A revolta permanente e a recusa de cumplicidade com o estabelecido aparecem como os primeiros conceitos catalogados por Murilo. Figurando na categoria dos fundadores, segundo Foucault bipartida entre edificadores e escavadores, Breton aparece pertencendo a essa família – se é possível falar em pertencimento, em se tratando do poeta francês. Aceitaremos a condição frágil do conceito, diante do inusitado caso do tamanduá, descrito por Murilo.
Durante os encontros com André Breton em Paris, entre 1952-1953, o francês oferece o exemplar de seu livro mais famoso, Nadja, com "singular dedicatória: À Murilo Mendes, sur les bandes blanches du grand tamanoir j'écris: de tout coeur son ami André Breton" (MENDES, 1995:1238). A dedicatória não nasce de mera cordialidade, antes é dada pela relação construída na troca de peculiaridades culturais. De um lado, Breton ficara curioso com episódios, homens e coisas que teriam marcado Murilo, tanto no Brasil, quanto na Europa: é o caso do tamanduá. O animal instiga Breton, da mesma maneira que o bicho-preguiça na passagem de Camus pelo Brasil. Segundo Murilo a figura do tamanduá assumia a categoria de totem para o francês.
Ao associar a conceituação de Foucault com o espírito totêmico descrito por Murilo, temos a imagem do escavador da língua. Uma vez que a língua é o instrumento que o animal utiliza para se alimentar dos cupins, o poeta utiliza a língua, também, como instrumento de alimentação: o grande escavador engole menores escavadores.
Ainda nesses encontros, o poeta francês passa a indicar lugares em Paris onde Murilo teria a possibilidade de encontrar o imprevisto – o acaso objetivo –, bem como a localização de cinematecas, onde passavam filmes “idiotas” dos tempos do cinema mudo.
Murilo ainda reconstitui os primeiros contatos com o Surrealismo no Brasil, classificando o que considerou ser um coup de foudre. Mesmo diante de todo o encantamento sugerido pelo movimento, o poeta brasileiro encontra uma tangente, um modo de escolha, afirmando provocativamente o seu modo de adesão: “Claro que pude escapar da ortodoxia. Quem, de resto, conseguiria ser surrealista em regime de full time? Nem o próprio Breton” (MENDES, 1995:1238 – grifos do autor)
Mas o que parece negação, antes é um processo de revisão da própria prática, como se observa na continuidade do relato, em que assume a prática do surrealismo, embora condicionalmente. Citamos
Abracei o surrealismo à moda brasileira, tomando dele o que mais me interessava: além de muitos capítulos da cartilha inconformista, a criação de uma atmosfera poética baseada na acoplagem de elementos díspares. Tratava-se de explorar o subconsciente; de inventar um outro frisson nouveau, extraído à modernidade; tudo deveria contribuir para uma visão fantástica do homem e suas possibilidades extremas. (MENDES, 1994:1238-9 – grifos do autor)
A análise de si ao adotar a prática de outro, vê antes uma maneira de apropriação, não um à maniére de apassivada. Murilo estabeleceu uma relação dinâmica com sua tradição pessoal. Incorporou elementos de sua própria vida, não se restringindo aos modelos apresentados. Com o espírito do deslocamento – podendo ser visto inclusive no modo como viveu, entre fronteiras – antes transfigura, deforma sua formação, como também seus arquivos.
No instigante ensaio de Silviano Santiago, intitulado A permanência do discurso da tradição no modernismo, é tomada em questão a posição de dois leitores da tradição moderna da poesia e de seus executores: T.S. Eliot e Octavio Paz. Nos serviremos apenas do primeiro.
Santiago, ao revisitar Eliot, retoma o famoso ensaio Tradição e Talento Individual, tocando principalmente o sentido de historização que o poeta norte-americano dá à produção poética, ou sentido histórico, em que a perspectiva do passado não deve ser contemplada somente sob a regência do acontecido, mas da contemporaneidade do fato anterior, da permanência do passado. Um escritor não escreve somente com o seu tempo, mas traz para o seu próprio tempo toda a carga e sentimentos do que o precedeu.
