abril/2010 O Contemporâneo entre a positividade de Deleuze e a negatividade Agamben por Bruno Domingues Machado

1. A dimensão do potencial analógico

A possibilidade de negar as figuras positivas, as transcendências, e de estabelecer alternativas aos centros poderia levar o pensamento a adentrar em um mundo no qual nada é absoluto, impossível e no qual não haveria inquestionabilidade que resistisse a uma contestação. A perspectiva de desconstruir a metafísica, de traçar linhas de fugas ao negar centros positivos poderia ser capaz de conduzir esse mundo à potência de revoluções no pensamento e nos modos de viver. Nunca se teria sido tão descrente e tão confiante. Um mundo em que cada um tem o dever e o direito de construir pontos de vista, de fazer leituras (dever e direito garantidos pela certeza de que um ponto de vista é diferente de outro ponto de vista e de que para um objeto existem tantos pontos de vistas quanto indivíduos possíveis); um mundo em que cada um tem o dever e o direito de criar (garantidos pela certeza de que cada indivíduo possível pode ser o ponto de partida de uma criação ou de uma recriação): falar em nome próprio, não ser representado. Nesse mundo, a incrível força que garantia os centros (a verdade, a moral, as ditaduras, o sexismo, o homem, o sujeito...) permaneceria intacta, com a diferença de que os centros se multiplicariam, se democratizariam, e cada sujeito, atravessado por suas transformações, fragmentações – devir-animal, devir-mulher, devir-imperceptível... –, se tornaria o ponto a partir do qual verbos como criar, agir, pensar seriam conjugados e teriam seus lugares no mundo, entre as coisas, turbilhão da história. Reabriríamos a possibilidade para o melhor dos mundos possíveis. Não haveria nada tão perdido a ponto de não poder ser salvo; nenhum texto limitado por seu tempo que não pudesse ser re-atualizado no contemporâneo; nenhuma morte que não acusasse a potência do ressuscitamento, nenhum cancro que não pudesse morrer; nenhum inelutável anacronismo que não se transformasse em potência de recriação. Todo contratempo, todo novo centro emitido por seus grandes emissores (o capitalismo, o senso-comum, as relações de poder...) poderiam ser combatidos desde que se agisse em vez de se queixar. Nunca teríamos sido tão capazes de identificar problemas e tão descrentes de sua solidez, nunca teríamos sido tão confiantes nas potências da criação se Deus não tivesse morrido, o homem se enforcado e se não tivéssemos nos deparado com o abismo de onde emergimos e que incessantemente nos dá a chance de recriar e desfazer problemas; se não tivéssemos nos atinado para a linguagem, seu silêncio, seu monólogo, sua condição de puro meio; se não tivéssemos nos aberto para a revolução da linguagem poética; se a arte não tivesse se imiscuído cada vez mais no cotidiano com seus acontecimentos e intervenções; se a internet não tivesse democratizado o acesso aos saberes e assim aberto a possibilidade de afluírem alternativas.
Estaríamos na dimensão do potencial analógico. Em As origens do pensamento grego, Vernant menciona dois acontecimentos que poderiam ser utilizados como pontos de entrada para essa dimensão. O primeiro, atribuído ao pensamento e ao saber, sinaliza um processo através do qual se pode perceber por que tanto estado de coisas como palavras não podem ser estabelecidos em posição de primazia em sua dialética. Esse processo, atribuído aos Jônicos, nos mostra que noções como alto, baixo, esquerda, direita – antes da ordem do sagrado, do abstrato, indicativos de potências e relações divinas, sem plano comum e sem valor de direções ortogonais – são geometrizadas, ou seja, dispostas num plano geométrico que é projetado no céu, na abóboda celeste. Esta, por sua vez, se projeta simultaneamente em palavras, se explica em teoria: que primazia, pergunta-se, pode se estabelecer entre um e outro, entre a abóboda celeste – coisa – e a teoria – implicada em palavra. Como dizer que a projeção em céu antecedeu à palavra, e que esta deveria tão-somente nomeá-lo, descrevê-lo, visto que para a projeção já seriam necessárias as palavras, a teoria implicada? Ao mesmo tempo, torna-se difícil dizer que as palavras antecederam a projeção, já que para isso seria necessário no mínimo um estado de coisas em que se projetar; ou que os nomes surgiram da necessidade de se nomear as coisas, previamente estabelecidas, uma vez que para isso seria necessário pressupor as palavras com que se as nomeiam e se as destacam do fundo de coisas. Dizer, por exemplo, que as palavras “árvore”, “tree”, “Baum” nomeiam a coisa-árvore exige que se pressuponha o conceito de árvore (e de coisa), assim como dizer que a coisa-árvore não passa de estabelecimento prévio de conceito – que as palavras/ os conceitos estão no centro de tudo – exige que se pressuponha um espaço em relação ao qual as palavras deveriam se retratar. Designar um objeto, apontar para o céu e dizer “céu”, dizer ou pensar “ali está uma coisa” enquanto com o dedo se aponta a tal coisa – ou com o olho ou com o cérebro se a reconhece –, são antes de qualquer coisa um desdobramento em que o designado (o reconhecido) requer a existência prévia da designação (do reconhecimento), que, por sua vez, requer a existência prévia do designado (do reconhecido), que por sua vez...: só da perspectiva de um ponto que fosse ao mesmo tempo armazenamento prévio e intermediário entre os dois é que se pode fundamentar a conformidade entre um e outro. É quando um sujeito do conhecimento ou um homem da lógica dizem: “isto é um cachorro”, “aquilo uma árvore”, “homens são animais racionais, você é um homem, você é um animal racional”. Mas e “isto é um sujeito”, “isto é um homem”, que tipo de intermediário seria necessário