



julho/2011
Entrevista com o Contador Borges
por Diana de Hollanda
Foto: Marcela Jones

1. Por que Sade?
Porque Sade balança os conceitos, critica as principais instituiçoes humanas, apaga a fronteira entre os corpos, ou seja: poe o homem em questao. E tudo isso em nome da racionalidade. A obra do "divino marques", como é chamado, nos poe em contato com o demasiado humano. Isso é ótimo para uma reflexao ampla e aguda sobre nós mesmos, a sociedade, o erotismo, a vida, a morte. Em suma: levando tudo as últimas consequencias, para além de todos os limites, Sade nos ensina a pensar. Nao para imitar as açoes de seus personagens, isto é, praticar violencia contra os outros, mas para compreender o que é violencia, o que é o homem no extremo de si mesmo. Além disso, sua literatura é riquíssima: a escrita, o estilo, a operaçao textual que corre por dentro, criticando toda uma tradiçao romanesca na chave da paródia e da desconstruçao. O que Sade discute no fundo é a própria realidade, passando para o leitor a possibilidade de olhá-la de outro modo, além da luz racional (conforme o projeto iluminista), sondando também suas regioes sombrias e perturbadoras.
2. Sade, na sua "Ideia sobre os romances", afirma que "a Virtude, para sobressair-se, necessita ser atormentada pelo vício". Fale-nos um pouco sobre esse conceito libertino.
A ideia de "atormentar a virtude", isto é, construir cenas, episódios nos romances nos quais as personagens-vítimas sofrem agressoes de todo tipo por parte dos personagens-libertinos, é uma jogada retórica de Sade, que desse modo expoe as linhas mestras de seu pensamento. Conforme essa tese, a virtude, as boas açoes, enfim, a chamada bela moralidade humana, só triunfam nos romances quando mostradas a partir do sofrimento das personagens. Isso implica uma visao sobre o fazer literário. É também a ideia do pensador frances Georges Bataille, um escritor que de certo modo continua o pensamento sadiano: a verdadeira literatura está ligada ao mal. Caso contrário, a leitura perde o interesse. Fica insípida, previsível, confirmando apenas aquilo que supostamente já sabemos. Shakespeare, Cervantes, Dostoiévski e Kafka, por exemplo, exploram magistralmente, cada um a seu modo, este viés.
3. Quando seu personagem filósofo, no monólogo escrito por voce, afirma que o mais importante em sua obra era aquilo que nao disse do que o que de fato disse, voce faria uma analogia com a sua produçao? Voce pensa que ainda tem muito conteúdo a se desenvolver pedindo linguagem?
Sem dúvida. Uma obra se faz como uma resposta ao déficit que ela necessariamente tem em relaçao ao ideal. Os livros que escrevemos sao os livros possíveis. Mas os escrevemos apostando no impossível, que no fundo é inalcançável, senao perderia totalmente sua aura, seu mistério. O impossível nao é conhecimento, é nao-saber, pertence ao reino do silencio. É algo que se faz presente, indiretamente falando, na experiencia poética. O reino do silencio, o desconhecido, é muito maior do que aquele em que se situam as coisas conhecidas. Nesse sentido, o essencial é aquilo que um escritor sempre tenta exprimir. No entanto, quando ele rele o que escreveu, tem geralmente a sensaçao de que, por melhor que tenha ficado a obra, o essencial nao está ali. O essencial é a substância inter-dita do texto. Por isso o essencial nao se diz totalmente. Na melhor das hipóteses pode ser tocado, como quem suavemente roça a pele do corpo que deseja. Tento exprimir isto em um poema de meu livro O reino da pele: "O toque: certeza / da explosao mais cedo (...) o corpo avança no imenso / o corpo e seu cardume de fragilidades / como se a febre fosse sempre / a razao deste silencio / de concentraçao extrema / como poucas no planeta / e só estamos no escuro / no começo da pele".
4. Como é ser professor de filosofia?
Exercitar com os alunos o trânsito entre o concreto e o abstrato, tentar mostrar que esta fronteira nao existe propriamente. Pensar pode ser uma atividade paradoxal e vertiginosa, que assusta as pessoas que passam pelo nosso vetusto sistema educacional, sabidamente retrógrado e conservador desde muito tempo. Para estes alunos, o estudo de algo se faz linearmente, e, de preferencia, de modo cronológico, como se cada coisa tivesse um lugar fixo, estanque, na história da filosofia. Acredito no oposto. Pensar é tirar as coisas do lugar, bater o pó dos conceitos, fazer cruzamentos, aproximaçoes inusitadas, enfim, pensar em termos de diferença e nao por definiçao e identidade. Pensar é ativar a potencia do ser. Ensinar, de certo modo, é pôr a prova esta possibilidade, torná-la instigante, irresistível ao aluno. Isso nao é fácil, porque, para potencializar o outro, nao basta estar potencializado. É preciso também reverter desconfianças, resistencias, as relaçoes de força contrárias que funcionam de modo reativo, isto é, tentam impedir que o movimento afirmativo do pensar coletivo se produza como um acontecimento essencial. Ou uma aula levanta o pensamento ou ela nao serve para nada. O aluno ouve e depois esquece como fazemos com as cançoes descartáveis que tocam todos os dias nas rádios.
