maio/2011 Entrevista com Paulo Scott por Diana de Hollanda
Paulo Scott
Foto: Fernanda Chemale
"A vaidade, como a inveja e outros estados, existe e deve ser controlada para não estragar a vida. Não levo muito a sério os elogios, poucas vezes eles são verdadeiros.

1. O que te seduz além da escrita?

A movimentação física, os deslocamentos, imaginar que encontrarei soluções de rotina que não me entediem e não me façam estagnar. O cinema e a leitura. Conversas interessantes. Algumas variações da solidão. Londres. Garopaba. As musas de Porto Alegre (fui casado com duas – musas, mas não apenas musas – e não canso de me surpreender com essa geografia). A introspecção e a simplicidade (predicados que me são tremendamente difíceis). A capacidade de arrastar tempestades falando baixo. As pessoas alegres e criativas. Olhares (e olhos) calipsos, mas isso já é parte da mitologia de Elrodris (o pseudônimo que uso até hoje quando assino textos no meu blog, no twitter ou quando resolvo, admito que em atenção a impulsos descaradamente infantis, simplesmente instalar a macedônia).

2. No seu blog, em 2008, a respeito do romance para o Amores expressos, você projetava escrever sobre o companheirismo; segurar a pior barra, a pior rebentação, mesmo com pouca história e tempo entre dois. Como ficou essa ideia?

Bom, o que poderia dizer a respeito? Sim, esse é o mote do romance. Penso que a vida se determina a partir de fatalidades e escolhas (mesmo na perspectiva trágica há o agente e este agente pode e precisa escolher), eventualmente essas escolham são apostas, mas apostas que cedo ou tarde precisam se confirmar. Acredito na amizade, e o amor é a forma mais fascinante e desejada de amizade, é o pétreo, mas, sobretudo, acredito na inteligência que nos habilita a reconhecer o que é importante e, mediatamente, demanda nossa atenção, nossos cuidados, nosso destino. Amor e livre-arbítrio – isso pode parecer paradoxal, mas, dependendo da história, não é.

3. E o racismo no Brasil? O que acha dos meios utilizados para manifestar-se?

Duas perguntas complicadas. Há muitos racismos no Brasil, eles variam com a índole, o humor de cada região, de cada cidade, enfim. Venho do sul, onde o racismo é mais explícito, mas ao mesmo tempo é onde os negros, os pardos, têm uma oportunidade cultural, uma condição, que os habilita a quererem mais e a se projetar socialmente, como não acontece com os negros da Bahia, que são pautados por uma subserviência maior. É complicado.

Quando se observa com atenção os critérios surgidos da variedade de matizes da etnia brasileira, descobrem-se códigos, alguns nada sutis, de atribuição de oportunidades, refundando uma tradição que não é justa. Aqui o racismo passa a ser um problema socioeconômico palpável. E mesmo esses critérios variam de lugar para lugar.

Compare-se, por exemplo, o Rio de Janeiro com Frederico Westphalen, uma cidade do interior do Rio Grande do Sul. Os mulatos cariocas que povoam a zona sul do Rio e que (por ter uma pele mais clara e o cabelo liso ou crespo solto) se autodenominam brancos jamais seriam admitidos como tais em Frederico Westphalen. Curioso, não?

Somos miscigenados. Ainda temos um caminho longo pela frente até descobrimos quem somos. Imagino que a emancipação econômica de cada indivíduo responderia rapidamente a essas lacunas tão custosas de serem admitidas e supridas com respostas convincentes. Tentei enfrentar o racismo no livro Senhor escuridão, mas acabei desistindo quando percebi que dentro de mim se implantou uma raiva que em nada poderia deixar minha poesia melhor.

De qualquer forma, sempre que perguntam minha raça, respondo: negra.

4. Quais os livros que mais te impactaram?

Os que me mostraram que dois mais dois são cinco.

5. Pode citar, hm, cinco?

1. A náusea, Jean-Paul Sartre
2. Almoço nu, William Burroughs
3. Catatau, Paulo Leminski
4. Enquanto Agonizo, William Faulkner
5. Viagem ao Fim da Noite, Louis-Ferdinand Céline

Não me atreverei a arrolar os livros de poesia.

6. O que é para o Paulo Scott chegar aos 45 anos?

É gastar ainda mais tempo atrás da poesia que me surpreenda e que me apresente novas linguagens, e assim supra os déficits imensos que há na minha condição de leitor; é temer a falsa humildade dos poetas e a própria companhia dos poetas (poemas e poetas, duas esferas tão diferentes, não?).