para se reconhecer imediatamente o primeiro homem, ele próprio palavra e coisa, carecedores de fundamento para garantir sua ligação inata? Na eleição de um intermediário que garantiria a conexão entre palavra e estado de coisas, Deus e mundo das Ideias não fazem mais do que carregar no fundamento a repetição daquilo que fundam (Deus fundando o Universo e o mundo das Ideias fundando o mundo sensível seriam como a coisa que funda a palavra e a palavra que funda a coisa, ad eternum); uma palavra que necessita de uma coisa (ou uma Ideia) que necessita de uma palavra, um intermediário que necessita de outro intermediário, que necessita de outro, de outro... Vê-se como se torna difícil sustentar a existência inata de uma dimensão homogênea de palavras e uma dimensão homogênea de estado de coisas, depositadas numa fixidez e viradas uma para a outra, visto que além de intermediários que sustentassem cada nome e cada coisa depositada seriam necessários também intermediários que sustentassem cada intermediário, que, por sua vez, sustentasse cada intermediário: proliferação inimaginável e interminável. Quantas vezes seria preciso repetir que o homem produziu, abstraiu, intermediou todas as ligações entre palavras e coisas que existem no mundo? (Inclusive a si, sustentando-se infinitamente, desde o início dos tempos.)
Ou, ao contrário: um intermediário que não fosse nem um nem outro, nem palavra nem coisa: sua conformidade, sua conexão, o ponto de contato entre eles seria justamente o ponto no qual se afastam, se desconectam; sempre entrelaçados e desconectados, impossível estabelecer primazia, ponto de partida, sentido único entre eles; impossível desvencilhá-los embora sempre se possa distingui-los. Agir no estado de coisas é desencadear palavras, falar em palavras é pôr em cena estados de coisas, num entrelaçamento cujo ponto de contato se dá não no homem nem nos deuses nem no saber mas no abismo, no a-fundamento, no silêncio de onde emergem e dos quais não se pode dizer palavra mas que sempre proporcionam outra, e mais outra, e outra mais, e o qual não garante relação de conformidade entre uma palavra e uma coisa, específicas, independentes, depositadas na língua e no fundo das coisas, mas entre o emergir simultâneo de palavras e de estados de coisas, que se repetiria incessantemente, não na linha contínua do tempo, mas no “agora”, por exemplo, da moda, não-identificável, inflexão entre anterioridade e porvir; emergir eterno de aglomerados a-significantes que formigam sob o silêncio de imagens, de estados de coisas. Isso não significa, evidentemente, que o significado das palavras, das proposições e a solidez das coisas se desfaçam e se refaçam incessantemente aos olhos de todos, que, por sua vez, se desfariam e se refariam incessantemente. Pelo contrário: são os significados, os significantes, o solo das proposições, a solidez das coisas, que se interpõem ao ponto de a-fundamento, recalcando-o, fazendo-o retornar sob domesticações (conceitos, reconhecimento, a ordem do significante), fazendo-o depender da paixão de um sujeito (o gozo, o estupor), ou de objetos pré-estabelecidos (verso, paradoxo, filme); é, antes, um armazenamento a posteriori, da ordem de um saber, que estabelece conformidade, possibilitando constituição de sujeito no momento mesmo em que reconhece coisas em meio a malhas taxionômicas contínuas, que relembra fatos consumados, o passado que não volta senão sob pesadelos.

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Há – no segundo acontecimento de que fala Vernant, atribuído ao direito e à verdade – outro ponto singular que possibilita compreender melhor por que os fatos, o passado, a anterioridade não é aquilo que espera encoberta e a qual é preciso desencobrir para se obter sua justiça, sua exatidão, sua verdade; em suma, por que dizer que homem, Deus, soberania dos deuses, mundo das Ideias não podem servir de fundamento à relação entre palavras e estado de coisas. A partir de uma determinada época, dizem os historiadores, os julgamentos na Grécia antiga passaram a ser norteados por uma maneira até então inédita de dar sua sentença. Se antes a verdade deveria ser produzida no momento do julgamento, se a razão e a verdade estavam com aquele que, dispondo de fórmulas rituais previstas pelo costume, utilizava-as corretamente e assim vencia o duelo de forças produzido durante o julgamento, a partir dessa mudança o julgamento passa a colocar em questão os acontecimentos que motivaram o litígio, a necessidade de se desvendar os fatos, de interpelá-los até sua verdade vir à tona, de analisar índices, signos que poderiam esconder dados seminais para a decisão do tribunal; passa, enfim, a se reportar a um sistema de leis previamente constituído e que presidiria a investigação dos fatos e as sanções que tais ou quais crimes poderiam receber. Além de se ligar a uma maneira de produzir pensamento (e de se portar), comprometida por um dever de retratação a um fundo de coisas, a fatos estabelecidos, como se fosse legítima a sua solidez pré-definida, esse acontecimento nos dá sinal de uma instabilidade da qual não se pode escapar inclusive por essa maneira conforme de produzir pensamento. Através dele, voltar-se para trás deixa de ser uma simples rememoração, reconhecimento, descrição, investigação ou retratação e torna-se a projeção que, a partir de sua posição a posteriori, emite e determina antecipadamente sobre uma posição a priori, que, por sua vez, determinaria a maneira como aquilo que a projeta veio à luz e se desenvolveu: circularidade entre antes e depois cujo único ponto de contato é uma defasagem infinita, o agora já passado e contudo ainda por vir, um “ainda não” que já é “tarde demais”, ponto neutro e inefetuável.
