



maio/2010
Nuances da metamorfose repetitiva
Carlos de Oliveira via Jorge de Sena
por Leonardo Gandolfi
Entre Jorge de Sena e Carlos de Oliveira, dois dos maiores poetas portugueses do século XX, há pouquíssimos pontos em comum e quase todos gerais. Mais ou menos todos os escritores de um país, que foram contemporâneos entre si, terão algo em comum, mesmo que isso que tenham “em comum” seja um mesmo tipo de problema, um mesmo tipo de mazela, enfim, um mesmo tipo de impasse.
E se estamos falando de impasses literários ou estéticos, eles só assim o foram, porque estão fora da literatura e são – antes de mais nada – impasses sociais, políticos e culturais. Dizer que Sena e Carlos de Oliveira passaram pela mesma atmosfera sufocante do salazarismo é insuficiente, interessante será o que ambos fizeram com isso.
Para fins pedagógicos e delimitadores, a poesia de Jorge de Sena deixou, no mínimo, três marcas indeléveis na cena poética portuguesa da segunda metade do século XX. 1) O redimensionamento do corpo e do amor erótico, influenciando sobretudo a poesia de certos autores que publicaram a partir da década de 70. 2) O procedimento que no livro Metamorfoses ganha destaque, no qual “objetos plásticos” (Sena, 1988, p.12) são transformados em discurso poético, criando uma relação que já não é mais só ecfrástica. 3) Finalmente, Sena diz praticar não uma poética do fingimento (leitura de um modo de estar pessoano na linguagem), mas sim do testemunho, o que pela oposição já é muito coisa, embora devamos desconfiar o quanto há aqui de oposição e o quanto há de contiguidade. É essa noção de testemunho, em Sena, que dá vida ardente ao corpo no poema, testemunho que dá discurso e espessura a objetos históricos como a Pietà de Nignon ou a Cadeira Amarela pintada por Van Gogh. Porque esses objetos vistos a partir de determinados ângulos revelam metonímica e literalmente a humanidade e o que nela é beleza e pobreza: “sentir em tudo, desde as estátuas aos pequeninos objetos domésticos uma humanidade viva, gente viva, pessoas, sobretudo pessoas” (Idem, p.152). Ou ainda: “a compreensão da liberdade, da justiça e da dignidade humana, pelas quais sempre me bati em prosa e verso, como na vida, é a chave que muitas vezes falta aos sabidos que todo lo mandam” (Ibidem, p.14).
Esse acento que privilegia a dignidade do humano não é que estivesse ausente de uma estética do fingimento, segundo Fernando Pessoa, não está. Toda grande obra revela essa dignidade. Mas em Sena, através do testemunho – que cria um efeito de coincidência entre sujeito biográfico e eu-lírico – essa dignidade do demasiado humano, digamos, é o que recebemos quando fruímos os poemas do autor de livros como Fidelidade, Perseguição e Metamorfoses.
Jorge de Sena foi contemporâneo do neorrealismo, disso sei. Mas desconheço suas relações com o movimento. Suspeito que, sendo independente como sempre foi, dificilmente ela comungasse com os preceitos e estética de um neorrealismo stricto sensu, ou seja, eclesiástico. Estética com a qual Carlos de Oliveira, passados alguns anos, acabou não comungando totalmente também. Romper com o neorrealismo como grupo para conseguir, em termos bem diversos, o que Sena conseguira com o testemunho: fazer da espessura da linguagem poética uma forma de alteridade, mesmo que, ao fim e ao cabo, falhada. Diz Sena: "a gente neste mundo alimenta-se ou sobrevive dessas migalhas do banquete dos outros" (Idem, p.14). ou conforme Carlos de Oliveira: "(...) essa fragilidade especial que empurra vida para diante" (Oliveira, 2004, p.69). Para isso, a poesia de Carlos de Oliveira, autor de Finisterra, cultivou um registro muito especial que tornou sua voz singular no panorama da poesia portuguesa.
Conforme o avançar do séc.XX, parece ir surgindo em seus textos certa hesitação entre transformação e imobilidade. "E, se a imobilidade impressiona à primeira vista, logo a seguir torna-se transparente" (Oliveira, 1977, p.54). Isso terá certamente a ver com o conceito marxista de materialismo histórico que dialeticamente vê a história de forma evolutiva e opera por oposições. Porém, nos textos do autor de Entre duas memórias esse progresso se desarma de uma noção linear de tempo e não reivindica um resultado final, como, por exemplo, a revolução que implantou alguns regimes comunistas, totalitários. Em Carlos de Oliveira há sim um dualismo – do jovem militante marxista –, dualismo que em sua maturidade artística se vê frequentemente reexaminado e muitas vezes até combatido. Mas que fundamentalmente continua presente, ainda que em constante revisão e deslocamentos. "Esta dosagem milimétrica de ingredientes (e a mistura deles) pretende eliminar todo resíduo de concepção dualista e sugere-nos uma espécie de materialismo superior", escreve. Esse jogo a que me refiro entre transformação e imobilidade o tempo todo está presente, às vezes tendendo mais para um lado, às vezes mais para o outro. O certo é que essa tensão temporal contínua se manifesta, sobretudo, em um elemento decisivo nesses textos: a paisagem, seja na hesitação graficamente matemática de "Estalactite":
a cal
entre
e a água
(Oliveira, 1998, p.222)
seja na frágil linha traçada pela velocidade do carro em “A viagem” de O aprendiz de feiticeiro. Ainda que pareça se tratar de uma manutenção (imobilidade) que exige um deslocamento (transformação) impossível de se manter:
Entardece ao redor. O carro, um ponto móvel no meridiano da estrada que divide a terra em duas partes rigorosamente iguais, abre ele próprio o sulco da divisão, o único sítio onde podemos passar, e se parássemos, o universo da esquerda e o universo da direita espraiavam-se no alcatrão ao encontro um do outro, bloqueando o caminho, como dois mares de fraga, húmus, água, bichos, árvores, o cataclismo vagaroso que mistura tudo na mesma terna indiferença, porque a ternura é isso, misturar, indiferenciar, e a indiferença (do mundo), como a própria palavra diz, também (Oliveira, 2004, p.9).
