fevereiro/2011 Entrevista com Tony Monti por Diana de Hollanda
1. O que pensa da crítica literária no Brasil? Há nome(s) que considera particularmente relevante(s)?
Depende um pouco do que se considera crítica literária. Na imprensa, grande parte dos textos sobre livros são resumões. Tenho a impressão de que são uma versão do release que as próprias editoras mandam, junto com o livro, para os jornais e as revistas. Se a intenção do jornalista é divulgar um livro de que ele gosta, menos mal. Este modo tem ao menos a função de selecionar e indicar uma leitura.

O problema complica quando o jornalista não tem sequer tempo de ler o livro. Não tenho dúvida de que isso acontece muito. A imprensa fica sendo assim um braço publicitário das editoras que fazem bons releases e que têm melhores relações com os jornalistas, influenciando a escolha sobre o que será resenhado. Texto assim é propaganda, obedece aos critérios do dinheiro. Estamos aí muito afastados da ideia de crítica.

Seguindo o mesmo raciocínio, fico pensando no resenhista que acaba de ler um livro e conclui, por qualquer motivo, que o livro não merece uma resenha. Ele tem tempo pago para ler mais um livro, e mais outro, até encontrar um que valha ser comentado? Não tem. Parte de um mecanismo de produção, a escolha do que vai ser resenhado é feita antes de o livro ser lido. Isso é muito ruim. Ocupa-se espaço demais, gasta-se papel e tempo com nada. O espaço que o mundo dá à cultura elaborada, à arte, é pequeno. Ocupar este espaço com nada é bem ruim. Geramos inércia.

Na universidade, há uma produção gigante que, o que é normal, serve para girar a engrenagem e formar mestres e doutores. No meio desse mar de teses e artigos, há alguma coisa interessante que dificilmente atravessará os muros da academia. A crítica literária da universidade conversa pouco com o mundo, o que é uma pena.

No jornal, produzimos rápido demais. Na universidade, isolados demais. Acho que poderia sair boa crítica do diálogo da universidade com a imprensa. Acredito que as humanidades agora isoladas na universidade fariam um bom serviço se ocupassem mais espaços em meios de comunicação não acadêmicos.


2. O escritor, para além da literatura, precisa saber opinar publicamente?

Escritor escreve. Melhor que o faça bem. Melhor que trabalhe para escrever melhor.
Fora dessa especificidade profissional, ele é igual às outras pessoas. Gosto de gente que se politiza, que se entende integrada ao mundo, que consegue assumir compromissos e pensar sobre o que a cerca. Inclusive escritores.

Não gosto daquela parte do jornal da televisão que sai à rua e coloca o microfone na boca de qualquer um para opinar sobre qualquer coisa. É uso empobrecido do tempo.
Se quiserem, escritores podem falar em público. Mas não vejo necessidade. Há já informação demais. A reflexão precisa de bastante silêncio.


3. Essa história da palavra-chave no seu twitter tem aguçado a curiosidade dos seus visitantes. Você se preocupa em conferir a frequência dos que o acompanham? A fama é importante?
Fama é ficar conhecido por muita gente não se sabe por quê?

Eu olho de vez em quando o número de acessos do meu blog.

Eu não leio nada no twitter. Prefiro não procurar entre centenas de mensagens de 140 caracteres uma que vai me fazer sentido. Não sigo mais ninguém. Mas alimento meu twitter com os títulos dos posts do blog e os links para eles. Você se refere a estas palavras-chave? É só um jeito de informar às pessoas que há alguma novidade no blog.


4. A propósito, falando em palavra-chave, você se considera um "homem cordial"?
No sentido do Sérgio Buarque, cordial é uma pessoa que toma decisões e molda seu comportamento a partir de um aparente princípio afetivo. O homem cordial do Sérgio Buarque não é muito confiável, é superficial, não consegue fazer planos nem aprofundar raciocínios. Não é muito vantajoso responder sim para a sua questão, certo?


5. O que se transformou drasticamente na sua escrita desde "O mentiroso"?

Drasticamente, acho que nada (não sei se eu sou drasticamente). Acho que eu fiquei mais detalhista. E a experiência de reler e revisar meu próprio texto me fez aprender a prestar mais atenção em certos aspectos.

Dos livros publicados, “o menino da rosa” é bem diferente. Escrevi o livro sem perceber. Na época, eu estava com a impressão de que só escrevia textos tristes e violentos. Comecei então a escrever no blog pequenos contos para me forçar a contar histórias que fossem menos violentas, mais delicadas e, de certo modo, mais felizes. Alguns amigos gostaram. Os contos formaram um livro e foram publicados.