Dizer, por exemplo, que o estabelecimento do direito tal como conhecemos hoje descobriu a verdade dos fatos e do tempo que corre linear, do passado em direção ao futuro; falar em um Deus que fundasse os homens à sua imagem ou na soberania dos deuses de onde emergisse céu e teoria; em suma, em um fundamento para a ligação entre palavras e coisas que contivesse em si palavra ou coisa (específicos) seria como projetar num antes aquilo que só se tornou possível num depois do agora inefetuável: ponto neutro e não-identificável, já passado e ainda futuro, ele não está fixado numa linha histórica, em determinados pontos da história, mas continua a operar incessantemente, reunindo em si a “síntese disjuntiva” entre passado e futuro, estado de coisas e palavras, sujeito e objeto, tempo individual e tempo histórico, fazendo com que a origem seja o que recomeça incessantemente, injetando devir no quadro a quadro do pensamento.
Ora, se os dados prévios, se as causas, se o que se esconde por detrás dos signos é não o que aguarda pacientemente a sua descoberta mas antes o que é determinado previamente no movimento mesmo que tenciona a descoberta; se por trás dos signos se escondem outros signos, se por detrás das causas outras causas, se atrás das máscaras não há nada senão máscaras infinitamente máscaras, a que centro, conceito, causa; a que saber, a que figuras, com suas pertinências lógicas, atrelar as raízes de um pensamento, de um texto, de uma conduta? A que passado, a que estado presente, então, tentar ser conforme? No mundo da potência analógica, não há solidez que não possa ser dissolvida em possibilidades, territorialização que não possa implicar imediatamente desterritorialização, indivíduo que não fale a partir de devires ou indivíduo sem direito a falar, livro de onde só se deva obter A leitura, correta: não A leitura, mas sim uma leitura; sim à potência do objeto. Uma alternativa que dá lugar a outra que dá lugar a outra... Individuação no lugar de sujeição. É o mundo das conjunturas, em que a validez das proposições não depende de sua verificabilidade no finado Estado de coisas, mas do momento, da circunstância em que elas emergem. Proporcionar conjunturas, então. Olho-míssil, que flagra relações antes de serem mediadas por saberes consolidados. Falemos, pois, em corpos sem órgãos, devir-animal. Falar desde a potência implícita, desde o a-fundamento de cada animal, sem raiz sem saber qualquer. Nessa dimensão, garantir as condições de inacessibilidade do objeto não quereria dizer negá-lo, mas obstinar-se em direção a um ponto ao qual não se pode chegar, imprimir na escrita o a-fundamento de linguagem que a une e que resguarda seu potencial de sua mera condição de objeto; imprimir na leitura, imprimir no contemporâneo um potencial de reavivamento, fazer do anacronismo inelutável um potencial de recriação (que por sua vez resguarde potência, em vez de tentar se legitimar através de artimanhas de um saber), perseverar sobre cada objeto fazendo dele não um objeto, uma coisa, um conceito prévio em meio a um tecido costurado de figuras, mas espaços diferenciais, descontínuos, a partir do quais se possa fazer falar a potência do que não se esgota com sua objetivação, todos se comunicando no ponto que recomeça incessantemente: esplendor da linguagem. Diante disso, pergunta-se pela pertinência de continuar respeitando uma malha taxionômica que se mantivesse estável e depositada sobre o fundo das coisas, pergunta-se pelo a césar o que é de césar, pelas relações só autorizadas por saberes, pelas lógicas clássicas. É diante dessa pergunta que Foucault pensa um saber, não como o local de entrecruzamento entre significantes e estados de coisas prévios – um sujeito que escreve, uma linha de pensamento que se opõe à outra, um estado de coisas retratado por um texto histórico –, mas como prática de onde se pode obter leis imanentes e a qual só se liga a outras práticas como pela refração de uma luz que muda de meio; um homem não como uma coisa que se descobriu no centro do mundo e do saber mas, primeiro, um espaço com o qual tentava se rematar uma instabilidade que não podia ser rematada (e que dele não dependia), e, segundo, um espaço que dá lugar a uma série de relações e investimentos de poder; assim as epistêmes cuja descontinuidade não podia ser medida por uma causa específica e cuja interioridade se dava como o “primeiro elevado a enésima potência”, de que fala Deleuze. Como olhar para isto (sobre) o qual escrevi e garantir “texto” (ou “palavra”) senão através de armazenamento fabricado, artificioso? Como garantir que eu, sujeito de um conhecimento, escrevo soberanamente este texto, objeto apartado de mim? Alternativa: um espaço no qual quem escreve, ele mesmo um entrecruzamento de textos, se imiscuísse àquilo que escreve, texto que por sua vez seria uma porta de entrada para múltiplos textos (Barthes, Agamben, Deleuze, Perec...). Quanto mais se desvencilha do conhecimento (do armazenamento prévio que garante conformidade), menos sujeito se torna; mais um espaço a partir do qual o poético, e a pura criação emergem: não se retratar a figuras do saber, não se importar com o solo ao qual elas remeteriam, mas com a dança que elas podem celebrar sobre o papel. A ignorância pode ser pior do que o emudecimento, diz Deleuze. “Enrabar