É constatar que minha geração está prestes a falhar, como as anteriores falharam. É difícil não relacionar a pergunta com as ações de repercussão política. Os partidos, todos eles, ainda se parecem muito com gangs desejosas de poder. As hierarquias, as verdadeiras hierarquias, demonstram isso (não é à toa que os melhores quadros acabam sempre excluídos do processo, ficam os vassalos confiáveis, os dispostos a obedecer de acordo com a casuística).

Penso, contudo, que ainda há tempo para melhorar. Sou um otimista.

7. Você falou em falha e melhora. Certamente já ouviu o trecho de Beckett “Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.” De onde lhe pergunto: como falhar melhor?

Sem querer escapar das premissas e conclusões avassaladoras dessa assertiva, mas já escapando, eu diria: não reclame da sorte, escreva.
Leia, escreva, releia, reescreva.

8. O que você pode nos dizer sobre Ítaca?

Ítaca é um nome com vários significados, um lugar, um estado de humor, um dia para onde sempre queremos voltar. Rua Ítaca. Ithaca Road. É aquele dia perfeito que nos levou algo que tentávamos guardar em vão. O romance deve sair no final do ano que vem.

9. Fale um pouco sobre sua oficina literária de novembro de 2010 - Autor X narrador, em São Roque, parte do Programa Viagem Literária da Secretaria de Cultura de São Paulo.

Pois bem. Interessa-me a reflexão em torno da autoridade, da autoria, em descobrir também quem é o autor; tendo a diagnosticá-lo como criatura de um criador quase impossível de localizar. Em resumo, e falando muito da minha ótica absolutamente pessoal, daquilo que me move até a escrita, as compulsões, os fracassos, as paixões, as vendetas. Há sempre um contexto histórico e uma pequena tragédia lá no início pautando nossa fidelidade e infidelidades com o que será escrito (e suas tantas leituras).

Com o tema, e sempre procurando não escorregar para o lado do charlatanismo, tento olhar além do jogo. E há os infinitos narradores dentro desse autor, transfigurando-o, às vezes da forma mais perversa.

Penso que perceber a distinção entre autor e narrador garante uma liberdade indispensável: uma liberdade que levará o escritor a descobrir do que de fato ele é feito.

Sei que isso parece ingênuo, romântico até, mas é difícil aceitar que se possa criar com o mínimo de vigor sobre a hesitação – nesse sentido a poesia sempre me ajudou bastante, já perdi tudo o que poderia perder com a poesia, isso me deu certeza na hora em que decidi mudar de vida aos quarenta anos e me candidatar à vida de escritor em tempo integral (embora, sinceramente, eu não saiba aonde esse ímpeto acabará me levando).

10. “Tudo o que poderia perder com a poesia”?

Vou tentar ser o mais honesto possível. Não tenho medo de errar quando escrevo poesia, odeio as soluções deste mundo e odeio a mim mesmo quando escrevo poesia. Não preciso de companhia quando escrevo poesia. Entendo (ou imagino entender) a existência alheia, a solidão e o ínfimo, os vícios e as fraquezas, as virtudes e os ideais, o perdão e a esperança quando escrevo poesia. Coloco as palavras do avesso e as contemplo por horas, dias até suspeitar e intuir, descobrir e inventar as combinações mais áridas (e instigantes?), esse é o meu norte, o belo que há na estranheza, na singularidade. Nada precisa menos do óbvio, nada precisa menos do extraordinário. Brinco até me satisfazer, até me esgotar. Desconheço atividade literária melhor, desconheço outra opção (a prosa é quase um subterfúgio do abismo que é a poesia). Penso que já me expus tanto com a poesia, não tenho medo de pagar o preço, mesmo que a moeda seja a sanidade, o conforto, a saúde. Torço para nunca perder esse destemor.

11. Como funciona o dia de um escritor em tempo integral?

Funciona mal quando você não encontra disciplina, nos dias em que você não se determina. Você faz esse tipo de opção “escritor em tempo integral” quando percebe que o tempo é o seu único aliado, mas isso não é suficiente. Respeitar esse tempo, não desperdiçá-lo, não andar em roda, enfrentar o trabalho, por mais duro e improdutivo que seja; esse parece ser o grande segredo. Ainda estou aprendendo.

