealizada. Aquilo caminharia num sentido totalmente contrário. E foi assim que eu entrei no espetáculo. Como que despido por completo ao silêncio de Fernanda, e apresentado aos poucos a “peças de roupas” outras que não as minhas, mas que naquele momento me serviriam como iguais.
As primeiras palavras depois do silêncio foram torneadas pela iluminação que apenas anunciava o início da jornada ao pensamento de Simone de Beauvoir.
Porém não era Simone que estava lá, mas sim Fernanda. E durante 50 minutos eu não saberia distinguir uma da outra. Aquele corpo presente, sem deslocamento, deixava o movimento fluir através das palavras. A generosidade da atriz quanto a isso foi incomensurável. Fernanda era a porta voz de Simone, mas também a ERA como em si mesma. (?!) (É sempre complicado explicar o que captamos por sentidos outros que não usamos cotidianamente. Acredito que só a arte tem essa capacidade.) Parecia que uma EXISTIA na outra e a outra EXISTIA por motivo desta primeira. Uma sobre a outra, num amálgama perfeito.
No entanto era impossível não perceber a inércia da cena, afinal Fernanda não se levantou em nenhum momento sequer da cadeira. Apesar disso a cena não remetia a algo que estivesse parado, mas sim como algo que estava prestes a se deslocar mas não o fez. Quero dizer com isso que, essa inércia ou estática aparente da cena era completamente ilusória. Fernanda e a Direção parece ter tomado consciência do potencial expressivo disto, e por essa razão fazem voltar a atenção dos expectadores a uma outra “forma de movimentação” muito menos aparente. Um movimento que independe dos meios externos, mas que o preenchem por completo. Algo como a raiz de uma planta que continua a crescer sem que nossos olhos a percebam. O que Fernanda faz é nos mostrar “a raiz” mais do que outra coisa, submergindo nossas consciências para algo além da própria cena, tornando assim possível ver além da superfície: Fernanda, a luz e a cadeira iluminada.
Seu corpo ali, consciente dessa inércia, parece avançar e recuar no espaço sem que ela se movesse. (?!)
Sei dos efeitos que a luz pode causar no olho humano, e sei também que a sua intensidade favorece que esse recuo ou projeção aconteça. Porém não aconteciam mudanças de luz durante a cena!!! E mais. Cada vez que eu percebia isso acontecer eu tentava tomar consciência desse “efeito da luz no teatro”, e dizia a mim mesmo: “Sei que é por causa da luz que isso está acontecendo, Mas não pode ser só a luz. Eu não estou sendo enganado por ela. Eu conheço o truque. E mesmo assim isso ainda continua acontecendo. Por quê?!”
Quando pequeno eu me recordo que me via fascinado por mágicos, e que aos pouco fui perdendo interesse pelas mágicas das quais eu conhecia o funcionamento. Muitas coisas perdem um pouco o encanto quando sabemos como elas realmente acontecem. Ao descobrimos enfim a sua artificialidade não mais somos enganados, afinal não passa de um truque. No entanto, apesar do “truque” da cena ali ter sido descoberto por mim, eu não podia me livrar dele. Eu havia sido pego. Havia algo ali que me impossibilitava de pensar o contrário, de me tirar do encantamento e me permitir enxergar somente a materialidade da cena. De ver apenas o corpo de Fernanda e ouvir o texto de Simone. De perceber a composição cênica, a encenação e a luz com fatores distintos.
Foi então que tomei consciência que ali as coisas não aconteciam de modo separado como que em formatações, mas sim conjugavam-se numa completude UNA e indivisível. Me era impossível ver apenas A ATRIZ, A LUZ, A ESPAÇO, apesar de que em nenhum momento deixei de enxerga-los. Parecia que ali a tal Gesamkunstwerk de Wagner fazia sentido e que ela havia se aliado ao minimalismo da cena. Mas como o “sentido total das coisas” pode acontecer com “quase coisa nenhuma”? Creio que nunca terei uma resposta, e até nem tenho essa pretensão, pois aquilo que não consegui atingir com o pensamento ainda sim estava acontecendo na minha frente de forma VIVA.
Uma vida complexa, que avança e recua no espaço. Uma voz vinda de um lugar determinado, e ao mesmo tempo de um outro lugar. Do “lugar nenhum” que fala a ausência de Simone no corpo de Fernanda. Nesse corpo que era “Todo e Tudo” e que estava ali presente e PULSANDO.
Porém não um pulsar UNICO, mas um DUPLO pulsar. O de Fernanda e o de Simone por sobre o dela.
Assim somos convidados a assistir a esse espetáculo apaixonante, guiado pelo pensamento de Simone de Beauvoir e pela presença de Fernanda Montenegro conjugados num valor único, convergindo numa mesma direção.
Finalizo com a imagem que me ficou ao final do espetáculo. De que durante aqueles 50 minutos Fernanda e Simone deram-se as mãos e caminharam juntas sem dar um passo sequer naquele espaço vazio, e que ao final uma parte “se despede” e a outra “continua”.
Assim, relembrando minha chegada aventuresca até o local da apresentação, minha sensação inicial de despimento dá lugar a uma completa troca de roupa. Já não era mais o mesmo que entrou ali para assistir a VIVER SEM TEMPOS MORTOS, com Fernanda Montenegro, Felipe Hirsch e o texto de Simone de Beauvoir. Era outro mais que um alguém que volta para Niterói em trajes estranhos. Sentia-me preenchido por essa experiência maravilhosa da qual tinha acabado de participar. Posso dizer que desse encontro de “Titãns”, ficou para mim muito menos o medo da volta pra casa desse “lugar distante” (pegar o ônibus na Dutra às 23h não é fácil), pois desde já sentia-me mais VIVO e sem TEMPOS MORTOS.