filósofos”, “pegue o que lhe interessa”, “faça leituras amorosas”: não se sujeitar, nem ao saber nem à tradição nem a si (a própria historinha de vida, imiscuída ao saber). Agir – no lugar de se queixar de problemas, de negá-los – de maneira que a ação envolva o pensamento e o pensamento a ação. Identificar problemas com a mesma rapidez de neutralizá-los. Agamben coloca a necessidade de saber olhar para o escuro do presente, de se livrar das mediações que nos entregam tudo prévio e que nos faz conformes a nosso tempo, olhar para o escuro atrás das luzes que ele emite, atrás da defasagem, da intempestividade, que possibilita olhar enfim o presente livre do anteparo positivo que o sobredeterminava, que nos desincumbe da necessidade de sermos fiéis a um passado, a fim de nos reunirmos no agora neutro, livre de artifícios, e de onde é possível criar, não como quem descreve a própria vida,  resguardado das leis de um saber. Pode-se então salvar Bartlebooh, personagem (conceitual?) de Georges Perec que não se interessa por filosofia, por mulheres, por lazeres, por poder, “nada interessa Bartlebooth. Nem a ciência, nem sequer o jogo”. Bartlebooth  só se interessava por puzzles. Entre obras de arte, mulheres, monumentos, feitos heróicos, amizades, jantares, Bartlebooth só se interessava por puzzles.
Imaginemos uma pessoa cuja fortuna seja comparável apenas à indiferença por tudo quanto a fortuna em geral propicia, e cujo desejo fosse, de maneira muito mais arrogante, apreender, descrever, esgotar não a totalidade do mundo – projeto cujo simples enunciado já acarretaria sua ruína – mas determinado fragmento deste [determinados puzzles]; diante da inextricável incoerência do mundo, tratar-se-ia então de cumprir até o fim um programa, restrito, sem dúvida, mas inteiro, intacto, irredutível .

Da perspectiva da malha taxionômica prévia, das coisas depositadas no mundo, se entregaria a mais uma atividade, a mais um objeto possível (o puzzle) entre tantos possíveis. Mas Bartlebooth é inteiramente indiferente às outras tantas atividades ou objetos (possíveis, reais, ou necessários): como, então, da perspectiva da indiferença, de quem não reconhece diferenças estabelecidas, objetos possíveis, mulher, carro, filosofia, dizer que Bartlebooth se interessa por puzzles como se fosse mais um entre tantos possíveis? Bartlebooth, agente neutro, se obstina intensivamente na única coisa que ele enxerga (e por isso se dissolve); Bartlebooth esgota não um fragmento do mundo, mas explora a potência do mundo no qual sujeito e objeto se dissolvem em favor de forças mudas. Quantos Bartlebooth’s e forças mudas falam nessa dimensão... Dentro de um panorama como esse, o pressuposto de que as palavras foram como que taxionomicamente coladas sobre o estado de coisas, divididas e mantidas em cada espaço, sobre cada coisa (que esperaria apenas o seu nome para se desvelar) – e que essa conexão, essa conformidade é a lei da qual apenas a poesia, a arte, o paradoxo, o estupor de um sujeito empírico, o gozo, em suma, poderiam escapar, pareceria no mínimo a tentativa de uma criança dar ordem a seus brinquedos e suas fantasias.
Na dimensão do potencial analógico, não há fixação específica que não possa ser neutralizada e descosturada da malha homogênea. Estamos no mundo do devir, no qual um conceito não é mais um entre tantos outros mas um espaço em que pode ressoar defasagem, desconexão.“Toda criança é um ser humano, nem todo ser humano é uma criança”, diz um saber. Segue-se: “todo ser humano é um animal racional, todo animal racional é um ser”: é a escala de conformidade/ anterioridade que a lógica mantém e ao mesmo tempo oculta ao classificar a inversão como figura de linguagem, cuja utilização só seria permitida na arte. Onde, porém, o a césar o que é de césar? Onde as autonomias, as Ideias, as essências, o mundo taxionômico, cada coisa em seu lugar? Mesmo as descontinuidade de espaços diferenciais, no lugar de conceitos entre tantos conceitos, não seriam autonomia, independência. Nesse mundo tudo se toca, tudo se mistura, tudo se permeia no ponto que garante sua desconexão. Ser é vir a ser, pólo em que se reúnem todos os estilhaços. Uma das ocupações de Winkler era classificar etiquetas de hotel que recebia por ocasião das viagens de Samutf ao redor do mundo. Havia, segundo ele, a ordem cronológica ou a alfabética, mas ele as considerava pobres demais:
O que pretendia era um encadeamento, de modo que cada etiqueta estivesse ligada à seguinte, mas sempre por um motivo diferente; por exemplo, poderiam possuir um detalhe em comum, um vulcão ou montanha, uma baía iluminada, uma flor específica (...); ou então ter um mesmo formato, (...) dois slogans semelhantes (...); ou, ainda, uma relação baseada não na semelhança mas numa oposição, ou uma associação muito leve, quase arbitrária: um povoado minúsculo às margens de um lago italiano seguido de um arranha-céu de Manhattan, esquiadores sucedendo-se a pessoas que nadavam, fogos de artifício a um jantar à luz de velas, uma estrada de ferro a um avião, uma mesa de bacará a um chemin de fer etc. Não era apenas difícil, acrescentava Winkler; era, sobretudo, inútil: deixando as etiquetas misturadas e escolhendo duas ao acaso, podia-se estar certo de que teriam sempre pelo menos três pontos em comum.