Benjamin utilizando outra materialidade aponta e justifica a mesma medida
(...) as fotos se transformam em autos no processo da história. Nisso está sua significação política latente. Essas fotos orientam a recepção num sentido predeterminado. A contemplação livre não lhes é adequada. Elas inquietam o observador, que pressente que deve seguir um caminho definido para se aproximar delas. (BENJAMIN, 1987:174-175)
O olhar armado de Murilo, instrumento de atenção e captação objetiva, move-se na modulação de sua "atmosfera poética baseada na acoplagem de elementos díspares" (MENDES, 1994:1238) sincronizando a tradição à vanguarda de novas técnicas. Nadador entre duas palavras, Breton embaralha escrever e saber. Ao abolir essa divisão, torna a escrita elemento epistemológico e o saber um modo expressional da escrita, extraindo daí o poder pulsional de mudar a vida, uma vez que toda a prática surrealista está ligada à experiência vital, modificando assim os estatutos meramente conceituais, aos quais o modernismo esteve submetido.
Compreendendo assim as práticas modernistas de vanguarda, sentimos a radicalização da crise instaurada com aquilo que se entendia como crítica no Iluminismo; a razão, propalada como vitoriosa, cai diante da barbárie das guerras. O mundo racional, tal como pintado, é uma máscara mortuária em suas representações de progresso. Daí o valor criado em torno do Surrealismo, ao tomar como valor para a arte os processos do inconsciente; o poder de renovação, diante da decadência dos modelos revolucionários da modernidade.
Segundo Foucault, o que se deve, em particular a Breton, não é o espaço das descobertas ou novidades filosóficas, literárias ou artísticas, mas sim o valor da experiência. E o rastro deixado por ele deve-se, principalmente, por seu caráter simultaneamente dispersador e aglutinador de toda a agitação da experiência moderna.
A descoberta do domínio da experiência permitia a Breton ficar completamente fora da literatura, poder contestar não apenas todas as obras literárias já existentes, mas a própria existência da literatura: mas ela também lhe permitia abrir às linguagens possíveis domínios que, até então, haviam permanecido em silêncio, marginais. (FOUCALT, 2006:246)
Murilo caminha para o fechamento do retrato de maneira afetiva ao assumir Breton como personagem fabuloso em sua vida, presença que causava ao mesmo tempo admiração e repulsa. Do gesto e o corpo absorvidos da matéria, resta do valor de culto a saudade, "consagrada aos amores ausentes ou defuntos. A aura acena pela última vez na expressão fugaz de um rosto, nas antigas fotos" (BENJAMIN, 1987:174) na reconstrução do rebelde absoluto da mirada objetiva de Murilo, retrato afetivo de uma vida constituída por uma "quête ininterrupta da poesia, do insólito, do feérico" (MENDES, 1995:1239 – grifos do autor). Um último aceno de despedida que congela nos álbuns familiares a permanência.
BIBLIOGRAFIA
BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas. Magia e Técnica, Arte e Política: Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. Tradução: Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.
FOUCAULT, Michel. Nadador entre duas palavras. In: Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. Organização e seleção de textos: Manuel Barros da Motta. Tradução: Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006. 243-246
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX 1914-1991. Tradução: Marcos Santarrita. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
MENDES, Murilo. Poesia Completa e Prosa. Organização: Luciana Stegnano Pichio. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994.
PEREIRA, M. L. S. . Espaço e memória: Murilo Mendes nos Museus da Europa. In: Maria Luiza Scher Pereira. (Org.). Imaginação de uma biografia literária: os acervos de Murilo Mendes. Juiz de Fora, 2004, p. 15-22.
SANTIAGO, Silviano. Nas Malhas da Letra. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.
André de Freitas Sobrinho (a.k.a. capilé) nasceu na margem mansa do sul-fluminense em 1978, radicou-se na zona da mata mineira (Juiz de Fora) em 1998, onde se graduou em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Publicou em parceria com Carolina Barreto o livro: Dois (Não Pares). organizador do ECO - Performances Poéticas, em Juiz de Fora-MG. Atualmente faz mestrado em literatura brasileira pela PUC-RJ.