Eu acho o “eXato acidente” semelhante a ”o mentiroso” nas escolhas dos temas e dos modos de escrever, mas um pouco mais radical em algumas experiências formais. E mais bem acabado. Eu sempre tenho dificuldade de dizer sobre o que os livros são. Um amigo acha que eu sempre quero dizer que viver é difícil, mas às vezes é bonito. Pode ser isso. Às vezes tendo mais para o difícil, às vezes mais para o bonito.

Nunca procurei, mas, apesar das diferenças evidentes, acho que dá para encontrar muitos pontos em comum entre “o menino da rosa” e “eXato acidente”, que foram escritos na mesma época.



6. Pode nos contar um pouco sobre o seu processo de criação?
Não é sempre igual. Não acho que criatividade brota. Nem que criatividade basta. Criatividade é resultado também de trabalho.

O centro, a massa amorfa de onde o texto sai, é em geral um sentimento forte e muito pessoal. Quando estou escrevendo, para moldar as histórias fico atento ao mundo de um modo diferente. Um dos modos do que eu escrevo é esse, moldo o sentimento pessoal com pequenas observações do mundo.

Acontece também de eu ter uma imagem qualquer. Depois eu derivo uma história dessa imagem. Um dos poucos contos que escrevi em 2010 começou assim. Fiquei impressionado com a imagem de uma moça queimando o braço com uma bituca de cigarro. Pensei na imagem de muitos ângulos. Pensei na brasa, na fumaça, na cinza. Pensei na dor. Pensei nos motivos e nas escolhas. Pensei muito no contato do braço bem branco com a brasa vermelha. Derivei significados da imagem e o conto agora existe.

Às vezes começo com uma frase que acho boa. Varia. O ponto inicial pode vir do mundo, de um filme, de um livro, de alguma coisa que alguém fala ou um pensamento mais íntimo.

Mas, sobretudo, eu trabalho muito nos contos. Reescrevo tudo muitas vezes. Acredito nesse esforço de edição. Às vezes o que se chama de criatividade é só uma ideia intensa. Pode ser boa, mas não é uma narrativa. Uma narrativa precisa criar imagens e nexos em uma extensão. Esticar aquela intensidade criativa exige trabalho e tempo.


7. Existem escritores brasileiros atuais indispensáveis para a leitura de um escritor iniciante?
Posso trocar “escritores indispensáveis” por “escritores que eu recomendo”?
Dos escritores brasileiros contemporâneos que li, gosto do Nuno Ramos, do Paulo Rodrigues e do Lourenço Mutarelli, para citar os que lembrei imediatamente.


8. Existe algo indispensável para você como escritor?
Você já teve a sensação de que não sabe usar uma palavra?, uma palavra que você conhece e entende quando outras pessoas a pronunciam. Acho que não falo ou escrevo “indispensável”. Não uso a palavra. Mas vou tentar.

Ler é indispensável. Estar disposto a mudar de ideia é indispensável. Estar atento ao mundo é indispensável. Às vezes me perguntam se o que eu escrevo eu invento ou aconteceu. É tudo verdade. É bom estar atento.

No meu processo particular, gosto de ter amigos que leiam o que eu escrevo, que deem palpites antes de o texto ser publicado. É muito difícil escrever. Um dos motivos é que a gente tem pouco contato com o destinatário dos textos. Quando a gente conversa, a gente pode mudar os rumos ou explicar alguma coisa se recebemos um sinal de má-compreensão ou reprovação. Ter alguns leitores antes de decretar o fim dos textos me ajuda muito. Posso mudar os rumos. E, quando possível, escutar o que os outros dizem dos livros já publicados, tentar entender o que resultou no leitor daquilo que nasceu em mim.


9. Um dia me contou que sua escolha do mestrado foi impulsionada por não entender "Clarice Lispector". Você se preocupa em entender?
Eu já gostava bastante da Clarice, mas não entendia especificamente um livro, “A paixão segundo G.H.”. Foi ele que estudei no mestrado. Eu procuro entender as coisas, sim. Às vezes imitar basta, às vezes sentir basta, às vezes viver basta, mas eu tendo a querer entender.