Repete-se: ser é vir a ser, pólo em que se reúnem todos os estilhaços. Agir no estado de coisas é desencadear palavras, falar em palavras é pôr em cena estados de coisas. O pensamento conquista a mais pura e imediata expressão das singularidades despertas do sujeito e do objeto. Entrelaçamento cujo ponto de contato se dá não no homem nem nos deuses nem no saber mas no abismo, no a-fundamento, no silêncio de onde emergem, que não garante relação de conformidade entre uma palavra e uma coisa, específicas, independentes, depositadas na língua e no fundo das coisas, mas entre o emergir simultâneo de palavras e de estados de coisas, que se repetiria incessantemente e de onde fulguraria instabilidade, aglomerados a-significantes que formigam sob o silêncio de imagens, de estados de coisas. De duas coisas diferentes impossível não dizê-las semelhantes, impossível não aproximar n diferenças sob n semelhanças, reuni-las em uma síntese disjuntiva que coloca a todos sob o mesmo tom. Não há freio para a neutralização, nunca se pode garantir, por si, a conformidade entre isto e criança, entre criança e animal racional; mas pode-se sempre tencionar sua proximidade, criança e animal racional, criança e moinho de vento, homem e criança, criança e cadeira, cadeira e mosquito. A escolta do ser, reunião dos estilhaços. Tudo se toca, tudo se mistura, tudo se permeia. Em todo homem pode haver uma criança, um assassino. A que moral atrelar monogamia? Não há homem e mulher, homem e homem, mulher e mulher no sexo, mas dois seres humanos, puro sexo, pura relação. Filho, ser humano; mãe, ser humano. Sim, fala-se também na preferência alimentar de tribos antropofágicas. A validade das proposições não depende de sua verificabilidade, não há referência estável para elas, dependem da conjuntura: seja qual for, nenhuma tem validade ou invalidade garantida. Não há solidez que não possa ser dissolvida em possibilidades, territorialização que não possa implicar imediatamente desterritorialização, reterritorialização, indivíduo que não fale a partir de devires ou indivíduo sem direito a falar. A dimensão analógica aponta o fulgor poético, o agora inidentificável, desfaz qualquer legitimidade ou ilegitimidade garantida por saberes artificiosos, por armazenamentos prévios projetados contudo a partir de conteúdos a posteriori. Fulgor poético. Pegue o que lhe interessa, recorte, cole. Move on. Devir-animal, devir-mulher, devir-cebola. Em As origens do pensamento grego, dois acontecimentos, acesso ao potencial analógico. Nesse plano, as intensidades comandam os devires. As perspectivas se proliferam, não há livro de onde só se possa obter leitura correta: não há A leitura, mas sim uma leituras; sim à potência do objeto. Como dizer uma leitura melhor do que outra, mais válida do que outra como dizer uma maneira de escrever melhor do que outra? Edir Macedo faz leituras bastante originais da bíblia. Compreende-se: não há centro positivo, não há mais especificidade posta em eminência e a qual não possa ser neutralizada. Uma alternativa que dá lugar a outra que dá lugar a outra... Imagem-tempo, cinema-museu, cinema-pedregulho. O ponto de contato entre estados de coisas e palavras é sua desconexão, sua defasagem, é preciso que se olhe e se fale desde essa defasagem. Esplendor da linguagem. Ó, devir. Pensamento sem imagem, desata o corpo das amarras asfixiantes do organismo, fazendo fulgurar os fluxos de um corpo pleno e glorioso, anterior e mais essencial que o corpo orgânico que geralmente atrela a vida aos seus órgãos e funções utilitárias. Corpo-sem-órgãos, instabilidade. Abacaxi-sem-escamas. Olhar para o escuro para perceber as luzes, ser pontual em um encontro ao qual só se pode faltar. Compreende-se: aglomerados a-significantes que formigam sob o silêncio de imagens, de estados de coisas. Um objeto resguarda como potência tantas leituras quanto indivíduos possíveis. O real se reinveste de múltiplas possibilidades, é preciso se obstinar para garantir que suas possibilidades não se esgotem em sua efetuação, e que a verdade floresça sem um dedo de juízo. E que a verdade floresça sem um dedo de juízo. Os fatos não aguardam nem se fixam inertes no passado, são antes uma projeção a posteriori, pode-se ressuscitar sua potência. Ó, a-fundamento. Ter acontecido uma vez não significa necessariamente se repetir, o passado não é o que espera inerte, o fato pode resplandecer em potência, disse Hitler a Charles Manson. Compreende-se: a possibilidade de negar as figuras positivas, as transcendências, e de estabelecer alternativas aos centros poderia levar o pensamento a adentrar em um mundo no qual nada é absoluto, impossível e no qual não haveria inquestionabilidade que resistisse a uma contestação.