5. Qual foi o livro ou o ensaio que mais gostou de traduzir? Por que?
Nada do que traduzi me deixou muito satisfeito. A traduçao é uma arte suspeita. A rigor nao se pode traduzir literatura, principalmente poesia, pois a literatura é uma expressao linguística genuína de cada cultura. Como reza o ditado, traduzir é trair. No entanto, a arte tradutória existe. É milenar. Graças a ela o conhecimento dos povos, sua experiencia e memória se disseminam, se expandem. E isso é fazer cultura, um modo de nos aproximarmos uns dos outros, eliminando barreiras, os limites, entre povos e línguas. Vaso comunicante entre duas ou mais línguas, a arte da traduçao é nobre e vital para o desenvolvimento da humanidade. Comecei criticando o ofício do tradutor e termino com uma apologia. De fato, a traduçao também nao deixa de ser um genero literário. Um genero que vive de falhas, de erros, de equívocos, de inevitáveis lacunas, mas também de estranhamentos e acertos. Isso representa seu limite, mas também sua glória, seu valor inestimável: como nenhuma traduçao é definitiva, a operaçao tradutória torna-se um exercício literário em si mesmo, atualizando e renovando nao somente o texto de partida, como também as formas da escrita na língua de chegada. Nesse sentido, o bom tradutor é como alguém que transporta um tesouro de um lugar para outro. O problema é que, para legá-lo a grupos de outra língua, ele tem que meter a mao na propriedade alheia. Mas a ética da traduçao, alguma certamente haverá, recomenda que o tesouro, ainda que alterado, transferido para outro papel-moeda, deve oferecer ao leitor ao menos um objeto de valor equivalente, porém jamais o mesmo. A traduçao vive dessa ambiguidade, vale dizer, dessa necessária diferença. É por isso mesmo que pode ser considerada uma forma de literatura a parte.
6. Há algum aluno que voce já respeita como podendo ser seu mestre.
Meus alunos sao muito jovens ainda (risos). Mas a respeito disso gostaria de dizer o seguinte: enquanto nossos mestres vivem, podemos dizer: bem, acho que incorporei algo dele. Mesmo depois de mortos, na melhor das hipóteses, existem os livros, as obras, as anotaçoes de classe, toda uma gama de registros testemunhando o rasto de seu pensamento, que é sempre um elo com a vida. No entanto, chega um momento em que temos que criar algum domínio, ainda que errante; um domínio ilusório constituído pela contemplaçao poética, já que, no limite, nao há muita distinçao entre teoria e invençao. Com isso, podemos dialogar melhor com os nossos mestres. Nao para segui-los cegamente, pensamento nao é dogma, mas para caminharmos lado a lado realizando um propósito incomum. A grande dificuldade, as vezes, é saber de quem é o corpo que caminha e de quem é a sombra (risos).
7. Olhos, cegueira, pálpebras, cílios, essa geografia do olhar tem sido recorrente em sua obra: o enlevo dos olhos; o herói com olhos cheios de noite; olhos doutos quiromantes... Por onde segue o olhar de Contador Borges depois do seu livro A morte dos olhos?
A topografia que voce descreve sao marcas do corpo simbólico na escrita. Todo autor tem seus termos recorrentes que em geral remetem uns aos outros. Ele vai deixando pistas para o leitor, formando com estes signos um campo de força que atravessa a obra. Muitas vezes os sentidos sao criados em funçao disso mesmo. Para mim, tudo começou com a poesia. Ou seja: pelo mais difícil. E também por entender que ela é o núcleo irradiante, a dimensao maior da operaçao textual. A poesia é um modo de dizer o ser. "Quanto mais poético, mais verdadeiro", nas palavras de Novalis. Mas me interesso por vários generos. Este ano deverá sair A cicatriz de Marilyn Monroe, um texto híbrido do ponto de vista dos generos: poesia, narrativa, drama, ensaio. Concluí também uma peça de teatro, Insônia ou A Sombra da Lua, despudoradamente autobiográfica. O que nao quer dizer muita coisa, pois toda biografia pode ser lida como ficçao, já que em literatura nao existe propriamente distinçao entre o real e o fictício: toda ficçao é realidade em potencial, assim como toda realidade tem um caráter fictício, inventado, pois o que chamamos realidade nao passa de uma construçao. Além disso, concluo um ensaio sobre o pensador frances Georges Bataille, que é minha tese de doutoramento, arrastada há anos. Meu projeto mais recente é coletivo: a fundaçao de uma companhia de teatro: a Cia Querosene de teatro experimental. O que disse acima vale evidentemente para o teatro: teatro é vida, e, mais paradoxalmente falando, o espaço ritualístico no qual observamos a vida em seu fluxo, ao mesmo tempo distanciados e o mais próximos possível.
Minibio
Contador Borges leciona Filosofia na Escola de Sociologia e Política de Sao Paulo. Como academico, concentra a sua pesquisa na relaçao entre Erotismo e Literatura. Poeta, Ensaísta e Dramaturgo, publicou as obras: Angelolatria (1997), O Reino da Pele (2003), Wittgenstein! (2007) e A Morte dos Olhos (2007). Traduziu Aurélia, de Gérard de Nerval, O Nu perdido e outros poemas, de René Char, A Filosofia na Alcova, do Marques de Sade, Diálogo entre um padre e um moribundo, do mesmo autor, entre outros livros. Publicou diversos artigos e poemas em jornais e revistas no Brasil e no exterior. É organizador e coordenador da Coleçao Pérolas Furiosas da Editora Iluminuras, dedicada as obras do Marques de Sade. Prepara-se para lançar os livros: A cicatriz de Marilyn Monroe (poema/monólogo dramático) e Insônia ou A Sombra da Lua (peça de teatro).