12. A experiência de adaptação de Ainda orangotangos deixou um gosto de "quero mais" ou o oposto? Ao escrever seus novos romances, hoje, você já pensa numa possível adaptação para o cinema?

O filme e o livro adaptado são obras totalmente diferentes. Não tenho ingerência sobre os efeitos que meus livros eventualmente exercerão sobre outras pessoas, sobre os leitores e, em alguns casos, sobre leitores que produzem audiovisuais. Aconteceu do livro de contos, Ainda orangotangos, e o romance, Voláteis, terem sido vendidos para o cinema, como aconteceu de uma poesia do Senhor escuridão ser adaptado para o teatro. Não há nada além. Não há fórmula, não escrevo contando com essa possibilidade. Meus textos, minhas narrativas, são imagéticos (se é que é possível essa conotação), talvez, seja isso que desperte o interesse.

13. Em que pé está O habitante irreal?

No momento em que eu enlouqueço?
Falando sério, estou em Garopaba, SC, trabalhando na sua finalização. Há um personagem que aparece em duas notas de rodapé (um que coincidentemente se chama Paulo) e que, por razões variadas, decidi inseri-lo no grosso da narrativa. Isso está fazendo com que a história dobre de tamanho. O lançamento está previsto ainda para este ano.

14. "Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade." (Eclesiastes 1) Quais são as vaidades que mais o acossam? Como lida com elas?

A vaidade, como a inveja e outros estados, existe e deve ser controlada para não estragar a vida. Não levo muito a sério os elogios, poucas vezes eles são verdadeiros.

15. O que você está projetando para 2011 e os próximos anos?

Tenho evitado falar do futuro. Quem me conhece sabe que nunca paro, nunca pararei de inventar coisa nova. O problema é que as invenções têm me tomado o tempo precioso da escrita. Elegi minhas prioridades, ler e escrever estão no topo da lista. Então é isso: minha intenção para 2011 é ler e escrever.

PAULO SCOTT nasceu em Porto Alegre e mora no Rio de Janeiro. Publicou seu primeiro livro, Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros, sob o pseudônimo de Elrodris (Sulina, 2001). Em 2004, foi um dos três finalistas do Prêmio Açorianos de literatura com o livro de contos Ainda orangotangos (Livros do Mal). No mesmo ano, com o ilustrador Fábio Zimbres, fundou o projeto "Na Tábua", misturando literatura e ilustrações (http://www.tonto.com.br/natabua). Em 2005, lançou o romance Voláteis
(Objetiva) e co-roteirizou o filme O início do fim (curta-metragem de Gustavo Spolidoro, 2005, Melhor Curta Brasileiro no Prêmio Jameson Short Film Awards / European Coordination of Film Festivals; selecionado para o SUNDANCE 2006). Além disso, passou a integrar o grupo de colunistas na revista literária eletrônica “Cronópios”. Em 2006, publicou A timidez do monstro (Objetiva) e Senhor escuridão (Bertrand Brasil). No mesmo ano, foi convidado do OFF-FLIP (evento oficial paralelo à FLIP, em Parati, RJ) e escreveu a peça "Crucial dois um" (texto de dramaturgia; contemplado no Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz). Ainda em 2006, ocorreram as filmagens do longa-metragem Ainda orangotangos adaptação de 6 contos do livro Ainda orangotangos (projeto de longa-metragem contemplado no Edital para Produção de longas-Metragens de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura de 2005). Em 2009, criou o projeto “De Modo Geral: Revista Ao Vivo Do Comportamento Brasileiro”. Escreve para várias revistas de cultura do país.

Entrevista com o dramaturgo Jô Bilac por Priscila Fialho Entrevista com J.P Cuenca por Diana de Hollanda Entrevista com Daniela Amorim, diretora artística do projeto_ENTRE Entrevista com o Contador Borges Entrevista com Paulo Scott Entrevista com Michel Laub Entrevista com Tony Monti Entrevista com Ramon Mello Entrevista com Virna Teixeira Entrevista com o escritor Luiz Ruffato Entrevista com o escritor Ferréz Entrevistas com Malu Galli, Marina Vianna e Mariana Lima sobre a peça A Máquina de Abraçar Entrevista com Alexandre Rudáh sobre a montagem Na solidão dos campos de algodão Entrevista com Jefferson Almeida, aluno do curso de Teoria do Teatro, da UNIRIO Entrevista com Daniel Galera Entrevista com Walter Daguerre Entrevista com Diana de Hollanda