2. A dimensão do potencial analógico

Apaga-se: isto é homem, isto é animal, isto é verdade, isto é real, isto é abstrato. Mas sempre pode haver um isto, calado, oculto, presidindo o que se faz, permitindo a promiscuidade e o retorno dos centros em que o mesmo se desdobra, monótono. Há sempre um isto que deve ser descrito, retratado, identificado, visto, lido ou ouvido, um isto em cada frase, palavra a palavra, se multiplicando, se estilhaçando e se remendando pelas malhas do saber. Até o agora inidentificável pode ser isto, espaço no qual se imiscuem passado, presente e futuro. E não adianta reconhecer que isto não é um cachimbo se se reconhece, se um isto continua fora, se é ele o que mais importa. Tampouco adianta negar isto. Sequer se pode dizer que isto retorna na negação: isto permanece. Talvez seja querer demais avisar isto não é metáfora se é justamente ele que possibilita a dança das cadeiras no abismo analógico.
 Como, então, salvar o contemporâneo do estatuto de mero espaço de confluência de tempos, em direção ao qual o passado continuaria a convergir, mesmo que a essa convergência seja atribuída – graças a uma defasagem, a uma fratura, a um anacronismo – um potencial de reavivamento, de ressuscitamento? Como ler proposições, enunciados sem abrir espaço para o indiferenciado, dimensão na qual ignorar as pertinências do saber se torna mero entupimento de palavras e frases que garantem a vitória do texto; dimensão onde falar em nome próprio, pegar o que lhe interessa tem como fonte um sujeito que escreve e cuja subjetividade seria única, singular, diferente das subjetividades de outros sujeitos; onde a defasagem e a fratura produzem dor, ressentimento, indignação, juízo, assujeitamento e objetificação; e onde a pergunta deveria ser como derramar sangue para soldar os séculos sem reconhecer como seu o sangue derramado.

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Algo fica no caminho da dimensão analógica. Algo que dá sinal e continua a dar sinal. Algo como deixar de reconhecer previamente dois espelhos que se refletem infinita mas limitadamente – e as figuras que dançam entre eles e extraem do uno o múltiplo, da identidade a diferença – para que desse desdobramento só se obtivesse a pura relação que se estende ilimitadamente.
É que a dimensão do potencial analógico toca no limiar de outra dimensão. E esse tocar, esse gesto mesmo de tocar, pode afastá-la, cimentando-a provisoriamente, retardando-a ou asfixiando-a, ou pode fazê-la emergir, a ponto de as figuras, os polos, os conceitos, as proposições, em suma, aquilo com que se a faz emergir não ter a mínima importância senão a de fazê-la emergir. Quando se parte de um ponto com o único intuito de servir ao ponto seguinte, que, por sua vez, tem por função exclusiva servir ao ponto de onde se partiu, possibilitando o emergir do caminho, pode-se estabelecer um início precário de fazer falar no lugar de falar de (levando em consideração que ler, ouvir, aguardar, por exemplo, também podem ser fazer falar ou falar de). Quando se atribui aquilo que se escreve/ lê não a um armazenamento prévio, não a um isto que se multiplica e só se reúne remendando, não aos significados, ao saber ou a funções específicas, quando, ao contrário, se faz de tudo isso um investimento silencioso que vai aflorar num porvir, que, por sua vez, tem como função exclusiva fazer tais investimentos aflorarem, já se adentra um pouco mais na dimensão que outrora era um ponto (defasagem, silêncio, a-fundamento, etc). Não que dependa da intenção ou da conjugação de um sujeito. Ocorre de qualquer maneira, investimentos que emergem, pontos de ebulição que fazem falar o que se acumulara silenciosamente. Porém, pode-se fazê-lo falar, proporcioná-lo no lugar de oferecê-lo imediatamente à atribuição de figuras ou conceitos, pessoa ou causa, ou no lugar de se sujeitar a/ de se dispersar em saberes, naquilo de que se fala, naquilo que se lê, no estado de coisas em que se vive, sua malha pré-depositada. Mas, definitivamente, não depende da intenção de um sujeito que aglomera palavras no papel como numa escrita automática, recortando, colando, chegando ao ponto de, com uma mão, se masturbar, e com outra, escrever. Deleuze à la lettre.
Quando se parte da perspectiva vitoriosa da denúncia contra o armazenamento prévio que garantia a solidez de determinadas especificidades, e em seguida aprofunda-se na maneira como a condição de possibilidade dessa vitória é tratada – um ponto de desconexão a priori, a partir do qual se tornaram possíveis as alternativas, a possibilidade de não mais reconhecer isto ao qual se deveria ser conforme – e desse aprofundamento ressoa a perspectiva de que a vitória e as alternativas dependem e colocam em cena um “tudo é permitido”, no qual não há critério ou validade garantida para qualquer proposição, inclusive para as que se valera até então; quando se traça esse caminho, desdobra-se uma in-diferença que ressoa; inutiliza-se o solo das proposições sem as vias diretas do sim ou do não. As proposições adquirem investimentos singulares que emergem em determinado ponto, que por sua vez pode servir de investimento singular a outro ponto, que faz falar ressonâncias implícitas que se acumularam pelo caminho: como, pergunta-se, indicar este ou aquele ponto como responsável pelo investimento ou pela emergência, dizer que tal ou qual proposição, conceito, figura da dimensão do potencial analógico representa um investimento e que outra (por exemplo, a primeiro ironia do último parágrafo da parte 1) representa um agente que faz falar os investimentos que se acumularam pelo caminho? Revolvimento interno, relações diferenciais que persistem nos termos com que se as desnaturam. Antes e depois não importam senão na medida em que se fecham sobre si e se eliminam mutuamente em favor da dimensão cujo nome só importa quando se a faz falar.