Então na obra de Carlos de Oliveira aparece uma imagem, quase um conceito, que funde essas balizas, i.e., permanência e modificação: a “metamorfose repetitiva” aparece em O aprendiz de feiticeiro e significa o seguinte:
Uma consciência peculiar das revoluções da terra (dia e noite, noite e dia) que fecham o efémero círculo sempre repetido. Mas um repetido repetindo sempre as formas na ressurreição quotidiana sem destruir nada em definitivo (a evolução, o desaparecimento de certas espécies, são quotidianamente imperceptíveis) (Idem, p.170).
Tal mecanismo se quer como emulação não exatamente da natureza em sua aparência mais evidente (de um realismo com R maiúsculo), mas como emulação de elementos operacionais e de organização dessa mesma natureza. Aprender com a realidade: agir da mesma maneira que ela. Ainda em O aprendiz de feiticeiro lemos: "o processo para transpor [a realidade] em termos literários está sujeito a um condicionamento semelhante ao dela e até ao condicionamento dela". Porque talvez o que esteja em jogo seja menos a transposição da natureza do que a transposição de seu modus operandi: “em última análise, o processo faz parte da realidade” (Ibidem, p.65). Nas metamorfoses repetitivas não há propriamente só mudança nem só repetição, mas sim nuances, gradações em um processo contínuo. Segundo o autor, tudo “consiste no acto de repetir as formas, quer dizer, de criar formas novas mas idênticas” (Ibidem, p.174, grifos meus), transformação e imobilidade. Assim a paisagem – aquela a que os textos dão origem – parece ser resultado deste processo: “a realidade cria em si mesma os germes da transformação; o processo consiste sobretudo em captá-los e desenvolvê-los num sentido autenticamente moderno” (Ibidem, p.65). A obra de Carlos de Oliveira tentará, de certa forma, alcançar – falhadamente, é bem verdade – essa dinâmica natural que é quando transformação e imobilidade estão tão imbricadas que não é possível separá-las. Assim são as gotas formando as estalactites no poema, imitando a forma, o tamanho das estrofes. “Aqui, encenação e real coincidem” (Oliveira, 1977, p.23), diz um dos narradores de Finisterra. Em suma, a ideia da “metamorfose repetitiva”, melhor, de suas nuances, é de criar em termos literários um equivalente para os mecanismos de transformação da realidade.
E porque as diferenças se tornam transitivas, estas metamorfoses repetitivas terão algo das metamorfoses senianas, de seu testemunho. A hipótese de aproximação aqui se revela, sobretudo, como um exercício do diálogo: "a travessia do deserto (aqui mais solitária mas solidária, compreende?" (Oliveira, 2004, p.164), diz Carlos de Oliveira; "tudo é incerto ou falso ou violento: brilha / tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha", responde Sena. Para então o primeiro arrematar: "Digo apenas que tinha direito à experiência da minha própria liberdade. (...) Veríamos depois o que sairia dessa experiência. Talvez nada. Mas então que alegria triste assumir como última consequência de ser livre a responsabilidade do falhanço" (Oliveira, 2004, p.164).
Eu diria que as duas metamorfoses, a de um e a de outro, se encontram ao fim da travessia, porque as duas seguem na direção do humano e do, porque humano, falhado: testemunho não exatamente de vida, mas de sua espessura. Carlos de Oliveira dá vida a uma natureza fria, a da pequena vida crepuscular e lenta que também traz morte. "De morte natural nunca ninguém morreu / não foi para morrer que nós nascemos", avisa Sena. Para mim, o melhor exemplo dessa espessura humana nas metamorfoses senianas se encontra no poema "A nave de Alcobaça", mais precisamente seu primeiro e seu último verso. Poema que, curiosamente, não deixa de ser também um bom exemplo da metamorfose repetitiva, segundo Carlos de Oliveira. O primeiro verso: "Vazia, vertical, de pedra branca e fria" e vinte e quatro linhas depois o último: "vazia e vertical. Humanidade." Houve permanência e houve repetição, o que não quer dizer que a transformação que aí houve não tenha sido imensa. Da "pedra branca e fria" verso a verso até toda "Humanidade".
Bibliografia
Oliveira, Carlos de. Finisterra. Lisboa: Sá da Costa: 1977.
______. Trabalho Poético. Lisboa: Sá da Costa, 1998.
______. O aprendiz de feiticeiro. Lisboa: Assírio & Alvim: 2004.
Sena, Jorge de. Poesia I. Lisboa: Edições 70: 1988.
______. Poesia II. Lisboa: Edições 70: 1988.
Leonardo Gandolfi nasceu no Rio de Janeiro, onde trabalha como professor de literatura portuguesa. É doutorando de Literatura Comparada na UFF e publicou No entanto d’água (7letras, 2006)