A própria Clarice dá uma resposta para isso. O livro começa assim: “- - - - - - - estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender.” No fim do livro, depois de insistir e insistir em entender, a personagem desiste. Mas desistir, depois desse esforço, é o próprio prêmio. Antes de desistir existe um percurso de esforço, existe uma extensão. Existe um entendimento parcial. Penso agora mais no “entendimento” que no “parcial”. O “parcial” é um borrão das fronteiras do entendimento. Desistir de entender talvez seja aceitar um borrão maior. Mas não é questão de sim ou não. Entender é sempre um pouco foco e um pouco turbidez.

Pensando de outro modo sobre a palavra “entender”, eu acho um desperdício de energia acreditar em tudo. Em horóscopo, em santo, em milagre, em homeopatia, em reiki. Eu tento submeter minhas escolhas a algum entendimento. Às vezes não entendo, não me convenço. Isso não quer dizer que não arrisque aceitar o que não entendo, mas há uma ponderação antes do investimento. Não preciso entender a televisão, mas tenho uma ligada aqui em frente. Se eu apertar o botão verde, ela desliga. Passou no teste. Horóscopo, santo, milagre, homeopatia e reiki por enquanto não passam. Clarice Lispector passou antes de eu entender.


10. Quais as motivações do Tony Monti acadêmico?
Minha vida acadêmica está subordinada à atividade de escrever literatura. Quero escrever e pagar o aluguel. A vida acadêmica conjuga essas duas possibilidades.

Infelizmente ela é moldada por vários outros condicionantes, que não são escolhidos por mim, aos quais me submeto. Acabo o doutorado em poucos meses. Há anos sinto falta de interlocutores dispostos e generosos. Não os tenho encontrado com frequência na universidade. As pessoas estão com pressa, têm que cumprir alguma tarefa. Ou estão sozinhos escrevendo, em casa ou na biblioteca. Lá, sinto falta de boa conversa. Talvez não sejam as pessoas, mas as condições. O prédio das Letras na Usp só tem corredor. Não tem onde parar. Não foi feito para conversa.


11. Acredita nas fronteiras entre os gêneros literários? Pensa em escrever roteiros para cinema?
Os gêneros servem para a gente pensar o texto. É preciso delimitar para entender e para comunicar. Os gêneros são ferramentas. Não me parece uma questão de acreditar. É uma questão de utilizar. Há situações em que são úteis. Há situações em que são inúteis, inadequados.

Já pensei em escrever roteiros. Há dois anos fui convidado por um produtor para escrever o roteiro de um longa-metragem. O patrocínio não saiu e o projeto não chegou a começar. Não escrevo roteiros por receio de eles ficarem engavetados. A possibilidade de um roteiro ser filmado seria motivo suficiente para eu repensar as prioridades. Por enquanto, fico nos contos e nos romances.


12. E por que não poesia?
Porque eu não entendo bem poesia. Poesia me parece sempre um fragmento de prosa, sabe? Gosto de bons fragmentos, às vezes eu até os publico, mas ainda acho que eles são prosa e não poesia. Mesmo quando eu distribuo as frases no papel de algum modo irregular. Escrevo então romances, contos e fragmentos.


13. Fale um pouco sobre seus projetos para 2011 e os próximos anos. (Pretende continuar morando em SP?)
Tudo está adiado até que eu acabe o doutorado. No segundo semestre volto a pensar em um romance que comecei a escrever e em um livro de contos temáticos sobre relacionamentos afetivos. Há dois contos desse projeto de livro numa coletânea que deve sair ainda no primeiro semestre. Chama-se “Geração Zero Zero”. São contos de escritores que começaram a publicar na década passada.

Comecei o romance há bastante tempo, mas por motivos diversos ainda não continuei. É sobre uma pessoa que passa dias indo a um hospital sem ter um grande motivo para estar ali. Fica na sala de espera durante os horários de visita. Não é uma história sobre um hospital. Você assistiu M.A.S.H.? É um filme de guerra sem guerra. A minha história é uma história de hospital quase sem hospital.

Para os próximos anos, os planos são arrumar um jeito de ser melhor remunerado escrevendo, de pagar o aluguel com os livros e não com a vida na universidade.

Tony Monti é autor de O mentiroso (7Letras, 2003), o menino da rosa (Hedra, 2007) e eXato acidente (Hedra, 2008). No primeiro semestre de 2011, dois contos seus serão publicados na coletânea Geração zero zero, a ser lançada pela editora Língua Geral. É doutorando em Literatura Brasileira na USP, com um projeto sobre as figuras do artista e do assassino nos contos de Rubem Fonseca. No mestrado, estudou A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector. Escreve regularmente em seu blog pessoal www.tonymonti.wordpress.com
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