Enquanto a lógica jura que a proposição “a montanha de ouro está na Califórnia” não pode ser dita nem verdadeira nem falsa, por não poder ser verificada num estado de coisas, pode-se dizer que frases como “o homem é um animal racional”, “tudo é ficção”, “o devir faz falar o esplendor da linguagem”, “isto é uma árvore” são proposições absolutamente vazias, nem verdadeiras nem falsas, inteiramente vazias enquanto não se relacionarem/ não fazerem falar não um fundo de coisas mas essa “outra” dimensão no limiar da qual a dimensão do potencial analógico toca (e que Deleuze chama de multiplicidades ou singularidades). Um diálogo dito “inteligentíssimo” pode ser inteiramente vazio; assim frases “revolucionárias”, versos de um poema; mas frases ditas imbecis ou conservadoras podem “dizer alguma coisa” se forem trespassadas pela emersão de investimentos singulares envolvidos em uma conjuntura (uma frase específica, por exemplo, que numa discussão faça ressoar algo que vinha se acumulando silenciosamente, há dias). Não é o conteúdo ou estado de coisas, as circunstâncias factuais mas o investimento singular de que faz parte que importa, e, sobretudo, a potência de tal investimento resistir a atribuições de saber, a desnaturações, a relações de poder. Não são as palavras, aquilo a que elas, uma a uma, remetem; não são os pólos, as figuras que interessam; tampouco interessa deixar de se valer dessas palavras – porque do contrário se abdicaria de todas as palavras, se emudeceria; o que se deve é utilizá-las, torná-las subservientes, em conjunto, inter-dependentes, e fazer falar o formigar das singularidades. Produzir o sentido é tarefa de hoje, diz Deleuze. O a priori é o que precisa ser produzido, de maneira que a retratação a posteriori não se torne um pressuposto que substitua a produção de a priori.  Do contrário, dissolve-se na malha dos saberes, na maneira de enfileirar palavras como se vivêssemos no tempo em que de fato bastava dizer palavras e agir para manter a soberania dos deuses e do centro neutro. E não se pode se queixar dessa pretensa dimensão analógica, como se também ela fosse prévia, apontar com o dedo, esquecendo que o “isto é um problema” resguarda um “isto” em que consiste o problema. Um casal de idosos combina não perderem tempo apontando os problemas um do outro. Passam-se semanas e o idoso reclama: por que você fez isto? A idosa reclama: combináramos, não deveríamos reclamar de problemas. O idoso se queixa: então por que você reclama? A idosa: porque você reclamou; aliás, continua reclamando.... Como na anedota dos monges e a vela que se apaga: circulo vicioso, enforcamento em que os pólos se demarcam e Repito: não se trata de abdicar das palavras, trata-se de tornar os pressupostos subservientes, servir-se deles ao mesmo tempo em que se os inutiliza enquanto pressupostos, servir-se de (ler) os pólos, as figuras, os idosos, não por eles, não por conterem A e B que se remetem mutuamente. Definitivamente o que importa na dialética não são os pólos.

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A filosofia de Deleuze, presente em Lógica do sentido e Diferença e Repetição, se dá dentro da perspectiva dos parágrafos acima. Numa época na qual conflui, de um lado, a manutenção de figuras positivas, como o sujeito empírico, a experiência fenomenológica, e, de outro, a denúncia – muito bem feita, diga-se – de todo e qualquer pressuposto, do armazenamento prévio, de sua condição a posteriori e da afluência ativa dos saberes e das relações de poder na manutenção desses pressupostos, Deleuze surge com a urgência de que: 1) “se limitar” a denunciá-los é, apesar dos benefícios, perpetuar sua presença; 2) a submissão a (ou a afluência de) pressupostos – e consequentemente relações de poder – não é inescapável; pelo contrário, pode-se suplantá-los; 3) para isso é preciso se livrar de um pressuposto quase imediato e por isso mais arraigado do que os outros. Nenhuma das três urgências pode-se dizer formulada explicitamente em Diferença e repetição e Lógica do sentido, embora elas os acompanhem. É que Deleuze percebe a necessidade – mais: a efetua – de uma mudança de perspectiva, de postura, o que implicaria, no pensamento, uma mudança na escrita e na leitura (embora a mudança na leitura seja empreendida, por exemplo, por Foucault; vide A arqueologia do saber). Não se trata de estilo – que pode ser atribuído à pessoa –, mas de se colocar desde um ponto em que os estilhaços não se reúnem por intermédio de um saber. A ordem do saber, na qual o sujeito só se constitui se dispersando por completo e da qual não tem o mínimo controle, poderia ser suplantada por um controle no qual o que se dispersaria seriam justamente os significados, os pressupostos, as figuras positivas, em nome do que Deleuze chama de singularidades ou multiplicidades (a dimensão que se tentou produzir e da qual se tentou falar aqui, neste texto), diferenças livres de mediação, a priori que não espalha estilhaços sem imediatamente reuni-los. Dizer, assim, que essa postura se trata de um estilo seria como dizer que a poesia é um estilo pertencente a determinado poeta. Não é a escrita do Deleuze, embora Deleuze seja essa escrita.
A perspectiva que o leva a escrever seus livros ditos “autorais”, que “enraba filósofos” e “lhes faz filhos monstruosos”, consiste numa maneira muito singela de criação. Primeiro, ela não está ligada a um sujeito, não é a criação de um sujeito, “eu crio”, “fulano cria”, “crie você mesmo”. O que significa dizer: ela não é uma escrita focada nos significados, nos saberes aos quais as palavras e as proposições empregadas estariam indissociavelmente ligadas. Mais: significa que ela deixa de ter em conta um isto que permanecesse exclusivamente fora, homem do saber que olha para o mundo e o descreve, se vira para um livro, para um filme e o retrata. Quando escrevo “o homem é um animal racional, que ao longo da história tomou por mero objeto tudo o que não fosse racional, e por isso desrespeitou a natureza a ponto de nos conduzir à iminência de sua destruição”; uma escrita assim (que prosseguisse assim, com essa maneira de escrever, até sua conclusão) tem sua maneira de criar determinada por uma espécie de fome de fidelidade aos significados, à trama lógica, a um estado de coisas, a um isto que a antecede. Ela utilizaria “homem racional” privilegiando o significado dessa expressão, sua veracidade lógica, bem como no restante da frase, que se reporta a um estado de coisas e a uma história na qual as ações do homem se inserem. Chamemos de criação ordinária uma criação que siga esse “modelo”, ou seja, que se preocupe com os significados do que escreve (palavra por palavra, conceito por conceito, quase obsessivamente), com um estado de coisas externo a si, ou com mediações futuras (por exemplo, posso usar essa frase-exemplo como aquilo que vai legitimar, por intermédio de um saber, minha frase seguinte; assim como posso escrever um texto literário “representativo” (o que não é raro encontrarmos, diga-se – embora se possa neutralizá-lo e depurá-lo de sintomas), com personagens, e frases, mesmo que criadas, mesmo que inventadas, ligadas a significados e construções sólidas, e a funções bastante definidas dentro do texto).
Ao contrário, a maneira singela de criar, de enrabar filósofos, e de não respeitar a papai-mamãe, tem como principal característica aquela que subordina os “inelutáveis” pressupostos (os objetos, os conceitos, as proposições, a malha do saber) em função de frases e momentos futuros nos quais tudo o que foi escrito até então vai emergir, ressoando implicitamente (agora inapreensível, momento poético...); ou seja, neutraliza-se e inutiliza-se, na prática, os pressupostos – as relações e os investimentos de poder – com a emergência e soberania de outra dimensão, que continua a ressoar, independente da atribuição ou do sufocamento com que se a desnature. Por isso Deleuze torna inglória a tarefa dos comentadores: se o essencial em sua filosofia é a postura de quem trai pressupostos e conceitos prévios, se o essencial é deixar de lhes ser fiel para investi-los de funções (implícitas) dentro de seu próprio texto, como, então, ser fiel a alguém para quem a fidelidade implicaria necessariamente uma traição?

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Uma positividade que investisse as palavras/ proposições – presos a significados, funções, histórias, pressuposições, pré-existências – de um potencial para ressoar implicitamente no porvir, através de proposições que por sua vez não teriam outro valor senão o de fazer falar o implícito/ as singularidades anteriores; uma positividade na qual os estilhaços não tivessem mais forma, nome próprio, autonomia, cuja reunião não dependesse das malhas de um saber e de cuja in-diferença não afluíssem relações de poder; em suma, “criar”, fazer emergir um mundo, não pelas figuras, não pela ordem, mas pela potência que ressoa implícita, pelo puro processo de gênese através do qual se subordina figuras preexistentes em que o mesmo se desdobra e o pensamento/ a vida (enquanto espaços diferenciais) agoniza: a tarefa continua para hoje, para o agora, para o contemporâneo. Um contemporâneo que falasse desde essa positividade, e consequentemente não se atrelasse a um isto, a um tempo (presente, passado e futuro); um contemporâneo cuja fratura e negatividade proporcionassem e se investissem em função de uma positividade; contemporâneo – não do século XXI, não do ano de 2009, não dos novos que vão se depositando caqueticamente num mausoléu de embalsamados – mas das singularidades, das multiplicidades.

Referências bibliográficas:

AGAMBEN, Giorgio. Prefácio. In: Estâncias. A palavra e o fantasma na cultura ocidental. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
______. O que é o contemporâneo? Trad. Cláudio Oliveira. Rio de Janeiro: UFRJ, 2009.
DELEUZE, Gilles. Conversações. Rio de Janeiro: Ed 34, 1992.
_______. Lógica do sentido. São Paulo: Perspectiva, 2006.
FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997.
PEREC, Georges. A vida modo de usar. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
VERNANT, Jean-Pierre. Les origines de la pensée grecque. Paris: Presses Universitaires de France, 1969.

PEREC, Georges. A vida modo de usar, p. 132.
ibid, pp. 46-47.

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